De cabeça baixa


Indicação de livro II – Cartas a um amigo alemão e A imortalidade
outubro 20, 2008, 1:50 pm
Filed under: Indicação de livros, literatura, Mercado editorial

Prometi (prometi?) que de 15 em 15 dias indicaria a leitura de um livro. Quase três semanas depois, cumpro e pago os juros. Indicarei dois livros; por coincidência, estou lendo os dois livros, alternadamente.

O primeiro eu nem sabia da existência. Minha mãe comprou num sebo de Copacabana (Baratos da Ribeiro) e me deu: Cartas a um amigo alemão, de Albert Camus. A edição é portuguesa, sem data. Originalmente o livro foi publicado na França no pós-Guerra. São cartas do autor para um amigo alemão durante o ano de 1943, quando a Guerra já tinha começado a virar. Além das missivas, artigos do Prêmio Nobel.

Atenção editoras brasileiras: não creio que o livro tenha sido lançado aqui no Brasil. Vale checar. Tanto a Record, que tem a parcela mais significativa da obra do franco-argelino, como outras editoras.

Não é um livro literário. Está lá o viés filosófico que culminará com O homem revoltado, lançado em 1951. Eis o início da primeira carta:

“Dizia-me você: ‘A grandeza do meu país [Alemanha] não tem preço. Tudo o que a sirva é bom. E num mundo em que nada mais tem sentido, aqueles que como nós, jovens alemães, tiveram a sorte de encontrar um sentido no destino de sua nação, devem sacrificar-lhe tudo.’ Ainda o estimava nessa altura, mas já era aí que eu começava a separar-me de si. ‘Não’, dizia-lhe eu, ‘não posso acreditar que seja necessário subjugar tudos aos fins que se têm em vista. Há meios que são indesculpáveis. E eu gostaria de poder amar o meu país, amando ao mesmo tempo a justiça. Para ele não desejo uma grandeza qualquer, tal como a do sangue ou a da mentira. É fazendo reinar a justiça que eu quero fazê-lo viver.’ Você respondeu-me: ‘Ora, confesse, você não ama o seu país.'”

“Há meios que são indesculpáveis.” Quem já leu O homem revoltado sabe que essa frase resume boa parte do pensamento camusiano sobre o assunto.

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O outro livro que indico é A imortalidade, de Milan Kundera, autor que dispensa apresentações ou comentários. Ao invés da polêmica barata dos últimos dias sobre delação ou não delação, que tal voltar aos livros do mestre tcheco. 

Um trecho:

“De repente, assustada com esse ódio, pensou: o mundo atingiu uma fronteira, quando ele a ultrapassar, tudo pode virar loucura: as pessoas andarão pelas ruas segurando um miosótis, ou então atirarão um nos outros na frente de todos. E bastará muito pouca coisa, uma gota d’água fará o copo transbordar: por exemplo, um carro, um homem, um decibel a mais na rua. Existe uma fronteira quantitativa a não ser ultrapassada; mas essa fronteira não é vigiada por ninguém, e talvez até mesmo ninguém saiba de sua existência.”



Norte e Literal
outubro 6, 2008, 8:36 pm
Filed under: De cabeça baixa, Imprensa

Duas matérias que já publiquei aqui foram replicadas em outros meios de comunicação. A resenha de Márcio Renato dos Santos para o Rascunho foi republicada na Revista Norte. O editor da Norte fez a gentileza de me mandar exemplares da publicação. A revista tem ótima qualidade editorial e gráfica. Recomendo.

A entrevista que o Ramon Mello fez comigo para o seu blog pessoal, Click (In) versos, ganhou destaque no Portal Literal, que estreou um novo formato, 2.0, muito mais interativo, na semana passada.



Indicação de livro I – O faz-tudo
outubro 2, 2008, 3:44 pm
Filed under: Indicação de livros, literatura

Algumas pessoas me perguntam indicações de livro, o que sempre acho complicado. Saber indicar um livro é uma arte. É preciso conhecer a pessoa, o que ela leu, o que tem tempo de ler. Trocando em miúdos: não tenho talento para tanto. Então o que farei com certa periodicidade daqui para frente, quinzenalmente?, é indicar um livraço. Não espero que meus gostos encontrem eco em todos, mas nisso também está a beleza de se indicar um livro. O primeiro da série é O faz-tudo, de Bernardo Malamud. Com este livro, o autor venceu o Pulitzer e o National Book de 1967. O texto foi publicado originalmente no meu blog anterior, Bohemias. Atenção: tenho o livro aqui em casa; quem for do Rio e quiser emprestado, mande um e-mail, por favor.

O faz-tudo

As teorias sobre o que separa um grande, ótimo livro de um clássico são vastas e baseadas em argumentos além do achismo em que geralmente me apóio. O vermelho e o negro, de Stendhal, definitivamente, é um clássico da Literatura, com o chamado L maiúsculo, embora sua estrutura seja folhetinesca. Mas é no personagem, Julien Sorel, que está o além do romance, a formação e a queda de uma pessoa em um calhamaço de páginas.

Outros livros são grandes, ótimos, e cito mais uma vez A história do amor, de Nicole Krauss, que li este ano [em 2006], após a Flip, na qual a jovem autora americana compareceu. Mas talvez por fragmentar demais o foco não consiga transcender, embora comova, ensine, entretenha, e tudo mais que um bom livro deve alcançar.

Pegue um faz-tudo judeu na Russia czarista de 1911, tire da rede de proteção furada de um shtetl – prestes a ser mais uma vez transposta por uma dezena de pogroms – e jogue numa Kiev anti-semita em ebulição. Esse faz-tudo, sem nenhum dinheiro no bolso, salva a vida de um senhor rico logo em uma de suas primeiras noites na cidade. Como agradecimento, recebe um emprego de um supervisor na olaria deste velho – que anda com um broche dos Centúrias Negras, organização anti-semita da época.

Iákov Bok tem medo, fome e não informa que é judeu, pelo contrário, inventa um sobrenome russo, um passado de camponês, e acaba aceitando o emprego, mesmo que esse seja em um bairro que em judeus não tem permissão para morar ou trabalhar.

Tudo vai relativamente bem até que um menino russo cristão é encontrado morto numa caverna, exangue, com o corpo todo furado. A inexorável acusação cai sobre Bok. Logo descobrem que ele é judeu e o sentenciam ao confinamento sem chance de absolvição. A acusação é estapafúrdia: ele teria matado o menino para drenar seu sangue num suposto ritual judaico para fabricação de matzos para o Pessach. As provas não existem, são invenções e crendices, as testemunhas forjadas entre pessoas assustadas de um país pobre a beira do caos, politicamente instável um punhado de anos antes da Revolução.

Imaginem o esfacelamento físico e moral de K. no Processo kafkiano e adicione, multiplique. Bernard Malamud foi adiante: tortura física – agressões, envenenamento, revistas humilhantes seis vezes ao dia, cela gelada, úmida, na Ucrânia congelada – mental – o acusam de magia negra, desrespeito aos rituais cristãos, o trancam numa solitária sem contato com o exterior por anos, dizem que ele vai apodrecer ali sem sequer ser julgado.

Malamud explora a semi-ignorância do faz-tudo para esmiuçar as religiões. Este não é um livro sobre o judaísmo. Bok sempre se mostra descrente com a religião, qualquer delas, declara-se um livre-pensador, jamais se adaptou a própria aldeia natal. Em sua solidão ele repetidamente mostra os vácuos do judaísmo e as interpretações nefandas do cristianismo a partir de leituras equivocadas do Novo testamento. O autor nos dá uma aula de história, de moral (e da falta dela), e por meio daquele restolho de gente que vira Bok consegue roçar os grandes temas como Mann fez em A montanha mágica, mas Malamud também vai além, a destruição e o engrandecimento – a contragosto! – de Iákov Bok é ainda maior que o de Hans Castorp.

Bernard Malamud não escreveu para não esquecer, como Primo Levi. É judeu americano filho de pais russos que emigraram para os EUA no início do século XX. A história é baseada em fatos reais – Iákov Bok existiu como Mendel Beilis. Malamud escreve para lembrar, lembrarmos, com um faz-tudo sem educação é capaz de mostrar a ignorância de uma época, ainda a nossa época, seja Bok, Beilis, um judeu, cristão, negro, homossexual ou qualquer minoria perseguida.

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O faz-tudo, de Bernard Malamud, foi reeditado em 2006 pela Record dentro do projeto Grandes Traduções (a deste livro por Maria Alice Máximo), com posfácio de Moacyr Scliar.