De cabeça baixa


Tese de mestrado
novembro 30, 2009, 3:07 pm
Filed under: Conto, Leitores, literatura

O google – que não gosta de segredos -, revelou que meu conto Apenas eco, presente na antologia Contos sobre tela (org. Marcelo Moutinho, Pinakotheke Edições, 2005), foi base para uma tese de mestrado. O trabalho, de Marcelino Galdino (muito prazer, Marcelino, escreva-me), chamado Relações dialógicas entre o texto verbal e a obra pictórica (Mackenzie), parte do meu conto (sobre uma tela de Di Cavalcanti) e de um conto de Fabricio Carpinejar também presente no mesmo livro. São impressionantes 30 e tantas páginas sobre meu conto (que tem pouco mais de 5).

Já diriam os sábios: quando escrevem sobre uma obra literária um texto em tamanho maior, é hora de se preocupar…

Mas, enquanto isso, fiquei todo bobo e ganhei uma tarde.

Para quem quiser ler a tese, ei-la.



Flávio Carneiro
outubro 8, 2009, 1:52 pm
Filed under: De cabeça baixa, Leitores, Resenhas
Recebi um e-mail muito bacana do Flávio Carneiro, escritor, critico literário e professor da UERJ. Mandei De cabeca baixa para ele na época do lançamento, há um ano e meio. Sei bem como são as filas de lançamentos pedindo atenção, a minha mesmo tem coisa de mais tempo ainda, que um dia espero ter tempo para escoar. Pois ele teve tempo e me mandou esse e-mail:
 
“Caro Xará,
 
tudo bem?
Te peço mil desculpas pela demora na leitura do seu livro. Comecei duas vezes e tive que interromper por questões de trabalho e começar de novo. Ontem finalmente tive uma oportunidade e concluí a leitura.
Gostei. Achei muito boa essa idéia de montar toda a história com variações sobre o título: de cabeça baixa, que ora se aplica a Felipe, ora a Marcelo, mas também aqui e ali a outros personagens, não apenas os mais citados como também outros que aparecem quase como figurantes, como o porteiro, mais pro final do livro (p. 146). E isso fica ainda mais interessante se considerarmos não apenas a idéia de cabeça baixa ligada a introspecção, em certas passagens, ou a baixa autoestima, em outras, mas também ao fato de o mercado editorial ser o espaço onde se enfrentam os de cabeça alta e os de cabeça baixa. Seu romance lida muito bem com isso, com esse mundo do livro – de quem escreve, quem vende, quem edita, quem lê – e seus duelos cotidianos. E não cai no estereótipo de apresentar esse mundo apenas como um duelo entre vencedores e perdedores – o que ele não é mesmo, claro – mas como algo mais complexo do que aquilo que as pessoas lêem nos jornais (ou pelo menos nos suplementos).
Você criou um personagem bom, de uma fragilidade ficcionalmente rentável, e centrou a história nele. A história tem um ritmo bom também, que vai se mantendo do início ao final, no tempo cruzado das histórias do personagem (seu) e do outro (criado pelo seu), protaganista de Desencanto.
O fio meio romance policial da investigação que Felipe empreende pela cidade (ou pelas cidades, começando por Curitiba) atrás da misteriosa leitora/anotadora de livros Ana Maria ajuda a sustentar o ritmo da história e é bem conduzido. Em especial, gostei da troca de identidades na cena final, Ana Maria/Ana Paula, do bilhete a ser lido quando fosse concluída a leitura dos originais (?) etc.. Muito bem tramada essa parte. E o final também é bom, sugerindo uma história futura, centrada num Felipe quem sabe mais leve, livre do fardo que, simbolicamente, deixa no vaso de plantas do vizinho.
É isso. Parabéns pelo livro.”
 


O comentário do professor
setembro 16, 2008, 1:14 pm
Filed under: Colégio Companhia de Maria, De cabeça baixa, Leitores, Livro adotado

E não é que meus delírios sobre a turma de colégio estudando De cabeça baixa estavam corretos. Ontem à noite o Rogério Britto, professor e coordenador de Literatura e Língua Portuguesa do colégio Companhia de Maria deixou um comentário aqui no blog sobre a aula que ele deu sobre o livro. Peço permissão ao Rogério para tirar o bilhete da caixa de comentários e colocar aqui no corpo do blog.

Sem dúvida, foi uma das maiores alegrias que a publicação do livro me deu. Parece que o debate sobre o romance rendeu. Parabéns pela iniciativa Rogério, e que outros professores corajosos optem por iniciativa similar: literatura contemporânea na escola.

“Boa tarde Flávio,

Sou Rogério Britto, o professor-leitor do Colégio da Companhia de Maria, no Grajaú-RJ, que indicou o seu livro, De cabeça baixa.
Gostaria de compartilhar com você alguns momentos interessantes que aconteceram durante a leitura e o debate do livro numa turma de 1º ano do ensino médio.
O primeiro fato é que trabalhar com literatura contemporânea em séries iniciais do ensino médio é pisar em terreno ardiloso. Os alunos não têm, por assim dizer, uma diretriz de leitura. Ou vale tudo ou não vale nada. Esse ponto de vista um tanto raso, às vezes, demonstra a falta de um envolvimento maior com obras contemporâneas — e aqui no Colégio buscamos sempre impulsionar nossos alunos, cada vez mais cedo, a desfrutar do prazer que uma obra contemporânea pode oferecer, sem que haja prejuízo, afastamento ou descaso com as obra clássicas de referência.
Assim, num universo de 40 alunos, o que mais saltou aos olhos foi a capacidade de conquistar sentidos — dos menores aos mais complexos e difíceis —, todos tinham alguma coisa para dizer, apresentar, nomear…
As perguntas eram as mais variadas. Inclusive, o porquê daquele final. A questão de número 4 — que você hipoteticamente cria — não era para dissertar sobre o final do romance, mas confesso que muitos acreditaram ser essa uma das perguntas.
Outra coisa interessante foi a espacialização do Rio de Janeiro, em especial o caminho até a Tijuca, a viagem de metrô e, claro, o conto do Cortazar que fiquei de apresentar a eles.
Competir com as mais variadas formas de entretenimento no mundo de hoje é difícil tanto para o escritor quanto para o professor de literatura. A adesão ao mundo das mercadorias fáceis e banais nos deixa, muitas vezes, sem saber como vender o nosso peixe. A esmagadora maioria diz que literatura é chato, pouco atrativo e que não traz gratificação imediata. Mas com um pouquinho de conversa e boa vontade eles vão olhando de outra maneira.
Vencida a primeira resistência que é o objeto livro, o entusiasmo vem gradativamente; aparece uma pergunta sobre a linguagem, sobre o enredo e quando se percebe, vem aquela famosa frase lá do final da sala: “meu pai só comprou o livro na semana passada” ou “não conta o final por que ainda estou no meio do livro”.
O fato é que você produziu um belo livro. Muito bem escrito, firme, onde os alunos encontraram no personagem Felipe Laranjeiras, uma maneira de passear pela vida moderna e veloz, pelo mal-estar do mundo moderno; um personagem que afastado de si mesmo e do mundo, não suportando as pressões e frustrações a que foi submetido, torna-se exilado fora e depois dentro de sua cidade. É a paranóia delirante de uma sociedade do espetáculo.
A avaliação não é o instrumento final. O que procuramos é levar os alunos a fugir das armadilhas, que são muitas, no universo literário, e insistem em se apresentar. Por isso, a formação livre e autônoma do leitor vale muito mais do que uma simples resposta a partir de um recorte – cole da internet. Aqui, sim, vale o ponto integral.

Forte abraço,
Rogério Britto
Coordenador e Professor de Literatura e Língua Portuguesa
Colégio da Companhia de Maria”



Alberto Mussa
abril 24, 2008, 9:37 pm
Filed under: De cabeça baixa, Leitores

Recebi na última semana um e-mail de Alberto Mussa, um dos escritores mais premiados da literatura brasileira contemporânea. E um dos mais boa praça também. Como diriam as más línguas: “Nem parece escritor”. Ele me escreveu para comentar a leitura do De cabeça baixa. Publico seu e-mail, com o consentimento dele:

“Flavinho ,
li seu livro ontem, sem parar.
Gostei bastante. Seu livro tem o que falta à maioria dos que têm sido lançados por agora: um argumento inteligente, a idéia de um resenhista que reescreve um romance,  faz do autor personagem e fica escravo do que escreveu. Muito legal.
Embora eu suponha que as pessoas tenderão a valorizar o aspecto do conflito existencial do Laranjeiras, pra mim vale muito esse lado cerebral do livro, o jogo lúdico em si.
Valeu. Parabéns!”

Alberto Mussa é autor de quatro livros, entre eles O enigma de Qaf, vencedor do Prêmio Casa de Las Américas e APCA, e O movimento pendular, vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional e APCA.


Mariel Reis
abril 16, 2008, 1:38 pm
Filed under: De cabeça baixa, Leitores

Mariel Reis foi meu colega em duas antologias: Prosas cariocas, na qual escreveu o conto sobre a Pavuna, e Paralelos, em que publicou um pequeno conto com tintas fantásticas que surpreende no meio da maioria realista.

Mais do que isso, Mariel Reis é uma história de vida que vale a pena conhecer. Mas isso seria diminuir o escritor que ele é e pode ser. Então, um passo atrás. Esqueçamos a biografia e concentremos no escritor. Em 2005 lançou Linha de recuo (Paradoxo Editorial). Agora tem no forno, só esperando editora, seu segundo volume de contos: John Fante trabalha no esquimó. Para conhecer seu trabalho, e ler os elogios que o livrinho-embrião já ganha de pessoas como Gustavo Bernardo, vale dar um pulo no blog do Mariel (Cativeiro amoroso e doméstico).

Foi em seu blog que Mariel Reis postou a resenha sobre De cabeça baixa, que copio abaixo:

“A leitura do romance de estréia deste autor carioca pode ser definida como sui generis dentro do campo em que se desenvolve: a ficção contemporânea. Não porque se desgarre por completo das questões abordadas por seus principais autores – João Paulo Cuenca, Cecília Giannetti e Daniel Galera – que trabalham a meta ficção como eixo alternativo a narrativa tradicional – isto é, a realista. Diversificando o modo de leitura deste real através de prismas subversores deste tipo de literatura tão identificada com os elementos narrativos canônicos: intriga, personagens e ação.

Flávio Izhaki paga também o tributo a esta senda aberta por ficcionistas de portes variados – Borges é um ilustre desta galeria – colorindo a seu modo isto que já se poderá chamar de técnica do novo romance neste novo milênio, confeccionada através do jogo intelectual – nisto se avizinhará dos romances policiais; a linguagem elaborada em um registro que comporte tanto a memória artística quanto a literária – cumprindo ambas o traço afetivo do ficcionista, que o embute em ciladas cada vez mais sofisticadas para escapar daquilo que se convencionou chamar de – o mal da narrativa em primeira pessoa.

Felipe Laranjeiras, escritor e professor de literatura, fracassa ao publicar o primeiro romance Desencanto, recebe uma pesada critica que o leva ao auto – exílio em Curitiba. Lá nesta cidade, em um dia chuvoso, percorrendo suas ruas, abriga-se em um sebo onde encontra um exemplar do livro fracassado dedicado formalmente à Ana Maria. Decide-se com isso a buscá-la investigando como já fora aludido a memória que aos poucos se reconstrói – tanto a nível ficcional quanto pessoal deste escritor. Entremeado ao livro de Cabeça Baixa aparecem trechos de Desecanto, duplicando o registro da escrita.

Em De Cabeça Baixa, além das costumeiras evocações a meta ficção, a presença do duplo é tão importante ser ressaltada como método encontrado por Flávio Izhaki para afastar as tentações desta narrativa em primeira pessoa – procedimento feliz quando se especula sobre as possíveis coincidências de parentescos entre ambos que podem ser muitas e também nenhuma. Outro fator que pode ser apontado como desvelo na construção deste duplo é que Felipe Laranjeiras não aparece para anular ou competir com Flávio Izhaki, o suposto autor do romance, ele corre a margem do discurso romaneesco encetado pelo escritor, supondo, ao leitor, ao final da estória, a inconclusão de ambos os romances – tanto o romance fracassado de Laranjeiras quanto o de estréia do autor carioca. Este parece ser o mérito maior na leitura do romance.

A idéia de um romance fantasma me seduziu não para questionar a validade do curto enredo desenvolvido ao longo das páginas, mas, como afirmação dessa matéria translúcida que permite passagem destes outras matérias através da trama do romance. Quanto à confecção do livro não há dúvida quanto ao domínio narrativo e a serenidade na condução dos eventos distribuídos ao longo do livro.

Flávio Izhaki merece especial atenção por ser um trabalhador dedicado tanto dentro quanto fora da literatura, sendo uma de suas marcas a discrição, o quase anonimato com que procura desenvolver suas tarefas, prestigiando a literatura com sua contribuição que a esta altura não pode ser apenas chamada de modesta, contudo, requer ser classificada como seminal.”



Fernando Molica
abril 14, 2008, 12:47 pm
Filed under: De cabeça baixa, Leitores

O botafoguense Fernando Molica lança nesta quarta-feira, na Livraria Da Conde, às 19h, seu terceiro romance, O ponto da partida. O autor aproveitará a data para lançar seu site pessoal, que já está no ar. De lá, pesquei esse textinho que o Molica escreveu sobre o meu De cabeça baixa. No site você também pode ler a resenha de O ponto da partida que saiu no JB no último sábado.

“O recém-lançado romance “De cabeça baixa”, de Flávio Izhaki, traz uma ousada e bem-construída teia que fornece muita linha para a pipa dos que gostam de discutir relações entre autor, obra e personagem. Ou melhor, tudo isso aí no plural: autores, obras, personagens. A trama pode até parecer complicada, mas não é: Izhaki conduz a história com segurança, sem perder o fio da meada. O livro trata de outro livro (“Desencanto”) e de seu autor, Felipe Laranjeiras. A partir de um pequeno incidente – a descoberta, numa livraria de Curitiba, de um exemplar do seu livro recheado de comentários nas páginas -, Laranjeiras dá início a um jogo que não deixará de surpreendê-lo. O autor – Laranjeiras, não Izhaki – acaba virando personagem de uma outra história, a ponto de não saber mais qual o seu papel naquela trama. De autor – fracassado, mas onisciente -, passa a personagem, pólo passivo de uma outra história, que não deixa de ser a sua. Laranjeiras (coitado) se sai melhor como personagem – imprevisível, surpreendente – do que como autor. No fim de tudo resta uma incerteza e uma certa angústia que têm muito a ver com a boa literatura – e, claro, com a vida.”



Leitores
abril 2, 2008, 1:33 pm
Filed under: De cabeça baixa, Leitores
 Tenho recebido alguns e-mails comentando o livro. Pretendo publicar essas opiniões aqui (com a devida liberação, claro), pois é bem bacana saber que as pessoas estão não só lendo como pensando sobre o livro.


Esta primeira “crítica impressionista” (a expressão é da autora), é da poeta Paula Catajy. Não nos conhecemos, que fique claro. Ela soube do livro, comprou e me escreveu por e-mail para comentar (meu e-mail, aliás, está em Sobre o autor):


“Momentos que não passam, sonhos que nos acorrentam, frustrações que não esquecemos.


A partir de estranhas coincidências, o renascimento de um livro num sebo, o livro de Felipe, Marcelo, Luana, Ana Maria.


Esse é o eixo central do primeiro romance de Flávio Izhaki, escritor já conhecido no meio internauta que já participou de prestigiosas coletâneas de contos e amadurece de forma rápida e segura, dando seqüência ao trabalho literário desenvolvido desde 2003.


‘De cabeça baixa’ traz a história de outro livro e, tal como uma boneca russa, fala de um livro que assume vida própria e percorre um desconhecido caminho até retornar à mão de seu vacilante autor.


Não volta virgem, porém.


Traz em seu corpo rabiscos, reflexões, contrastes.


Volta cheio de interrogações, interlocuções e surpresas, traz um enigma a ser desvendado.


Excitado com as possibilidades que se abrem na leitura atenta e descompromissada de uma desconhecida, deliciado com as perspectivas de saber-se lido, desejado, criador do desejo alheio, lhe proporciona novo alento.


A dificuldade de retomar o próprio percurso não é privilégio de Felipe ou de Marcelo. 


A dificuldade em descobrir novos sonhos, em ousar arder por novos desejos, em fazer novos planos, em dar continuidade à vida apesar de tudo, apesar das dores, se instala sorrateira em muitos endereços.


Rio, Curitiba, São Paulo, tanto faz, a diferença seria apenas do clima.


Antes de partir para Curitiba, Felipe escuta entre berros e lágrimas que ‘vive de cabeça baixa’, que encarna o papel forçado de eterna vítima, frustrando amigos, amantes, frustrando a si mesmo para se regozijar do enfurnamento nas próprias frustrações.


Os rabiscos daquela estranha leitora, porém, trazendo-lhe ódio e curiosidade pelo teor ácido de suas críticas, o ressucita da letargia.


Busca então, em vão, reencontrar o passado, tenta resgatar o que foi deixado para trás acreditando que encontrará nele – num amor passageiro, numa mulher do passado – a rendição, a salvação, a nova vida que deveria ter sido e não foi.


Em sua peregrinação por uma resposta, descobre as tantas angústias que constituíam a causa verdadeira de seus fracassos e ousa levantar a cabeça, ousa lançar um novo olhar sobre si e sobre o que fizera e faria com sua vida e repara, finalmente, que o essencial para seguir adiante seria apenas a coragem de passar uma página.


Fugir ainda seria uma opção?”