De cabeça baixa


Flávio Carneiro
outubro 8, 2009, 1:52 pm
Filed under: De cabeça baixa, Leitores, Resenhas
Recebi um e-mail muito bacana do Flávio Carneiro, escritor, critico literário e professor da UERJ. Mandei De cabeca baixa para ele na época do lançamento, há um ano e meio. Sei bem como são as filas de lançamentos pedindo atenção, a minha mesmo tem coisa de mais tempo ainda, que um dia espero ter tempo para escoar. Pois ele teve tempo e me mandou esse e-mail:
 
“Caro Xará,
 
tudo bem?
Te peço mil desculpas pela demora na leitura do seu livro. Comecei duas vezes e tive que interromper por questões de trabalho e começar de novo. Ontem finalmente tive uma oportunidade e concluí a leitura.
Gostei. Achei muito boa essa idéia de montar toda a história com variações sobre o título: de cabeça baixa, que ora se aplica a Felipe, ora a Marcelo, mas também aqui e ali a outros personagens, não apenas os mais citados como também outros que aparecem quase como figurantes, como o porteiro, mais pro final do livro (p. 146). E isso fica ainda mais interessante se considerarmos não apenas a idéia de cabeça baixa ligada a introspecção, em certas passagens, ou a baixa autoestima, em outras, mas também ao fato de o mercado editorial ser o espaço onde se enfrentam os de cabeça alta e os de cabeça baixa. Seu romance lida muito bem com isso, com esse mundo do livro – de quem escreve, quem vende, quem edita, quem lê – e seus duelos cotidianos. E não cai no estereótipo de apresentar esse mundo apenas como um duelo entre vencedores e perdedores – o que ele não é mesmo, claro – mas como algo mais complexo do que aquilo que as pessoas lêem nos jornais (ou pelo menos nos suplementos).
Você criou um personagem bom, de uma fragilidade ficcionalmente rentável, e centrou a história nele. A história tem um ritmo bom também, que vai se mantendo do início ao final, no tempo cruzado das histórias do personagem (seu) e do outro (criado pelo seu), protaganista de Desencanto.
O fio meio romance policial da investigação que Felipe empreende pela cidade (ou pelas cidades, começando por Curitiba) atrás da misteriosa leitora/anotadora de livros Ana Maria ajuda a sustentar o ritmo da história e é bem conduzido. Em especial, gostei da troca de identidades na cena final, Ana Maria/Ana Paula, do bilhete a ser lido quando fosse concluída a leitura dos originais (?) etc.. Muito bem tramada essa parte. E o final também é bom, sugerindo uma história futura, centrada num Felipe quem sabe mais leve, livre do fardo que, simbolicamente, deixa no vaso de plantas do vizinho.
É isso. Parabéns pelo livro.”
 


No tribunal de meu pai
janeiro 13, 2009, 2:25 pm
Filed under: Imprensa, Indicação de livros, literatura, Resenhas

Saiu no último sábado, no Globo, uma resenha que escrevi sobre No tribunal de meu pai (Companhia das Letras), livro do genial Isaac Bashevis Singer. Quem sabe a resenha deixe mais pessoas com vontade de ler o livro.

 

“Numa rua mítica de um bairro pobre de Varsóvia, início de um tumultuado século XX que subverteu e aniquilou tradições, sempre que dois judeus tinham uma contenda a ser resolvida batiam na porta do apartamento da rua Krochmalna 10. Lá acontecia o Din Torá, julgamento rabínico, da região. Discussões sobre casamentos a serem feitos ou desfeitos, pequenas transações financeiras, aflições do bolso e da alma. Tudo era com o rabi Pinhos-Mendel. No canto do aposento, rosto escondido pelas roupas negras hassídicas e os cachos laterais ruivos, o filho do rabino, o menino Isaac Bashevis Singer.

Em “No tribunal de meu pai” (Companhia das Letras), o escritor polonês, Prêmio Nobel de 1978, relembra as histórias que ouviu naqueles anos em que era apenas um filho de um rabino hassídico num bairro pobre judeu. As 49 crônicas reunidas neste livro foram publicadas espaçadamente no jornal “The Jewish Daily Forward”, sob pseudônimo. O livro, que assim como toda a obra de Singer foi escrito em iídiche, língua que, por sinal, era a utilizada nas conversas escutadas na Krochmalna, foi traduzido para o inglês e publicado originalmente em 1966, já com a assinatura do autor. Esta é a primeira edição do livro no Brasil.

Para quem é fã de do escritor, este livro é um passo além. Escritas como crônicas autobiográficas, as historietas descortinam um Singer em estado bruto, que volta a infância e ao apartamento desprovido de móveis sempre que precisa recuperar a ingenuidade perdida com os anos posteriores. O trabalho de narração em “No tribunal de meu pai” é admirável; conciso, sem marcas de deslumbramentos, sem juízo de valor. O escritor consegue a proeza de voltar a enxergar com os olhos de criança, espantando-se com novidades, levantando questionamentos metafísicos próprios da idade, se surpreendendo com cada novidade fora do pequeno circulo da escola, seder, e de casa, um minúsculo apartamento onde o gabinete do pai era o único luxo. levantando questionamentos metafltar a enxergar com os olhos de criança, espantando-se com novidades Krochmalna 10.

Lançado posteriormente, o livro de memórias “Amor e exílio” apenas esboça questões que são tratadas com muito mais caudalosidade em “No tribunal de meu pai” e que moldaram a cabeça do autor. Histórias que ganham uma linha na autobiografia são contadas neste livro com riquezas de detalhes; a relação conflituosa da irmã mais velha com a mãe, os passeios proibidos pelos bairros não-judaicos de Varsóvia, a visita de parentes que ele até então só conheciam de narrativas quase míticas, a fome com a Primeira Guerra Mundial, a expectativa pelas notícias que vinham do Oriente com a derrubada do czar e a Revolução Russa.

Numa casa em que, segundo o próprio Singer, a “religião, o judaísmo, era virtualmente o ar que se respirava”, o autor cresceu espremido entre a religiosidade crédula e simbólica do pai, que passava o dia lendo e anotando seus comentários, alheio a realidade daquele início de século, e o racionalismo religioso da mãe, prática dona de casa esposa de rabino. Um caso peculiar, que ilustra com perfeição essa fissura entre o comportamento dos pais, é narrado na deliciosa história de uma senhora adentra o gabinete do rabino com dois gansos degolados, mas que mesmo assim grasnam sempre que friccionados.

“A mulher pegou um ganso e o atirou contra o outro. Imediatamente ouvimos um grasnido. Não é fácil descrever esse som. Era como o grasnido de um ganso, mas proferido em tom tão alto, tão lúgrube, tão plangente, tão sofrido, que minhas pernas ficaram enregeladas. Eu chegava a sentir os cabelos de meus cachos laterais me pinicando. Queria fugir dali. Mas para onde? O medo constringia minha garganta. Então eu também gritei e agarrei-me à saia de minha mãe, como um menininho de três anos.”

Espantada, a senhora quer saber se os gansos continuam kosher ou não – perder dois gansos naquela época seria uma tragédia. O rabino, assustado, assustadíssimo, cita o Criador, histórias de pessoas possuídas por espíritos ruins, e está prestes a recomendar que os gansos sejam enterrados, quando a esposa sai do mutismo com duas perguntas para a senhora ao mesmo tempo em que enfia o dedo na goela do ganso decepado e arranca a traquéia. Repete o procedimento no outro, e desafia a senhora a fazê-los grasnar novamente.

O Bashevis Singer que emerge daquela casa é um jovem que questiona tudo que está à volta, quer saber cada vez mais e mais, mas não perde os olhos da beleza das pequenas coisas, e de uma religiosidade quase sagrada, mas sem ser levada ao pé da letra.

A disposição cronológica das histórias possibilita ao leitor acompanhar o crescimento de Singer. Do menininho crédulo e obediente do início do livro até o pré-adolescente já interessado em artes, literatura e mulheres e com a certeza de que o mundo era muito maior do que aquele apartamento. Colabora muito para isso o irmão mais velho, Israel Joshua, também escritor, que já entrara em atrito com o pai e vivia fora do círculo fechado daquele apartamento.

“Familiarizei-me com os hábitos da intelligentsia. Não rezavam, não estudavam livros sacros nem diziam a bênção. Consumiam carne com leite e infringiam outras leis. (…) Embora falassem iídiche, aqueles jovens comportavam-se com a mesma liberdade que os gentios. Era uma mudança e tanta em relação ao ambiente que imperava no gabinete de meu pai, porém tenho a impressão de que esse é um padrão que se tornou inerente em mim.”

Singer se muda com a mãe para Bilgoray, pequena aldeia judaica, aos 13 anos. O livro acompanha o adolescente neste início de nova vida. O que acontece depois: o retorno para Varsóvia, a viagem para a América pouco antes da Segunda Guerra, é história. E essa Singer também já contou, mas em outros livros. A vida que restou presa naqueles anos do início do século foi engolida pelas guerras da primeira metade do século XX, mas a habilidade narrativa do autor faz com que elas renasçam, pelo menos nas 360 páginas deste livro.”