De cabeça baixa


Kundera 80
Abril 1, 2009, 3:37 pm
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Milan Kundera, um dos favoritos aqui de casa, completa 80 anos hoje. Talvez o maior escritor vivo do mundo (opiniao, cada um tem a sua).

Aproveitando a emeferide, alguns trechos do autor exatamente sobre “tempo” (meu teclado esta desconfigurado – perdoem a falta de acentuacao):

“Esse sorriso e esse gesto eram cheios de encanto, enquanto que o rosto e o corpo nao eram mais. Era um encanto de um gesto sufocado no nao-encanto do corpo. Mas a mulher, mesmo que soubesse que nao era mais bonita, esqueceu isso naquele momento. Por uma certa parte de nos mesmos, vivemos todos alem do tempo. Talvez so tomemos consciencia de nossa idade em certos momentos excepcionais, sendo, na maior parte do tempo, uns sem-idade.”

(A imortalidade, p.9-10)

“Quanto mais vasto o tempo que deixamos para tras, mais irressistivel e a voz que nos convida ao retorno. Essa frase parece evidente, e no entanto e falsa. O homem envelhece, seu fim se aproxima, os instantes se tornam cada vez mais preciosos e ele nao tem tempo a perder com suas lembrancas. E preciso entender o paradoxo matematico da nostalgia: ela e mais poderosa na primeira juventude, quando o volume de vida passada e inteiramente insignificante.”

(A ignorancia, p.64)



Literatura de resultados
Fevereiro 13, 2009, 1:49 pm
Arquivado em: literatura

Precisa a observação de Alcione Araújo no Globo de quinta-feira sobre a percepção de que as pessoas querem uma literatura de resultados. Como dramaturgo, ele também aponta para o fenômeno do teatro carioca atual montar basicamente comédias escrachadas e esquetes cômicos. Outro dia estava no jornal uma frase de uma atriz dizendo que o público só vai ao teatro hoje em dia para rir. E já que é assim, é hora de montar apenas comédias.

O cinema seria, generalizando, para se divertir e emocionar.

E os livros? 

Livros passaram a ser meros objetos de aprendizado relâmpago. Como se isso fosse possível. A ficção só interessa quando tem um ensinamento de sabedoria de eremita (ou bruxo ou livreiro afegão) por trás.

 

É a setorização da arte. Ou a arte de resultados. Chama o Parreira…



Nabokov sorri
Fevereiro 5, 2009, 4:34 pm
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Um dos autores que conheci recentemente foi o português Pedro Paixão, do qual li Viver todos os dias cansa. Em seu site pessoal o autor postou um pequeno video de um programa de televisão americano em que o escritor russo Vladimir Nabokov fala sobre Lolita. Um crítico, que infelizmente não diz seu nome, mas que fuma sem parar, é perguntado sobre suas impressões sobre Lolita logo após Nabokov falar.

“You can’t trust creative writer to say what he has done. He can say what he meant to do. Even then you shouldn’t believe him.”

Nakokov sorri.



Parede
Fevereiro 5, 2009, 4:07 pm
Arquivado em: literatura

De Luiz Ruffato, numa belíssima e sincera entrevista no Paiol Literário, transcrita no Rascunho de janeiro:

“Naquela época, eu era adolescente, malucão e tal, e não conseguia me adaptar. Então, todos os dias – era um colégio lindíssimo, um projeto do Niemeyer -, eu descia na hora do intervalo, para o recreio, e ficava encostado nas paredes, para ninguém me ver. (…) Numa dessas vezes, eu andando encostado pelas paredes, caí na biblioteca do colégio.”

Tem uma cena parecida no livro que estou escrevendo. Um menino que não consegue; um recreio; desejo de sumir; mas sem biblioteca redentora.



No tribunal de meu pai
Janeiro 13, 2009, 2:25 pm
Arquivado em: Imprensa, Indicação de livros, Resenhas, literatura

Saiu no último sábado, no Globo, uma resenha que escrevi sobre No tribunal de meu pai (Companhia das Letras), livro do genial Isaac Bashevis Singer. Quem sabe a resenha deixe mais pessoas com vontade de ler o livro.

 

“Numa rua mítica de um bairro pobre de Varsóvia, início de um tumultuado século XX que subverteu e aniquilou tradições, sempre que dois judeus tinham uma contenda a ser resolvida batiam na porta do apartamento da rua Krochmalna 10. Lá acontecia o Din Torá, julgamento rabínico, da região. Discussões sobre casamentos a serem feitos ou desfeitos, pequenas transações financeiras, aflições do bolso e da alma. Tudo era com o rabi Pinhos-Mendel. No canto do aposento, rosto escondido pelas roupas negras hassídicas e os cachos laterais ruivos, o filho do rabino, o menino Isaac Bashevis Singer.

Em “No tribunal de meu pai” (Companhia das Letras), o escritor polonês, Prêmio Nobel de 1978, relembra as histórias que ouviu naqueles anos em que era apenas um filho de um rabino hassídico num bairro pobre judeu. As 49 crônicas reunidas neste livro foram publicadas espaçadamente no jornal “The Jewish Daily Forward”, sob pseudônimo. O livro, que assim como toda a obra de Singer foi escrito em iídiche, língua que, por sinal, era a utilizada nas conversas escutadas na Krochmalna, foi traduzido para o inglês e publicado originalmente em 1966, já com a assinatura do autor. Esta é a primeira edição do livro no Brasil.

Para quem é fã de do escritor, este livro é um passo além. Escritas como crônicas autobiográficas, as historietas descortinam um Singer em estado bruto, que volta a infância e ao apartamento desprovido de móveis sempre que precisa recuperar a ingenuidade perdida com os anos posteriores. O trabalho de narração em “No tribunal de meu pai” é admirável; conciso, sem marcas de deslumbramentos, sem juízo de valor. O escritor consegue a proeza de voltar a enxergar com os olhos de criança, espantando-se com novidades, levantando questionamentos metafísicos próprios da idade, se surpreendendo com cada novidade fora do pequeno circulo da escola, seder, e de casa, um minúsculo apartamento onde o gabinete do pai era o único luxo. levantando questionamentos metafltar a enxergar com os olhos de criança, espantando-se com novidades Krochmalna 10.

Lançado posteriormente, o livro de memórias “Amor e exílio” apenas esboça questões que são tratadas com muito mais caudalosidade em “No tribunal de meu pai” e que moldaram a cabeça do autor. Histórias que ganham uma linha na autobiografia são contadas neste livro com riquezas de detalhes; a relação conflituosa da irmã mais velha com a mãe, os passeios proibidos pelos bairros não-judaicos de Varsóvia, a visita de parentes que ele até então só conheciam de narrativas quase míticas, a fome com a Primeira Guerra Mundial, a expectativa pelas notícias que vinham do Oriente com a derrubada do czar e a Revolução Russa.

Numa casa em que, segundo o próprio Singer, a “religião, o judaísmo, era virtualmente o ar que se respirava”, o autor cresceu espremido entre a religiosidade crédula e simbólica do pai, que passava o dia lendo e anotando seus comentários, alheio a realidade daquele início de século, e o racionalismo religioso da mãe, prática dona de casa esposa de rabino. Um caso peculiar, que ilustra com perfeição essa fissura entre o comportamento dos pais, é narrado na deliciosa história de uma senhora adentra o gabinete do rabino com dois gansos degolados, mas que mesmo assim grasnam sempre que friccionados.

“A mulher pegou um ganso e o atirou contra o outro. Imediatamente ouvimos um grasnido. Não é fácil descrever esse som. Era como o grasnido de um ganso, mas proferido em tom tão alto, tão lúgrube, tão plangente, tão sofrido, que minhas pernas ficaram enregeladas. Eu chegava a sentir os cabelos de meus cachos laterais me pinicando. Queria fugir dali. Mas para onde? O medo constringia minha garganta. Então eu também gritei e agarrei-me à saia de minha mãe, como um menininho de três anos.”

Espantada, a senhora quer saber se os gansos continuam kosher ou não – perder dois gansos naquela época seria uma tragédia. O rabino, assustado, assustadíssimo, cita o Criador, histórias de pessoas possuídas por espíritos ruins, e está prestes a recomendar que os gansos sejam enterrados, quando a esposa sai do mutismo com duas perguntas para a senhora ao mesmo tempo em que enfia o dedo na goela do ganso decepado e arranca a traquéia. Repete o procedimento no outro, e desafia a senhora a fazê-los grasnar novamente.

O Bashevis Singer que emerge daquela casa é um jovem que questiona tudo que está à volta, quer saber cada vez mais e mais, mas não perde os olhos da beleza das pequenas coisas, e de uma religiosidade quase sagrada, mas sem ser levada ao pé da letra.

A disposição cronológica das histórias possibilita ao leitor acompanhar o crescimento de Singer. Do menininho crédulo e obediente do início do livro até o pré-adolescente já interessado em artes, literatura e mulheres e com a certeza de que o mundo era muito maior do que aquele apartamento. Colabora muito para isso o irmão mais velho, Israel Joshua, também escritor, que já entrara em atrito com o pai e vivia fora do círculo fechado daquele apartamento.

“Familiarizei-me com os hábitos da intelligentsia. Não rezavam, não estudavam livros sacros nem diziam a bênção. Consumiam carne com leite e infringiam outras leis. (…) Embora falassem iídiche, aqueles jovens comportavam-se com a mesma liberdade que os gentios. Era uma mudança e tanta em relação ao ambiente que imperava no gabinete de meu pai, porém tenho a impressão de que esse é um padrão que se tornou inerente em mim.”

Singer se muda com a mãe para Bilgoray, pequena aldeia judaica, aos 13 anos. O livro acompanha o adolescente neste início de nova vida. O que acontece depois: o retorno para Varsóvia, a viagem para a América pouco antes da Segunda Guerra, é história. E essa Singer também já contou, mas em outros livros. A vida que restou presa naqueles anos do início do século foi engolida pelas guerras da primeira metade do século XX, mas a habilidade narrativa do autor faz com que elas renasçam, pelo menos nas 360 páginas deste livro.”



Liviu, Levi
Novembro 25, 2008, 2:48 pm
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Aproveitando o assunto, mais um texto antigo retirado do Bohemias. Para quem não se lembra, fatos reais.

Liviu, Levi

Liviu Librescu ouviu os gritos, depois os tiros. Muitos. Em seguida o silêncio, as risadas. As mesmas risadas. E o silêncio, passos vindo em direção a sua sala de aula.

Professor de engenharia da faculdade de Virginia Tech, com especialização em aeronáutica, Liviu L. tinha apenas alguns segundos. Poderiam ser centésimos; ele sabia o que deveria ser feito.

Sobrevivente do Holocausto, um dos poucos que viveram para contar o extermínio de judeus e outras minorias pelos nazi-fascistas na Segunda Guerra Mundial, Liviu L. trancou a sala onde dava aula para sua turma de aterrorizados jovens de 20 anos.

Ele, de 75, soube já aos 10 que uma pessoa pode matar a outra sem motivo. Descobriu na marra como sobreviver numa situação dessas. Minto. E aí estaria colocando em heroísmo algo que não sei se cabe em molde tão límpido.

Os gritos, os tiros, o silêncio, as risadas, os passos vem cobrar dele, somente dele, uma dívida. É a morte, 60 anos depois.

Liviu L. não precisa de muito tempo. Tranca a porta e cola seu corpo nela, fazendo toda força nas pernas e no tronco para agüentar as pancadas que virão.

“Corram, fujam pela janela.” A ordem aqui confusa deve ter sido clara para aqueles alunos aterrorizados. Fujam! E todos levantaram, em pânico, abriram as janelas e começaram a evacuar a sala. Mais gritos, mais passos. Talvez neste momento a primeira pancada, chute na porta.

Fujam, ele deve ter gritado outra vez, fazendo força contra a porta. Nova pancada, essa mais pesada. A porta quase cede. É a morte que vem me cobrar uma dívida, ele deve ter pensado nesse segundo em que Cho Seung-Hui deu dois passos para trás e disparou o primeiro tiro, que atravessou a porta e o acertou na barriga.

Os últimos alunos saltam pela janela, os olhos de Liviu L. se nublam, as forças na perna sumindo. O corpo cansado, baleado, se curva. O cheiro de pólvora que ele reconhece. O cheiro de sangue que ele reconhece. O cheiro de carne queimada.

Com um chute de C.S-H a porta voa, atinge o corpo de Liviu L., que cai no chão. O silêncio. A morte entra na sala e leva apenas ele, com dois tiros no coração.

*

É preciso, então, lembrar de outro sobrevivente do Holocausto, de Auschwitz: Primo Levi. O químico italiano passou anos em campos de concentração durante a Segunda Guerra, e depois em campos de refugiados numa Europa confusa, pobre e destruída.

Primo viu a morte levar quase todos em sua volta naqueles três ou quatro anos que viveu de pesadelo, sangue, lama, fome, frio, humilhação e doença. Sobreviveu para contar. De químico, ocupação que o ajudou a não morrer diversas vezes no campo, à escritor. Uma profissão útil, que o salvou, de repente sem sentido. E o que restou foi escrever. Livro sensacionais e definitivos como A trégua e É isso um homem?.

Mas uma hora as distantes paredes entre religião, acreditar que tudo, mesmo um massacre, tem sentido, e a total negação da vida se aproximam e esmagam uma pessoa. Para Levi deve ter sido assim, e com 68 anos, em 1987, 40 depois de sobreviver ao Holocausto, escrever livros contando tudo que viu e viveu, o italiano se suicidou, ainda se perguntado por que ele, e não outro, sobreviveu.

Liviu L. não tinha talento para escrever, contar. Passou os últimos 60 anos estudando e dando aulas de engenharia na Romênia, Israel e, nos últimos vinte anos, nos EUA. Para ele estar ali, naquele momento exato que precedeu os gritos, os tiros, as risadas, as mesmas risadas, os passos, os gritos e o cheiro de pólvora e sangue, alguém segurou uma porta para ele sobreviver, alguém escreveu livros e matérias para ele sobreviver, alguns até mataram e se mataram para ele sobreviver. E naquele segundo antes da morte vir cobrar a sua dívida, ele entendeu tudo isso.

*

Este texto nasceu de uma conversa com a minha mãe sobre o atentado; à ela, que já segurou muitas portas para mim, eu agradeço.



Indicação de livro V – The lost – a search for six of six million e ???
Novembro 24, 2008, 1:02 pm
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No sábado eu estava num aniversário de família e o primo da minha mulher, de 18 anos, contou que um remanescente do Holocausto foi em sua escola contar como sobreviveu. A história parece com muitas daquelas que ouvi, li e vi, em filmes, nos últimos anos. É uma história parecida com a da minha família e com a de muitos outros.

Judeu-polonês, 13 anos, preso com os pais e mandado para o gueto, depois campo de concentração. Lá, vivendo com mínimas calorias, 300, pelo que chegou aos meus ouvidos, emagrecendo, vendo pessoas morrer ao seu redor por não andar em fila, por ter cabelo preto, por pedir casca de batata, ou por nada mesmo; seu trabalho era cavar as covas em que os próprios judeus eram enterrados depois.

Num determinado dia da semana todos sabiam que os nazistas faziam a contagem e matavam a esmo. Ele se escondia num buraco debaixo do alojamento. Uma moça que acabara de ter filho sabia que o dia estava chegando e estava desesperada: não era permitido ter filho no campo. Ele deixou que ela e o bebê se escondessem no buraco, e ficaram os três quietos, esperando a loucura passar; mas o bebê tinha fome, e chorou; o peito não adiantou; o bebê seguiu chorando e a mãe, desesperada com os passos nazistas na sua cabeça – seriam todos mortos se descobertos – tampou o choro do bebê com um pano; e esperou. Tempo. Os nazistas foram embora, eles saíram do buraco, mas o bebê estava morto, e a mãe começou a gritar desesperada e acabou assassinada ali mesmo.

A história continuava, e incrível como este primo parecia lembrar de cada coisa, cada detalhe que agora esqueço, seu primeiro contato com a miséria humana, com a barbárie, com o instinto de sobrevivência, sobreviver para contar, e o menino de 13 anos, mais novo que ele, que agora escuta, e conta, o menino de 13 anos nunca mais vê a mãe, eles mudam o campo de lugar, todos em trânsito, mulheres para um lado, homens do outro, o pai morre de disenteria em seus braços, e ele quer enterrar o pai mas os nazistas não deixam, apontam a arma para sua cabeça, por sorte não atiraram, e outros prisioneiros o puxam e o corpo do pai é apenas mais um numa pilha de corpos que depois os filhos, sobrinhos, primos e amigos terão de empurrar para uma vala qualquer.

E a história continua, e ainda nem chegamos perto do fim, como ele não morreu, o que ficou fazendo depois da Guerra, mendigo na França, como chegou ao Brasil. Mas prefiro não contar mais pois ele contou, existe um livro escrito por esse sobrevivente, mas isso o primo da minha esposa não lembra: o nome do livro, o nome do senhor que contou a história. Mas esse livro existe, a história realmente aconteceu, e com isso lembrei de outro livro que li recentemente, esse eu posso indicar: The lost – a search for six of six million, de Daniel Mendelsohn (está no prelo, vai sair aqui no Brasil pela Casa da Palavra).

Não é uma história como essa que contei. É justamente a busca pelo destino de uma família, os seis do título, que não sobreviveu. Um americano vai em busca dos tios e primos, hoje em dia, 60 anos depois, que foram mortos na Guerra. E para isso volta à Ucrânia, depois outros países, ouvir sobreviventes da mesma cidade, na Austrália, Dinamarca, Israel. E tentar reconstituir um pouco da vida daquela família, quem eram, como viviam, por que não fugiram, como e quando morerram. Um livraço. Como deve ser o daquele senhor que foi numa escola do Rio contar sua história para adolescentes.

E este parágrafo do livro que li diz muita coisa que não pode ser esquecida, na imensidão que foi o Holocausto:

“The Holocaust is so big, the scale of it is so gigantic, so enormous, that it becomes easy to think of it as something mechanical. Anonymous. But everything that happened, happened because someone made a decision. To pull a trigger, to flip a switch, to close a cattle car door, to hide, to betray.”



O cheiro que antecipava o homem
Novembro 13, 2008, 3:59 pm
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Continuando minha promessa de publicar alguma ficção no blog, aqui vai um texto que escrevi no início de 2007. Ou no final de 2006. Não lembro bem. Está lá no Paralelos – site que, infelizmente, não é mais atualizado. Sobre esse texto, vale aquela advertência de filmes do Supercine: “Baseado em fatos reais”.

 

O cheiro que antecipava o homem

 

Antes de falar, fedia. Apareceu de alguma dobra no tempo, despertou de uma vala imunda falando como se o dom da palavra lhe tivesse sido apenas momentaneamente devolvido.

- É romance? – eu lia Isaac Bashevis Singer, como faço todos os dias indo de ônibus para o trabalho, trajeto longo, paisagem em decomposição a céu aberto, língua negra em forma de canal cruzando a cidade, de Botafogo a São Januário.

Fedia.

Não, respondi com breve tremor de cabeça, ainda sem coragem para olhá-lo.

- Palavra de Deus? – e de sua boca a podridão de mil livros reciclados em papel higiênico.

Tentando parecer natural, murmurei que eram contos, e pela primeira vez olhei para a sua boca, apenas um dente escurecido pendendo das gengivas gastas, quase brancas. Vestia-se com etiqueta: camisa pólo amarela, calça social bege… kichute.

Levantei os olhos; ele me encarava, sorrindo, lingua de fora, cachorro pidão à espera de um afago.

- Fiz Letras, e você?

O cheiro novamente.

Conversar seria impossível, mas respondi, automático.

- Jornalismo.

Ele sorriu. Ou manteve o sorriso esticado até o ponto em que as bochechas agüentavam segurar o rasgo no rosto, o dente canino vazando para fora da boca.

- Tenho muita experiência com comunicação de massa.

A vontade de rir.

- Leu Erico Verissimo?

- Leu Jorge Amado?

Tremeliquei a cabeça negativamente, ou pensei em fazê-lo.

Por sobre os óculos fundo de garrafa ele tentava enxergar a capa do livro que eu segurava, engatilhar um novo assunto. Indiscretamente puxava o livro mais para o meu colo, tentando escondê-lo. Ele acompanhava o movimento, descaradamente, buscando vislumbrar o título, o autor, alguma coisa.

De uma hora para outra ele começou a se agitar no banco, apoiava a mão na cadeira da frente, olhava para os lados, para trás.

O grito:

- É baiano?

O susto.

Não falava mais comigo. Tinha levantado do meu banco e pulara para outro.

Ninguém em volta, o ônibus vazio.

- Tem cara de baiano.

Silêncio.

- Eu sou baiano.

E continuou:

- Carioca?

Fechei o livro, abri meu caderno e comecei a rabiscar algumas anotações; sobre ele, naturalmente.

Sem virar a cabeça, apenas com o rabo de olho, procurei pelo velho. Ainda sentado, mirava a janela, cabeça colada no vidro quente, a imagem de São Cristóvão passando em alta velocidade, nada, pouco para ver.

O cheiro.

- Tá escrevendo o que? – ele voltara.

Terminei uma palavra que se espraiava entre duas linhas, difícil de equilibrar no marulhar do ônibus, me enchi de coragem para responder que era sobre ele que escrevia. Mas minha voz se perdeu, ele não estava mais ao meu lado, nem atrás, na frente, do lado de fora do ônibus.

Não estava. Nem seu cheiro.



Indicação de livro IV – Dentes ao sol
Novembro 9, 2008, 1:30 am
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Com 20 anos eu entrei numa oficina literária. De contos, pelo que me lembro, mas nem cheguei a escrever ou mostrar nada. Na primeira aula o professor saiu arrotando um autoritarismo e não voltei mais. Com aquela idade eu não deveria estar ali, ele praticamente falou. Com aquela idade eu não sabia nada de literatura e não estava à altura da aula dele, seu olhar dizia. Pediu para cada aluno se apresentar e todos se disseram escritores. Eu me espantei e retraí: disse que queria aprender. Perguntou para mim o que eu gostava de ler e falei Kafka, estava lendo muito Kafka naquela época, e continuei com um outro autor, brasileiro. Mas para o professor eu deveria ter ficado calado. No que eu disse o nome desse escritor brasileiro que eu estava lendo – livro na mochila, inclusive, que não mostrei – o professor fez um muxoxo e disse que aquele não era um escritor de verdade.

Por um tempo eu não entendi a raiva contida naquele muxoxo, o azedume do comentário, o esgar que, em peso dramático, foi quase um cuspe no chão ao ouvir o nome. Agora entendo: inveja; picuinhas; grupos literários. Aquele professor já passando dos 50 com uma raiva infantil de molecote mimado que não ganhou um parabéns da tia na redação.

Lembrei dessa história na semana passada, quando Inácio de Loyola Brandão venceu o Jabuti de melhor livro de ficção do ano. Era ele o escritor maldito. E o livro na mochila era justamente Dentes ao sol, que hoje, no Prosa & Verso, Loyola diz que é seu livro predileto, pelo qual gostaria de ser lembrado.

Quem passou nesse blog nos últimos meses sabe que considero o livro do Tezza o melhor de 2007, mas ao ler que Loyola tinha vencido o Jabuti lembrei daquele professor, daquela oficina, e sorri.



Sem respirar
Novembro 3, 2008, 1:31 pm
Arquivado em: Conto, Ficção, literatura
Vou começar a publicar, com periodicidade não definida, alguns textos ficcionais pinçados daqui e dali. Muita coisa já entrou no Bohemias, quem sabe um ou outro material inédito que não se encaixe no segundo romance. Veremos… Por enquanto, lá vai:
Sem respirar
O policial entra pela porta dos fundos, os poucos passageiros do ônibus suspendem a respiração pela metade. A partir de agora são todos suspeitos, não mais o vigia noturno, a atendente de telemarketing, a empregada doméstica, o escritor de contos eróticos, o atendente da farmácia; um grupo. Ninguém se mexe, ninguém ousa virar o pescoço, o menor dos barulhos pode ser o sinal que ele procura, um cão farejando o medo, a culpa, a oportunidade, o pescoço descoberto.

Por sorte todos sabem seu papel. O policial tem a arma engatilhada apontada para o chão, que treme. O ônibus treme e os passos são curtos, dois, três, quatro, cinco, seis, cada pessoa um suspeito, toda piscada de olhos pode esconder uma mentira, um papelote de cocaína, um irmão preso, uma dor de corno, um falecimento recente, a vontade de jantar a lasanha que sobrou do almoço de domingo, o desejo de transar com a vizinha casada.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, a arma engatilhada, a empunhadura com a mão direita indica preparo, o dedo não está no gatilho, a proximidade da morte lambe cada rosto, agora de frente, volver, o policial dá seus passos olhando as faces que tentam esconder o nervosismo, a vontade de espirrar, o cansaço pelo dia longo de trabalho. Tudo pode indicar que.

O policial bate com o cano da arma no ferro de apoio para passageiros de pé. Nesse ônibus, de pé apenas o policial, farda cinza, ligeiramente amassada, cadarço direito desamarrado. O som da pancada produz um estrilo metálico. A ninguém sentado é permitido tremer, berrar; o silêncio pétreo, única opção. O policial berra alguma coisa para o motorista, desce do ônibus pesando com suas botas nos dois degraus inocentes.

E então a respiração já pode ser mais alongada, o bocejo é permitido, os cochichos entre desconhecidos para sempre próximos, a primeira marcha na caixa de câmbio. O ônibus pode voltar a andar, a vida segue depois do suspiro impedido.

*

Trabalham em dupla. A viatura parada no acostamento, as portas abertas. “Sua vez”, o outro diz. Pela terceira vez seguida é a vez dele, mas não discute. É o policial mais novo, recém-formado, e ainda por cima é do interior do Estado. Confere a arma no coldre. Agita os braços ostensivamente para o ônibus parar, pensa em fazer o sinal da cruz, mas sente vergonha de o que o parceiro falará.

O ônibus pára. Ele faz sinal para o motorista apontando a porta traseira. É o que diz o manual que recebeu quando chegou ao Rio. Deve entrar no ônibus sempre pela porta de trás. O livrinho fala que a arma deve permanecer no coldre, a mão espalmada sobre ela. O parceiro orientou de outra forma depois da primeira inspeção que fizeram juntos. A arma tem de estar engatilhada e apontada para o chão.

Entra pela porta traseira. Ônibus vazio. Mentalmente conta sete pessoas, oito com o motorista, nove com o cobrador. Ninguém se mexe; sente que ninguém sequer respira, vira o pescoço. Para ele é pior, assim sente medo, preferia um murmurinho respeitoso.

Dá os dois primeiros passos já avaliando possíveis suspeitos, a arma engatilhada, apontada para o chão. Não quer abordar ninguém, a não ser que dêem motivo. Sabe que um papelote de cocaína não vale nada, já uma bala disparada por engano, exagero, pode provocar sua expulsão do emprego. Arrimo de família.

Está no meio do ônibus e sente medo, tem agora quatro passageiros às suas costas, descobertas. Por isso o manual fala de trabalho em dupla. O parceiro está lá fora, dentro do carro, mascando chiclete. É o que supõe. Ele mesmo não ousa fazer nenhum movimento suspeito, quase não respira, movimenta-se em câmera lenta evitando assustar qualquer passageiro.

Faz a meia-volta, assusta-se. No fundo do ônibus um garoto negro está sentado no penúltimo banco, perto da janela. Suspeito. Pior: ele não viu o garoto ao entrar. O manual diz que primeiro deve-se checar os passageiros que estão no fundo e que ficarão às suas costas. “Foda-se o manual”, pensa, “vou sair desse ônibus sem revistar ninguém.” Os passos são um pouco mais pesados, rápidos, ele quer pôr logo fim a operação sem sentido.

Acaso entrasse no mesmo ônibus em seguida não reconheceria nove entre os dez passageiros. O garoto, sim; é diferente. Sabe que nunca vai esquecer daquele garoto, que sonhará com ele essa noite, e na próxima, e talvez para sempre.

Bate com o cano da arma no ferro e deixa o ônibus pesando seus passos. “E aí?”, o outro pergunta. Ele contorna a viatura e senta do lado do carona. “A próxima é sua.”