De cabeça baixa


Imprensa
Estado de S. Paulo – Caderno 2 – Moacir Amâncio – 21.9.2008

Palavra escrita que pára o tempo e impõe a reflexão

Estréia do jornalista carioca Flávio Izhaki, De Cabeça Baixa é construído em torno da obsessão e em ritmo de suspense

Moacir Amâncio

Ao contrário de outros escritores mais novos, Flávio Izhaki, em De Cabeça Baixa (Guarda-Chuva, 186 págs., R$ 23,90), não faz espalhafato. Sua personagem central, um jovem romancista, permanece longe da internet e de tudo o mais, mesmo quando tenta fazer parte. Não se trata de um marginal ou semi. É só um sujeito obcecado por uma questão antiga, que permeia a literatura de todos os tempos: a distância entre a palavra e o que ela determina.

Como lidar com a vida e com as palavras, haverá uma distância necessária entre elas? Se não houver, idéia vertiginosamente bíblica, então procedem todas as preocupações de Felipe, o escritor que perambula pelo Rio e Curitiba. A personagem parece estar convicta dessa desconfiança: a persistência com que se dedica à busca da compreensão do sentido de um livro que publicou e teve uma só crítica justifica a hipótese. O suspense da narrativa é construído em torno da obsessão, nada de espetacular no final do livro.

Sua busca difusa encontra um fio – bem roto – num sebo de Curitiba, onde Felipe acha o volume que pertencera a uma tal de Ana Maria. No livro há a dedicatória e anotações pelas margens. Ele não sossega até encontrar a moça, uma criatura de palavras que utilizaria o romance dele para sua própria ficção. Não falam muito, não há lugar para oralidades expansivas. Tudo se resume ao texto.

A narrativa é construída com frases simples, o que pode confundir despojamento com banalidade. Aí está refletido o esforço do romancista no sentido de captar o que resta das relações sociais, da própria vida das pessoas, que no final das contas acaba se resumindo a alguns detalhes só percebidos através da palavra escrita, que pára o tempo e impõe a reflexão. As coisas acontecem com lentidão, contrariando a ansiedade da personagem – a narrativa se torna tensa. Felipe tende a superdimensionar tudo.

A cena em que as páginas escritas por Ana Maria se espalham no piso imundo de um restaurante torna-se a síntese de todo o romance. O garçom o ajuda a recolher o material, enquanto o bife à Osvaldo Aranha esfria no prato. Aí está, alimentos e palavras como parte de uma mesma realidade chapada, cotidiana e, antes de tudo, muito duvidosa. Dúvida que saudavelmente envenena suas relações reais e imaginárias com o mundo e a cultura. A frustração com a crítica sobre o livro manda o personagem para escanteio, no fundo a melhor posição para ver o jogo – dentro do campo e ao mesmo tempo fora. A partir desse ponto de vista ambíguo se desenrola a narrativa, como uma proposta de reflexão em surdina sobre a lição eclesiástica. Felipe pode ter inventado Ana Maria como ter sido inventado por ela. Este é o primeiro romance de Izhaki, jornalista nascido no Rio, em 1979.

Rascunho – Edição de julho/2008 – Márcio Renato dos Santos

Da arte de ser promissor

De cabeça baixa
Flávio Izhaki
Guarda-chuva
186 págs.

De cabeça baixa é um romance que revela a desilusão de um jovem aspirante a escritor que publica o seu primeiro romance e se frustra com o resultado. De cabeça baixa também é o romance de estréia do jovem escritor carioca Flávio Izhaki, 29 anos. De cabeça baixa apresenta texto bem escrito e fluente e, se não é uma obra-prima, pode conduzir o eventual leitor da página 3 até a 186 em poucas horas de agradável leitura (ou minutos, se o eventual leitor tiver tempo livre, experiência e agilidade na leitura).

Não sei se os leitores do Rascunho estão informados, mas Curitiba é território em que surgem e se multiplicam (e não desaparecem) sujeitos que desejam ser escritores, sobretudo poetas. A cidade elegeu um superestimado poeta na década de 1980 e nem é preciso citar o nome porque já se fala demais do indivíduo, falecido, por aqui. O poeta-modelo inspira demais jovens ávidos pelo título de poeta: muitos ambicionam ser iguais ao ídolo e, além de ser poeta – a exemplo do mestre, atuar na publicidade, compor letras de música, realizar traduções – a aura-multimídia, enfim, contamina os “aspiras”.

Felipe Laranjeiras é o protagonista do romance De cabeça baixa. Um superestimado jovem que há muito anunciava estar escrevendo o primeiro romance, até que publica Desencanto. A obra não vinga. Ganha uma única (e negativa) resenha. O personagem, também abandonado pela namorada, deixa o Rio de Janeiro e passa uma temporada em Curitiba. A narrativa, em terceira pessoa, traz observações clichês sobre as duas cidades, seja a respeito do frio, garoa e introspecção curitibanos como sobre a falsa simpatia dos cariocas que convidam para tomar um café lá em casa, contanto que o convidado nunca apareça.

De imitação em imitação, de diluição em diluição, os “aspiras” a poetas curitibanos formam, a cada dia que nasce, um batalhão de epígonos do superestimado poeta endeusado na década de 1980. E as tentativas de mimese vão, por exemplo, do uso do bigode ao hábito de pensar por trocadilhos e ser, enfim, um trocadilho. Há os que, além de supostos poetas, se apresentam como tradutores – apesar de nem saber escrever em português. Outras caricaturas repetem slogans que o mestre enunciou na já longínqua década de 1980. O ícone deixou viúvas, a maioria marmanjos que pegam no tacape e nas flechas quando alguém ousa criticar o poeta que, na realidade, não passa de pseudopoeta.

A odisséia do protagonista do romance De cabeça baixa se deflagra no momento em que, em meio a um sebo curitibano, ele encontra um exemplar de seu livro. Há anotações nas margens. São observações críticas. A partir disto, Felipe Laranjeiras – já em crise – se afunda em inquietações. E, perturbado, não sossegará até encontrar a pessoa que escreveu aquelas anotações. “A sua vida sempre fora mais de nãos do que de sins até aquele momento.” Eis um trecho da narrativa sobre o personagem no espaço-tempo em que ele decide localizar Ana Maria, a autora dos comentários.

Há vários sujeitos, projetos de escritores, em Curitiba que, de alguma maneira, se parecem com o personagem Felipe Laranjeiras, protagonista do romance De cabeça baixa. São, sobretudo, jovens. Alguns já estão na melhor idade mas se consideram jovens. São, enfim, adolescentes mentais, adulteens. Todos promissores. Pelo fato de terem sido alfabetizados, se consideram aptos a realizar a próxima Ilíada. Em bares, declamam poemas em alta voz, emitindo, acima de tudo, perdigotos. Escrevem em guardanapos. Depois de alguns goles de destilados e/ou fermentados, são vítimas de logorréia. E, em geral (e acima de tudo), cultuam o pseudopoeta máximo de Curitiba, a fraude tremenda dos anos 1980.

Felipe Laranjeiras, depois de uns tempos em Curitiba, retorna ao Rio de Janeiro. E o regresso do personagem à cidade natal é, possivelmente, o ponto alto do romance De cabeça baixa. “A beleza da cidade escapa aos cariocas acostumados aos morros ainda verdes (…)”. A narrativa mostra que o protagonista, ao regressar à cidade onde nasceu e cresceu, depois de alguma ausência e distanciamento, consegue enxergar e perceber nuances e detalhes que anteriormente eram invisíveis para ele. Felipe tem, então, de enfrentar a cidade onde, em outro passado, habitava e convivia com a ex-namorada Luana. Mas ele está de volta ao Rio para encontrar Ana Maria, a autora das anotações perturbadoras, para ele, feitas em um exemplar de seu livro Desencanto.

Os filhotes, clones, viúvos, epígonos enfim, do pseudopoeta que Curitiba endeusou na década de 1980 são, de uma maneira geral, ignorados na capital do Paraná. E, como precisam ocupar o espaço, para eles, perdido, buscam palanques. O principal palco de discursos e performances dos epígonos do pseudogênio da poesia curitibana dos anos 1980 está na internet. Nos blogs. Ali (lá), publicam poemas, traduções, sacadas, trocadilhos e praticam a ação entre amigos: só vale elogiar. Elogio próprio pode. Elogio de amigo também pode. Crítica não pode. E, de janela em janela virtual, são produzidas milhares de palavras, amontoados de frases. Produção em ritmo industrial. Decantar? Gaveta? Que nada. Os pop stars anônimos, e sem público, precisam exibir as suas amostras grátis de diluição do pseudopoeta curitibano da década de 1980.

O protagonista do romance De cabeça baixa não consegue encontrar fisicamente Ana Maria, mas terá acesso a algumas outras anotações que ela fez. Ana Maria escreveu uma narrativa em que o personagem central, Marcelo Lima, é inspirado em Felipe Laranjeiras. E, ao ler o conteúdo, o escritor que se tornou personagem despencará em outro abismo existencial. “Agora era ele no papel de personagem, em tintas fortes de prostração, Felipe Laranjeiras e Marcelo Lima como duplos, uma vida dividida e subtraída em duas”. Felipe, triste, fica (então) tristinho, tristíssimo.

Os promissores jovens escribas curitibanos se irmanam com Felipe Laranjeiras, justa e exatamente, pelo fato de que todos eles são jovens – e raramente existe um jovem genial (existe “gênio”?). Há expectativas demais em relação ao primeiro livro, e um primeiro livro de um jovem se fragiliza – acima de tudo – pela falta de experiência, de vida (do jovem), sobretudo de leitura (do jovem). Os Rimbauds curitibanos (brasileiros, mundiais) são ávidos por apresentar as suas produções, mas o que esses sujeitos lêem? Um detalhe interessante a respeito dos jovens pseudopoetas de Curitiba, que admiram o pseudopoeta endeusado na década de 1980, é que, em geral, eles não conhecem prosa, nada de ler romances nem conto. Quando lêem, se é que lêem, farejam apenas textos poéticos, principalmente pseudopoéticos (pop-cretos), e isso é pouco, ou quase nada, para quem pretende caminhar numa estrada que se chama literatura.

Em seu blog, o jovem escritor carioca Flávio Izhaki – apontado por um júri convocado pelo jornal O Globo como aposta literária da nova geração – postou uma mensagem comentando que De cabeça baixa ainda não havia recebido nenhuma crítica negativa. O jovem autor, a exemplo do provável alter-ego Felipe Laranjeiras, talvez tema restrições. Possivelmente, não venha a gostar deste texto. Mas, caro Felipe, ou melhor, caríssimo Flávio, pra que temer uma crítica ou resenha? Resenhas e críticas não passam de pontos de vista, opiniões (achismo, se preferir). A trajetória do romance De cabeça baixa independe de um comentário como este. E, para sua informação, o exemplar que li para fazer esta resenha já vendi num sebo curitibano por menos de dois dinheiros – e há inúmeras observações nas margens, escritas a lápis, parecidas com as que Ana Maria fez no livro de Felipe Laranjeiras.

O AUTOR
FLÁVIO IZHAKI nasceu no Rio de Janeiro (RJ) em 1979. Debutou precocemente como contista. Assina a co-organização e atua como contista no livro Prosas cariocas – Uma nova cartografia do Rio de Janeiro (2004). Está presente nas antologias Paralelos – 17 contos da nova literatura brasileira (2004) e Contos sobre tela (2005). Mostra seus contos, também, em revistas impressas e eletrônicas.

TRECHO • De cabeça baixa
Eu não tenho saída, pensou. Com a mão direita segurava uma página do “Desencanto” de Ana Maria, enquanto as demais restavam espalhadas, caóticas, ao seu entorno, na cama do quarto do hotel. Ao alcance da mão esquerda, o pequeno envelope fechado com as três folhas restantes, ainda não lidas, e o bilhete imperativo.

Apagou a luz da cabeceira, e o quarto mergulhou numa escuridão de beco, lusco-fusco de início de noite, os objetos com contornos não mais definidos dançando suas fronteiras sob seus olhos. Deitou na cama, caindo sobre alguns dos papéis, amassando-os, o farfalhar desse contato do seu corpo com as folhas lhe fazendo carícias no ouvido. Queria que os papéis agora desaparecessem. Ou aparecessem rasgados em pedacinhos ilegíveis, sumissem do seu presente, passado, futuro, especialmente. Pensava nisso com os olhos fechados, não suavemente, mas num apertar de desejo infantil, como se fosse dó imaginar a nova realidade com força de rasurar pálpebras, para que ela se tornasse variável.

Jornal do Brasil – Caderno B – Mariana Filgueiras e Juliana Krapp

Geração 00

Muitos não se conheciam pessoalmente até esta Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que terminou no domingo. Mas, em poucos minutos, já trocavam figurinhas, entrosados. Convidados pela Casa Jornal do Brasil para um debate no balneário, os escritores (que rejeitam a pecha de “novos”) Manoela Sawitzki, Tatiana Levy, Tony Monti, Flávio Izhaki, Leandro Jardim, Abílio Marcondes, Pedro Vieira e Carola Saavedra mal sabem o tanto que têm em comum, além de terem acabado de atravessar a barreira da publicação dos primeiros livros: os oito autores são o melhor exemplo do diálogo com outras artes. Numa festa onde reinaram nomes do teatro, cinema e quadrinhos – como o dramaturgo Tom Stoppard e o roteirista Richard Price – o trabalho dos rapazes e moças mostra que, sem beber num caldeirão de referências multiculturais, a fonte seca. Não teria escrito muitos dos meus textos se o cinema não fosse tão presente em meu cotidiano – resume Carola, 30 anos, autora do romance Toda terça (Companhia das Letras). – Sua influência é muito grande sobre tudo o que eu penso. 

Também foi influenciado pelo imaginário do cinema que Abílio Marcondes, de 25 anos, definiu o estilo dos contos reunidos em Hiato (7letras). As histórias embaralham diferentes temporalidades, e os mesmos personagens habitam diversos contos – o que só se descobre através de pistas. Como nos filmes.

 

No caso de Tatiana Salem Levy, de 29 anos, que assina A chave de casa (Record e Cotovia), a articulação com o cinema é ainda mais definida. Ela está fazendo o roteiro de um longa-metragem de ficção com a cineasta Lúcia Murat, enquanto pensa num novo livro.

Apesar de onipresente, o cinema não é a única pedra de toque off-literária da turma. Também estão lá os quadrinhos, o RPG, a música, o teatro. No livro de estréia, Pedro Vieira, de 28 anos, escolheu contar uma história que mostra o espírito da coisa:

– Nerdquest, que eu lancei há pouco pela 7letras, trata de um grupo de nerds recém-formados que se reúnem para falar da vida e jogar RPG – explica. – Mas o estilo do texto também tem influências dos quadrinhos.

A gaúcha Manoela Sawitzki, 30 anos, que até o ano que vem publica o romance Suíte Dama da Noite, pela Record, começou sua trajetória com o teatro e o cinema. Um de seus roteiros de longa-metragem, Rita, ganhou o Prêmio Santander Cultural para Cinema e está em fase de captação para produção.

– Vamos fazer a história em técnica mista, com recursos de animação. É o primeiro roteiro de longa que escrevo. Na verdade, escrevi muito mais para teatro – explica Manoela, que desenvolve a programação artística do Theatro São Pedro, em Porto Alegre, sua cidade natal. – Sei que meu original foi lido, pelo menos. E a gente sabe que nem sempre é assim. Muitos originais são empilhados nas editoras, e a chance de uma revelação se perde.

A mesma sorte teve Leandro Jardim, carioca, 29 anos. Jornalista e músico, começou a compor aos 18 anos. Da música foi para a poesia, e acaba de publicar seu primeiro livro, um “romance misturado com poesia” – Todas as vozas cantam, pela 7letras.

– Comecei fazendo meus próprios minilivros, que eu chamo de semi-artesanais e semi-independentes. Mas não queria ficar restrito a esta condição de independente. Então mandei algumas poesias para a Heloísa Buarque de Hollanda e para a editora 7letras. Esperei dois meses e me mandaram um email, com interesse em publicar – conta.

Diante da pedreira da publicação do primeiro livro, o carioca Flávio Izhaki não se fez de rogado. Lançou mão de um recurso dos mais contemporâneos: pôs uma espécie de trailler de seu romance De cabeça-baixa no You Tube, para ajudar na divulgação. Foi um sucesso.

Essa tal Geração 00 foge do rótulo como o diabo foge da cruz. Entre a Tenda dos Autores e as mil e uma atividades da Flip, eles preferiram a rua. Flanavam pelo calçamento de pé-de-moleque buscando “encontros”, “diálogos”, “surpresas”. O agradável ambiente do festival é mais do que os debates, para eles. Tony Monti, de 29 anos, autor de O mentiroso (7letras) e O menino da rosa (Hedra), é um veterano em Paraty: é a quarta vez que visita a Flip. Mas deixa claro que não quis nem se aproximar da Tenda dos Autores:

 

– Vim passear, bater-papo, conhecer pessoas.

 

Izhaki arremata:

 

– Eu me interesso pela discussão das mesas, mas preferia que elas tivessem mais debate, e não apenas monólogos. Por isso, aprecio mais o ambiente, a experiência de estar nesta cidade.

A Gazeta (Vitória) – Tiago Zanoli – 7.6.2008

As dificuldades que os autores enfrentam

Dois jovens autores, com estréias literárias recentes, estão entre os participantes da 2ª Bienal Rubem Braga, em Cachoeiro de Itapemirim. No evento, o paulistano Julián Fuks, 26 anos, autor de “Histórias de Literatura e Cegueira” (2007), e o carioca Flávio Izhaki, 29, do recém-lançado “De cabeça baixa” (2008), debatem o tema “A Literatura Contemporânea Brasileira” hoje, às 9h30.

Em entrevista por telefone ao Caderno 2, a dupla revelou opiniões semelhantes, sobretudo no que se refere às dificuldades de se conquistar leitores nos tempos em que a cultura audiovisual fala mais alto. “Há uma crise generalizada do fazer literário e do papel que a literatura tem na vida das pessoas e na cultura de um país. O cinema e a televisão têm tomado o lugar da literatura no papel de contar histórias. É preciso pensar o que está acontecendo com a literatura brasileira contemporânea a partir desse viés. Qual é a nova função da literatura?”, diz Fuks.

Flávio concorda que a competição com o audiovisual e a internet é difícil de se vencer. Para ele, o ritmo alucinante de trabalho e o pouco tempo para o lazer dificultam a tarefa de seduzir leitores. Ele acredita que o ideal é que a paixão pelos livros comece em casa, incentivada pelos pais desde cedo. “Não adianta a escola indicar livros para uma criança que não lê. Se você passa uma obra errada para ela, pode estar fechando uma porta.”

À essa constatação, Julián acrescenta que, hoje, há mais escritores do que leitores. “Existe um intercâmbio grande de autores que acabam lendo os trabalhos uns dos outros. Até que ponto isso é bom ou ruim? É algo a se pensar”, completa.

Além disso, embora atualmente seja mais fácil publicar livros, a grande maioria dos autores enfrenta a barreira da distribuição e divulgação. Com isso, a internet acabou se tornando veículo difusor e espaço livre para o exercício da criação literária. “Vivo isso de fora. Por mais que minha geração seja a da internet, não comecei a fazer literatura na web. Nunca tive um blog nem compartilho muito dessa cultura. Mas acho positivo as pessoas escreverem mais. Mesmo que não sejam textos literários, elas estão se comunicando por meio da palavra escrita, o que é sempre um exercício”, diz Julián.

Para Flávio Izhaki, a internet é um grande caderno de anotações. “As pessoas mostram seu trabalho, quando ainda não têm nada publicado, tiram do ar, reescrevem. É um espaço para experimentação. Além disso, cria uma rede de contato. O escritor é um indivíduo muito isolado em seu trabalho, fechado em si próprio. A internet possibilitou trocas de textos, de experiências e encurtou as distâncias, proporcionando encontros reais entre as pessoas, até as que vivem nas mesmas cidades, mas nunca haviam se encontrado antes pelas ruas”, completa.

 

A Gazeta (Vitória) – Thiago Zanoli – 5.6.2008

A chamada capital secreta do mundo transforma-se, a partir de hoje, na cidade da crônica. Ao sediar a 2ª Bienal Rubem Braga, evento literário cujo nome homenageia um dos mais importantes cronistas brasileiros, Cachoeiro de Itapemirim reúne escritores – locais e nacionais –, além do público leitor, que poderá conferir até domingo uma série de palestras, mesas-redondas e oficinas, entre outras atrações (confira a programação na página 2).

O tema da bienal deste ano, “A Crônica e o Meio Ambiente”, além de estar em sintonia com os assuntos em pauta na mídia global, resgata o pensamento ecológico de Rubem Braga, considerado o primeiro autor que se ocupou em descrever e refletir sobre o meio ambiente da região da bacia hidrográfica do rio Itapemirim, no Sul do Estado. “Ele se preocupava com os peixes, falava sobre as árvores, as aves. Já chamava a atenção para o problema da escassez de água, há mais de meio século, quando nem se falava em ambientalistas”, afirma o jornalista José Carlos Dias, curador do evento.

Durante quatro dias, uma extensa programação cultural acontece no pavilhão de eventos construído na Ilha da Luz. De acordo com José Carlos, foi montado um auditório com capacidade para 600 pessoas, onde vão acontecer as palestras e mesas-redondas. “Esse espaço vai concentrar a programação literária propriamente dita, que é o nosso foco.”

Ao lado desse auditório, está a Feira do Livro, reunindo as principais editoras e livrarias do Espírito Santo e de outros Estados. Nesse espaço, coordenado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), serão lançados 25 títulos, de escritores locais e de outras regiões do país.

Cronistas

Entre os convidados de renome nacional, passarão pela bienal figuras como Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, Danuza Leão e Ana Maria Machado, entre outros. Com o tema “Rubem Braga e a Crônica Moderna”, Cony fará palestra hoje à noite, a partir das 20h. “Buscamos mais os cronistas, para falar, entre outras coisas, sobre um gênero que continua moderno e é muito praticado. Tanto que praticamente todos os jornais do país têm pelo menos dois ou três cronistas muito bons”, afirma José Carlos.

Amanhã, além de lançar seu mais recente livro, “1968: O que Fizemos de Nós”, o escritor e jornalista Zuenir Ventura, 77 anos, será o palestrante da mesa-redonda “A Crônica como Gênero Literário”, que contará com mediação de Francisco Aurélio Ribeiro, escritor e presidente da Academia Espírito-Santense de Letras.

“Esse tema é muito pertinente, pois, se houve algum cronista que deu consistência literária ao gênero, foi o Rubem Braga”, diz Zuenir. Segundo ele, embora muitos críticos, como Antonio Cândido, considerem a crônica um gênero literário menor, escritores do porte de Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Antonio Maria deram a ela poesia e lirismo.

E não são apenas os veteranos que participam do evento. Autores que representam a nova geração também passam pela Bienal Rubem Braga. É o caso dos escritores Julián Fuks, 26, e Flávio Izhaki, 29, que participam, sábado, da mesa-redonda “A Literatura Contemporânea Brasileira”.

Autor de “Histórias de Literatura e Cegueira” (2007), Fuks acredita que a literatura contemporânea, no Brasil e em outros países, passa por um momento delicado, que é a perda de leitores. “Hoje pode-se dizer, sem muito pudor, que o cinema e a televisão ocuparam o papel de contar histórias, enquanto a literatura assumiu outra função. O que não é totalmente ruim, pois esta acaba guardando para si mais complexidade e aprofundamento, indo além da necessidade de se contar uma história”, observa.

Diversidade

O evento abriga também artistas de outros campos, além da literatura. Dentro da Feira do Livro haverá um tablado com música ao vivo e, no entorno, uma tenda onde será realizada a mostra Cinema e Literatura, com 18 filmes, entre curtas e médias-metragens, todos baseados em obras da literatura nacional. À noite, no Teatro de Arena, acontecem exibições de longas em 35mm.

A bienal contará ainda com exposições de artistas plásticos da região Sul do Estado; Salão Estudantil de Humor, apresentando cartuns feitos nas escolas, com o tema meio ambiente; apresentações teatrais; e oficinas de criação literária.

De todas as atividades realizadas pela Bienal Rubem Braga, José Carlos Dias chama a atenção para os trabalhos desenvolvidos nas escolas, a fim de formar leitores e escritores. “Essa bienal começou lá atrás, desde o ano passado, quando fizemos parcerias com escolas de Cachoeiro para capacitar os professores que, por sua vez, transmitiriam conhecimentos sobre literatura aos alunos”, diz.

Segundo ele, essa experiência possibilitou desenvolver atividades de criação literária em sala de aula, com os estudantes – o que deu bons resultados. “Graças a isso, criamos o Concurso Estudantil de Crônicas e uma categoria do Prêmio Sabiá de Crônica voltada para esses alunos, que vão apresentar seus escritos durante a bienal. Queremos estimular a construção de uma cultura literária nas escolas, para que isso deixe sementes importantes”, completa o curador da bienal.

O pensamento ecológico de Rubem Braga

O célebre cronista cachoeirense é considerado o primeiro escritor que se ocupou em falar de questões ambientais na região da bacia hidrográfica do rio Itapemirim. Essa faceta do autor será tema da mesa-redonda que acontece neste sábado, com os jornalistas Hiran Firmino e Basílio Machado: “Rubem Braga e a Ecologia”. Criador e editor-chefe da Revista “JB Ecológico”, Hiran vai falar sobre o pensamento ecológico do cronista. “Temos uma seção na revista intitulada ‘Memória Iluminada’, em que elegemos, postumamente, uma pessoa importante que tenha falado sobre ecologia num sentido amplo”, conta. Na edição deste mês, em que se comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho), Rubem Braga foi o personagem escolhido pela publicação. “Na bienal, vou apresentar um pouco do conteúdo que vamos publicar na revista, a memória iluminada de Rubem Braga. Pesquisamos a obra dele e levantamos tudo o que ele falou sobre ecologia, amor, poluição. Ele tinha uma ligação muito forte com sua terra natal”, completa.

Continente Multicultural (Pernambuco) – Thiago Lins – 21.5.2008

Os sofrimentos de um jovem autor

Dividido entre ansiedade e frustração, com o fim de um relacionamento e o fracasso da estréia, o jovem escritor Felipe Laranjeiras acha um exemplar de seu livro num sebo, com comentários e sublinhas. Com a esperança de que o fracasso não seja total, começa uma busca desenfreada por sua leitora solitária, munido de uma só pista: a dedicatória que ele mesmo tinha feito. A trama de reviravoltas que permeiam a vida sem graça de Laranjeiras (muito provavelmente um alter-ego do autor Flávio Izhaki), mostra o quanto um começo pode demorar. Especialmente para alguém que canaliza os próprios naufrágios. A uma jovem alma desgarrada, que não consegue emprego nem relacionamento sérios, só resta escrever.

A Gazeta (Espirito Santo) – 20.5.2008

De Cabeça Baixa
Flávio Izhaki
Guarda-Chuva 186 páginas
Quanto: R$ 23,90, em média
Desiludido com o fracasso literário, Felipe encontra num sebo um exemplar de seu livro, com anotações de uma desconhecida que oferecem pistas para que reconstrua sua própria história.

iG – Todoprosa – 10.5.2008

O jovem geninho morreu

O modismo da juventude foi muito conveniente para jovens como eu, que fizeram dele seu ganha-pão, mas acho que está na hora da crítica adotar algum parâmetro mais significativo.

Sérgio Rodrigues

O escritor inglês Evelyn Waugh escreveu essa frase em 1932, quando, beirando os 30 e já em seu terceiro livro, via-se como um ex-enfant terrible das letras britânicas. Poderia estar falando do Brasil dos últimos anos.

Muita gente na literatura nacional – e nos arredores, sobretudo nos arredores – andou ocupada recentemente com o velho mito do jovem gênio, também conhecido, em sua encarnação 2.0, como escritor-blogueiro. Na falta de um mercado leitor significativo para a ficção escrita no país, criou-se uma espécie de bolha de marketing em que, uns por ingenuidade, outros por esperteza, parte da imprensa e da crítica empenhou-se em vender aos leitores uma mistura maluca de continente e conteúdo. De repente, dois únicos critérios pareciam nortear a busca de relevância literária: a idade (pouca) e a virtualidade (enorme).

Bastava ler com olhos livres para perceber que, como é natural, raros daqueles nomes justificavam o burburinho. Não se revoga por decreto a severidade da relação ancestral entre quantidade e qualidade na arte. Acontece que olhos livres são mercadoria escassa em momentos assim.

Há sinais vindos de lugares diferentes com mensagens parecidas: a de que a bolha do jovem geninho, mais uma de muitas ilusões internéticas, estourou. Alguns sinais, digamos, socioeconômicos foram reunidos pela escritora paulista Márcia Denser num artigo publicado semana passada, com o título “Mercado editorial & suas crises”. Mas, entre todos, o sinal que me parece mais eloqüente é artístico: a novela “De cabeça baixa” (editora Guarda-Chuva), livro de estréia do escritor carioca Flávio Izhaki, que mergulha sem pudor na metalinguagem para retratar a vida dentro da bolha e investigar o que pode acontecer com quem cai numa armadilha provavelmente tão velha – pois a juventude não foi inventada ontem – quanto o papiro: tentar fazer da literatura uma substituta da vida, essa coisa trabalhosa, chata e… adulta?

Com currículo de organizador e participante de antologias de jovens, outra marca do últimos anos, Izhaki, também ele beirando os 30, fez de um ex-candidato a “geninho da vez” seu protanista. Não sobrou quase nada de Felipe Laranjeiras depois que seu primeiro livro foi recebido com um misto de indiferença e hostilidade, atirando-o à tenebrosa condição de promessa revogada. Alguns anos mais tarde, deprimido e auto-exilado numa Curitiba que, de tão fria, chuvosa e estrangeira, lembra Bruxelas, ele ganha do acaso a chance de voltar ao Rio e retomar o fio de sua vida. Tudo (re)começa quando Laranjeiras esbarra, num sebo, com um exemplar de seu livro cheio de anotações nas margens.

É admirável a coragem quase sádica com que Izhaki segura um espelho diante de pequenos literatos enfatuados, exangues, pura tinta no papel, emocionalmente perdidos entre a adulação e a autocobrança gerada por talentos que, embora autênticos, não encontraram solo propício para medrar. Se a novela não consegue, apesar de sua prosa bem cuidada, ir consideravelmente além desse reflexo frio, como se também ela estivesse presa dentro daquele espelho, tem o mérito de ser o primeiro réquiem para uma época que cultivou miragens. E sim, acho que Flávio Izhaki tem tudo para quebrar o espelho na próxima.

Diário do Nordeste – Zoeira – 10.5.2008

Livros para assistir na web

Martha dos Martins

Na tentativa de se chegar a um público cada vez mais ligado ao audiovisual, editoras e escritores criam os primeiros trailers literários, são vídeos explicativos ou até encenações de trechos para atrair a atenção da turma acostumada ao divertimento rápido e descartável do YouTube.

Se você é um daqueles que pensam que os computadores vieram para acabar com os livros, está completamente enganado. Novos escritores combinam internet e literatura para promover seus livros e o resultado tem sido satisfatório.

Trailer de livro. A expressão à primeira vista soa paradoxal e improvável, mas pequenos vídeos sobre novos romances já são um sucesso na internet. Duvida? Experimente buscar por ´trailer´ e ´livro´ no YouTube e veja o resultado.

Inovação

Ana Paula Maia (www.killing-travis.blogspot.com) foi a primeira escritora brasileira a divulgar seu livro por meio de um trailer (http://www.youtube.com/watch?v=UhJuLghrrH8). Ela conta que a idéia surgiu da vontade de dar novos desdobramentos ao seu segundo romance, “Guerra dos Bastardos”. “A linguagem cinematográfica está muito próxima a mim”, afirma. Foi a própria Ana Paula quem escreveu o roteiro do trailer, que fez tanto sucesso na internet que acabou sendo exibido nas salas de cinema em São Paulo e no Rio de Janeiro. O vídeo, uma fotomontagem de pouco mais de um minuto, apresenta o livro sobre atores pornôs decadentes, ladrões de órgãos e outros personagens do submundo, com imagens violentas, cheias de sangue e pedaços humanos.

´De Cabeça Baixa´

O escritor Flávio Izhaki (https://decabecabaixa.wordpress.com) seguiu pelo mesmo caminho para promover seu primeiro romance, “De Cabeça Baixa”. Autor estreante, ele queria que seu livro atingisse mais leitores, principalmente pessoas que não o conheciam. Assim, surgiu a idéia do trailer (http://www.youtube.com/watch?v=J-0GM3qHnVI), que foi dirigido pela cineasta Débora Pessanha. O vídeo é uma dramatização do romance, que gira em torno de um escritor em auto-exílio que encontra seu livro publicado há cinco anos em um sebo com as margens do texto cobertas de comentários cáusticos.

Para Izhaki, é prematuro afirmar que o trailer ajudou nas vendas do livro, mas com certeza deu uma maior visibilidade à obra. “O trailer, até agora, já foi assistido por quase 900 pessoas e o blog que criei com o mesmo propósito já teve mais de 3.500 acessos em dois meses no ar”, contabiliza. Já Ana Paula é categórica: o vídeo “definitivamente não alavancou as vendas”. No entanto, ela não nega que o trailer aguça a curiosidade dos leitores.

Imagem da obra

Mas o trailer do livro não prejudica aqueles leitores que preferem ter sua própria imagem sobre a obra? Izhaki revela que este foi um dos principais desafios. “Claro que doeu dar um rosto para alguns dos personagens. Literatura é imaginação, cinema é imagem, e quando você apresenta fisicamente um personagem antes da leitura do livro, você está arriscando. Mas digamos que foi um risco calculado, e espero que quem veja o trailer tenha vontade de ler o livro”, ressalta ele, que também sofreu para resumir o romance em pouco mais de dois minutos sem que este perdesse o vigor.

Ana Paula pensa diferente. “Não teve dificuldade. O trailer é apenas um desdobramento do livro. E me dei a liberdade que colocar no roteiro uma cena que não estava no livro, mas que poderia estar. Talvez até esteja entre um parágrafo e outro”, diz.

Internet aliada

Com a internet como principal divulgadora de obras literárias, a teoria de que ela veio para acabar com os livros se mostra ultrapassada, como acredita Izhaki. “Em vez de vilã, a internet está sendo usada como aliada ao ser ferramenta para mostrar trabalhos de novos autores, fazer rede de contatos”, explica. Ana Paula concorda. “A internet é uma ferramenta indispensável para qualquer manifestação artística”.

Os escritores acreditam que a produção de trailers de livros tende a se tornar uma prática comum. “É muito interessante criar um teaser do que quer que seja uma novela, um espetáculo de teatro, um filme, uma peça de propaganda. Se tiver oportunidade, faço outro”, afirma Ana Paula.

Izhaki vai além e defende que outros recursos da internet também podem divulgar livros. “Trailers não são os únicos meios. Citaria também blogs, entrevistas em vídeo, podcasts e quem sabe mais o que pode vir por aí. Mas o importante é ter em mente que nada disso é o livro, nada substitui o livro”, finaliza.

O Globo – Prosa & Verso – Elias Fajardo – 3.5.2008

Beleza da fossa

Em prosa enxuta, Flávio Izhaki faz da tristeza a matéria de seu primeiro romance

Elias Fajardo

O personagem principal é um sujeito tão vidrado na tristeza, tão chafurdado na fossa, que chega a irritar quem se aproxima do livro. Mas De cabeça baixa, primeiro romance de Flávio Izhaki, mostra tal amadurecimento de linguagem que é facilmente entendível que o autor esteja sendo considerado uma promessa entre os jovens autores brasileiros.
O autor, que tem 28 anos, organizou e participou como contistas e várias antologias e tem trabalhos publicados em revistas eletrônicas e impressas, mostra um estilo enxuto e elegante, aqui a serviço do que poderia ser considerado um romance de formação às avessas. O romance de formação é um gênero literário que se estrutura em torno da trajetória de um protagonista (muitas vezes na passagem da adolescência para a idade adulta) através da qual se esboça uma visão da época em que se passa a ação e que também pretende, de alguma maneira, levar o leitor ao seu próprio aprendizado.
Como protagonista, um escritor destruído pela crítica
Ao colocar em cena um fracassado escritor carioca, autor de um livro que recebeu uma resenha muito negativa e que se refugiou por cinco anos em Curitiba, Izhaki está a nos falar não apenas de um ser humano, mas principalmente de literatura. Seu anti-herói vivencia, entre outras coisas, um receio que acompanha muitos escritores: o de ser rejeitado pela crítica. O protagonista do romance não é nada edificante. Pelo contrário, é alguém que faz questão de desperdiçar todas as oportunidades que lhe são oferecidas, mas é intenso e verossímil. Seus vacilos são os de um homem comum que não sabe reter a mulher que ama, não consegue descobrir o que quer da vida e se angustia com o tempo que escoa como areia fina entre seus dedos, mudando a face do mundo e da cidade em que ele nasceu e se criou.
O relacionamento a dois está no centro do romance, mas é sempre marcado pela impossibilidade de se chegar verdadeiramente ao outro, de romper as barreiras do eu em direção a uma fusão e a uma realização amorosas.
Chama a atenção também o contraponto muitas vezes bem realizado entre o mundo interno dos personagens e a paisagem. As janelas fechadas, o apartamento de paredes brancas e os lençóis amarfanhados se contrapõem às recordações e a angústia que acompanham o personagem.
Já que se trata de uma obra que gira em torno da literatura (e a casa da literatura tem muitas moradas), o autor menciona ao longo do livro as suas preferências e admirações, que vão de Fernando Sabino a Stendhal, de Sartre a Borges e Cortázar.
A maneira de narra é um exercício meticuloso de metalinguagem. O protagonista reencontra seu livro de estréia num sebo, todo rabiscado, com anotações críticas feitas por uma misteriosa mulher a qual ele tenta, a todo custo, encontrar. Temos, então, um romance dentro do romance, um personagem que vira personagem de alguém que também se revela um outro personagem e assim sucessivamente, com as camadas de uma cebola que se sucedem sem chegar nunca ao miolo. Misturar e fundir Felipe, Marcelo, Luana, Mariana, Clara, Sílvia surge então como um recurso para falar de uma geração para quem as aparências adquirem mais importâncias que as essências, para quem todos os gatos são pardos, até que se revelem o contrário.
Uma geração que não conheceu a miséria nem a dificuldade material, mas que nem por isso teve mais acesso à felicidade. Quem sabe se, numa próxima obra, Flávio Izhaki abandone o universo da fossa e venha nos brindar com reflexões sobre a alegria?

Trecho

“Ao toque do dedo ou da palavra, descrição, o metal foge, se separa, se junta, e, por fim, algumas migalhas somem nos vãos das tábuas corridas. E nunca mais a personagem pode ser vista, lida, entendida por inteiro, perdida no mistério do que não se vê ou entende, incompleta. Quando Paloma perguntou se era só isso, bastava que ele dissesse que todos somos, quando examinados de perto, despidos desse mistério, sem essa migalha de mercúrio que se perdeu, aquilo que não se explica ou se descreve. Mas ele não falou nada.”

Gazeta do Povo/ Jornal do Brasi – Coluna do Wilson Martins – 26.4.2008/ 3.5.2008

Histórias inverossímeis

Residindo há cinco anos em Curitiba, onde, segundo o romancista, estava exilado, o carioca Felipe “ainda não sabia os nomes das ruas [!]. Parara o carro longe demais do banco outra vez, não conseguindo retornar ao estacionamento, estava perdido, a mesma confusão de travessas com nomes compostos, homenagens a pessoas que ele nunca soubera que foram ou o que fizeram. E agora aquela chuva fora de hora, o frio inacostumável para um carioca”. Assim começa o romance de Flávio Izhaki, cujo estilo narrativo, estamos vendo, lembra desde as primeiras linhas o “novo romance” francês de saudosa memória (De cabeça baixa. Rio: Guarda-chuva, 2007).

Na verdade, a ação não se passa em Curitiba e nada tem a ver com a cidade: tendo entrado por acaso num sebo, e enquanto folheava os volumes expostos, deixou cair um deles, achando “peculiar que aquele livrinho de tamanho reduzido, talvez 12cm X 18cm, estivesse todo rabiscado com anotações nas margens”. Ora, o livro era de sua autoria, “o seu livro, o único, o mal escrito, autobiográfico, predestinado, amaldiçoado. Ele o publicara há cinco anos, e, desde então, aquele livro escrevera o rumo de sua vida. Até o momento em que ele trocara o Rio por Curitiba para fugir daquilo”.

“Aquilo” era a sua vida passada, agora reconstituída no romance que estamos lendo e transformada na busca incessante e quase insensata para descobrir e identificar a presumível autora das anotações, procurando recuperar o tempo perdido e os diversos amores frustrados. As anotações continham uma crítica cerrada, instigando ainda mais o interesse do autor (Felipe Laranjeiras), enquanto o personagem que criara chamava-se Marcelo. Sabe-se, afinal, que a autora das anotações, tendo sido amante de Felipe, resolveu, por sua vez, escrever a mesma história, na qual Felipe passa de autor do livro anotado a personagem do novo romance, cuja autora, a enigmática Ana Maria, faz chegar, em originais, às mãos de Felipe: “Não sei de que modo vai reagir quando ler estas páginas que escrevi há tantos anos e agora te entreguei. […] Talvez agora não entenda quem sou e por que precisei escrever sobre você. […] Há quase cinco anos tento escrever a sua história, de Marcelo, de Mariana, ou a minha história. Às vezes sou ela, às vezes noutras. Marcelo a figura da pessoa que fica trancada no quarto em frente do computador, com a tela em branco é muito mais minha que sua […]”.

De que maneira o livro lido e anotado no Rio foi parar num sebo de Curitiba onde Felipe entrou por acaso, parando por acaso em frente à estante onde se encontrava escondido por acaso caindo aos seus pés? É mais uma das peripécias inverossímeis de que o autor não faz economia: “Fui visitar minha irmã em Curitiba e deixei o exemplar lá [na casa de sebo] de propósito [sic], esquecido entre dois volumes da Enciclopédia Britânica, cuidadosamente camuflado entre os livros das letras x e z, para não ter qualquer risco de ele vir à tona novamente”. Ou seja, para não ser encontrado, salvo a providencial inesperado da queda…

Tendo-o lido, ela tentou escrever a mesma história tendo Marcelo, Mariana e ela mesma como personagens: “Às vezes, sou ela, noutras Marcelo, a figura da pessoa que fica trancada em frente ao computador, com a tela em branco, é mais minha que sua, imagino, e finalmente sou Felipe, quando roubo sua Mariana, só que, no caso, roubei seu livro, seu futuro literário”. Ficamos assim com dois romances, o inédito, de Ana Maria (“Desencantos”) e o de Felipe, publicado com o mesmo título. Ao enviar-lhe os originais, ela escreve: “Aproprie-se do que escrevi, se tiver vontade, faça o que quiser com o calhamaço que lhe dei. Queime, se necessário for. Seria uma pequena vingança. Faça o mesmo com o livro, aconselho”. Mas, restava sempre a mesma obsessão, paralela à de Felipe: “Será que inconscientemente levei o livro para Curitiba porque achava que você continuava na cidade e esperava que ele fosse parar em suas mãos? Que me libertasse desta fixação e sofresse um pouco mais ao ler como eu falava mal, muito pior do que na resenha, por sinal, nas próprias páginas do seu livro, quase uma ofensa moral como xingar a mãe de puta na frente do pai, do filho e do avô”.

O romance de Felipe se encerra com notações características do “novo romance”: “Colocou as coisas que pegara no banheiro dentro da mala, desordenadamente, depois foi à cômoda, em frente à cama, e catou o molho de chaves e a carteira. Tinha apenas alguns reais e a nota de um dólar que sempre carregava. Luana lhe dissera certa vez que dava sorte, prosperidade. Saiu do quarto, mas não bateu a porta, deixou-a encostada. Colocou a nota de um dólar no vaso de plantas do vizinho e tomou o elevador”.

Jornal do Brasil – Caderno B – 27.4.2008

Breve numa livraria perto de você

Jovens escritores produzem trailers cinematográficos para promover lançamentos

Bolívar Torres

Quando disserem por aí que um determinado livro é “coisa de cinema”, pode estar preparado para levar a afirmação ao pé da letra. Com o objetivo de incrementar a divulgação de seu primeiro romance, De cabeça baixa (Editora Guarda-chuva), o escritor Flávio Izhaki pôs no YouTube um trailer do livro – exatamente como vemos, antes de uma sessão de cinema, trailers de filmes que vão estrear em breve.

Izhaki gravou dramatizações de seu livro, usando atores, trilha sonora e planos cinematográficos, como um preview desses que se vêem nas salas escuras. É um passo adiante numa prática que invadiu os mais diversos espaços audiovisuais – vários exemplos podem ser achados pela internet (experimente digitar “Trailer” e “livro” no YouTube). O trailer do romance A vingança dos bastardos (Língua Geral), de Ana Paula Maia, fez tanto sucesso que chegou a ser exibido, para valer, nos cinemas.

– Quis fazer uma encenação do romance – esclarece o carioca Izhaki. – É um trailer do mesmo jeito que se faz no cinema. Não apenas fotos ou arte de imagens. É um resumo do livro, como se fosse um curta-metragem.

O escritor diz que a realização de vídeos para divulgar livros ainda é um processo em formação. Ele acredita que sua investida no domínio envolveu uma certa dose de experimentação.

– É uma linguagem que está começando – avalia. – Então, por enquanto, todos ficam tateando.

Primeira autora brasileira a promover um livro com um trailer dramatizado, a carioca Ana Paula Maia adotou um procedimento diferente. Para divulgar A vingança dos bastardos, seu segundo romance, preferiu a técnica da fotomontagem. Realizado pela produtora Crepúsculo (ler mais no quadro abaixo), o vídeo curto, de pouco mais de um minuto, contenta-se em transpor para a tela o caráter violento do romance, que trata do universo da cultura pulp. A história, que abriga boxeadores endividados, atores pornôs decadentes, ladrões de órgãos e outros personagens saídos diretamente do submundo, ficou representada por uma sucessão de imagens de um homem num apartamento repleto poças de sangue e pedaços de corpos humanos.

– O vídeo saiu do jeito que podia sair – diz Ana. – Se usasse atores, talvez ficasse falso. Quanto mais simples, menor a chance de estragar.

Depois de chamar a atenção no YouTube, o vídeo acabou sendo exibido nas salas de Rio e de São Paulo. Mesmo assim, Ana Paula não acredita que a boa repercussão tenha alavancado as vendas do livro.

– Virou um caso de repercussão interessante – diz. – A relação do cinema com a literatura é muito próxima. Acredito que o trailer de livro é uma tendência que vai crescer cada vez mais.

De cabeça baixa, o livro de Flávio Izhaki, narra a história de Felipe, um jovem romancista desiludido. Contando com poucos recursos, o autor buscou a ajuda da cineasta Débora Pessanha, que dirigiu o vídeo com uma equipe composta por estudantes do Curso de Rádio e TV da UFRJ.

– Foi difícil resumir o livro em um vídeo de dois minutos – admite Izhaki. – O meu romance usa metalinguagem e trata de um assunto muito literário.

O maior risco, no entanto, foi dar ao leitor uma imagem pré-concebida de sua própria obra. No trailer promovido por Izhaki, os personagens literários se apresentam em carne e osso, como numa adaptação cinematográfica avant la lettre. Com isso, poderia decepcionar os leitores que preferem imaginar por conta própria as narrativas que lêem.

– A solução foi escolher atores com físico diferente da descrição dos personagens e mostrar ao espectador que aquilo era uma representação, não uma adaptação. Como se fosse aperitivo para o leitor.

Literatura Livre – 18.4.2008

De cabeça cheia

É muito comum em romances o protagonista ser uma pessoa ligada à área de Letras, seja como escritor, seja como professor ou outra função (profissão) afim. No livro de estréia de Flávio Izhaki não é diferente, mas a novidade é que o leitor encontrará três livros em um só: o romance em si, o romance escrito pelo protagonista e as anotações que uma leitora qualificada faz sobre este último romance. E esses três textos vão se relacionando ao longo do livro “De cabeça baixa”.

    O romance principal (vamos chamar assim) é a estória de Felipe, um escritor estreante e professor de literatura (autor do romance Desencanto). O narrador, em terceira pessoa, conta que, depois da repercussão do seu livro de estréia, que não foi muito boa (para usar de eufemismo), Felipe deixa a cidade do Rio de Janeiro e se muda para Curitiba. Depois de cinco anos do lançamento do seu romance, por esses acasos do destino, um dia acaba entrando em um sebo (em verdade, um lugar para se abrigar da chuva curitibana) e lá encontra um exemplar de seu romance, repleto de comentários de uma leitora, que virá a saber ser Ana Maria. Essa descoberta casual tem forte impacto em sua vida, e o leva de volta ao Rio para procurar Ana Maria.

    Essa narrativa, cujo enredo é bastante interessante, desenvolve-se com diversas marcas, tais com mistura de sensações: “Virou à direita, nada nem remotamente familiar, a cidade ainda lhe negando intimidades, depois à esquerda, mais chuva” (p. 3); “Os mesmos [livros] que folheara há dez, vinte anos, quando entrara pela primeira vez em um desses santuários de sabedoria, poeira e ácaros [sebo]” (p. 4); “Novamente sem roupa, entrou no banho para, com água gelada, inodora, enxugar seus líquidos expelidos, seus desencantos verdadeiros, completos, e não aquele outro, mal formulado em uma historieta que Ana Maria desancara com letra cursiva” (p. 21); “Sem tocar nela, testava contornos, imaginava fronteiras, provava sentimentos inexatos. Mas nunca durava muito, paliativo de segundo, parágrafo” (p. 47); “chuva que molha meu livro, mancha com pingos grossos as minhas perguntas, impossibilita as respostas” (p. 79). Além disso, sensações que o próprio texto faz o leitor sentir, como, por exemplo, o caminhar rápido em dia de chuva em um centro urbano: “Alguém bateu no seu ombro, Felipe assustou-se e desequilibrou-se entre dois passos premeditados para evitar poças. Um vendedor de guarda-chuvas: ´Cinco reais, quer, piá?´ Não queria, quase xingou. Com as duas mãos, fechou com mais força o casaco. Teve medo de que o livro, seu livro, estivesse molhado. Queria chegar logo ao apartamento para ler as anotações, de quem seriam?, ligar para alguém e contar, quem?, tomar um banho e um café bem forte” (p. 10); ou, ainda, toda a completude de uma cena em um único parágrafo: “Clara ligou e disse que precisavam conversar urgentemente. Ele respondeu que não, agora não podia, sua urgência era outra, não ela, e Clara entendeu, porque ela sempre entendia, ele era o outro, mas o outro, no caso dos dois, tinha seus privilégios” (p. 25).

    Alguns trechos são narrados com riqueza de detalhes, demonstrando uma observação de cenas cotidianas apurada do autor, cenas essas que muitas vezes nos passam despercebidas: “Ficou quase um hora sentado no banco de concreto. Alternava o olhar entre a janela – sempre fechada – e o escorrega do parquinho. Crianças desciam do brinquedo, subiam, desciam, as babás preocupadas correndo atrás das menores, as babás cada vez mais velhas e gordas, quinta, sexta geração que passa pelas mãos delas. As crianças pequenas e suas cabeças desproporcionais ao corpo, correndo tortas e sem direção, como formigas assustadas depois que o seu rastro foi perturbado pela mão do homem” (p. 73). Já outras cenas, narradas em detalhes, causam-nos identificação, ao menos por já termos vivido a mesma experiência: “A grade fez um estalido e se abriu. Felipe empurrou o portão fazendo força. Primeiro fraquejou, a porta quase fechou, era pesada demais, ele não imaginava um portão com aquele peso” (p. 115); “Tentou pôr ordem naquela bagunça. Não eram muitas páginas, 45, 40 talvez, mas pareciam mais, quando juntas ou espalhadas. Bateu as folhas na mesa, repetindo o gesto inicial, tentando arrumar o calhamaço como um caderno. Cumprida essa tarefa, folheou as páginas em busca de numeração e não encontrou. Olhando rapidamente, via apenas Felipe, Marcelo e Mariana pipocando pelo texto” (p. 134).

    Outros trechos são muito bem construídos, que merecem destaque, denunciando o cuidado do autor com o seu texto: “Morar sozinho era eternizar o momento em que ele tocava nas coisas pela última vez. Um livro centímetros fora do lugar seria um livro centímetros fora do lugar até que ele, somente ele, cutucasse o objeto para o local apropriado. As louças não se lavariam sozinhas, a lixeira continuaria a encher até transbordar, a televisão ficaria falando, se esgoelando em companhia do princípio de sono, sonho” (p.37 – quem já morou sozinho sabe, exatamente, o que é isso); “Caminhar na rua das Laranjeiras era dançar, um desvio constante dos camelôs, mendigos, buracos na calçada, carros estacionados” (p. 67).

    Ainda com relação às características da redação, o livro “De cabeça baixa” desenvolve-se, muitas vezes, fazendo ligações entre os capítulos e entre o tempo passado e o presente, como ocorre com o café a ser coado (p. 16) e o café coado em outra situação (p. 18); o pagamento ao frentista, de uma situação, e a saída do posto de combustível com o tranque cheio de outra situação (primeiro e segundo parágrafos da página 55); e iniciar o dia na data do lançamento do livro do protagonista (p. 29) e encerrar esse mesmo dia, cinco anos depois, com ele deitado na sala, luz apagada, assistindo à televisão (p. 31).

    Felipe, o protagonista, é um jovem, entre seus 20 e 30 anos, e seu livro – Desencanto – reflete “uma amargura juvenil” (p. 19); o mesmo acontece com o livro de Flávio Izhaki – “De cabeça baixa”: a personagem principal é um jovem, vamos dizer, “engajado”: aprecia Chico Buarque (p. 56), assiste a filmes de Woody Allen (p. 57), nas salas de cinema Unibanco (p. 64), e se preocupa com “os pobres coitados” da classe baixa ou da classe média (p. 69 e 71). Ao mesmo tempo em que mantém uma conduta usual, porém, politicamente incorreta, como largar um saco plástico no chão da rua (p. 11) e arrancar a página da lista telefônica do hotel em que está hospedado (p. 107). E os seus conflitos juvenis, embora não sejam a questão principal do texto, refletem-se, como não poderia deixar de ser, no desenvolvimento do romance (por exemplo, p. 71).

    A questão principal do texto, por outro lado, é de receptividade mais ampla: “De cabeça baixa” apresenta uma personagem marcada pela idéia do fracasso, da inércia (daí, o título do livro, conforme deixa claro a frase inicial da página 103). O autor principal (vamos dizer assim) apresenta uma figura interessante com relação a isso: “era a inércia e ele, um casal” (p. 23); “sentia uma força que nunca tivera, que vencia com espasmos sua inércia plácida, namorada no Rio e esposa em Curitiba (p. 26-27) – contanto tenha (infelizmente), abandado essa imagem de “casal”, de maneira muito pontual (felizmente), ao comparar a inércia a uma bebida (p. 24).

    Esse fracasso teve por estopim, e tão-somente por estopim, a receptividade do livro de Felipe: “Desencanto fora premonição do fracasso que se seguiu, não literalmente, mas na sua incapacidade de agir ou reagir. Restara apenas a fuga, impositiva, punitiva, e, desde então, jamais parar de correr, mesmo assentado em Curitiba” (p. 9). Fracasso que se identificava com a inércia em que vivia, e sempre havia vivido: “A sua vida sempre fora mais de nãos do que de sins até aquele momento. Vida em aguardo, eterno compasso de espera, pausa entre uma coisa e outra” (p. 45).

    Assim como acontece no seu romance (Desencanto), Felipe, ao encontrar seu livro todo rabiscado no sebo em Curitiba, por “coincidência, acaso ou sinal” (p.45), tem a primeira “virada” em sua vida, e sente uma força que o retira daquela inércia e o leva à ação. E a ação é encontrar Ana Maria, a pessoa que comentou o seu livro, e, junto com ela, encontrar respostas (se bem que o autor comenta com todas as letras: “De algum modo, o livro já cumprira seu objetivo inicial, reconduzir Felipe à vida que estacara cinco anos antes. E essa vida era no Rio” – p. 59). Nessa sua empreitada, Felipe começa a viver cenas do seu próprio livro (não se acomodar – p. 12 e 46; procurar a ex-namorada no Rio – 94 e 98). Felipe, dessa vez, decide não “fugir como sempre” (p. 90), e vai em busca da sua “salvadora” (p. 27) – ou de seu carrasco.

    Uma idéia quase inevitável que desponta da leitura do livro de estréia de Flávio Izhaki é algo como se seria, o seu romance, “reminiscências do futuro”, no sentido de o romance de Felipe (criatura) ser uma prévia e uma profecia do que viria a se tornar o romance do próprio Flávio Izhaki (criador): “No Rio, era jovem, promissor, querido, e tudo lhe soava falso” (p. 23); “[Felipe] Interpretava seu próprio papel, um escritor jovem, promissor, querido, que lançava o primeiro livro” (p. 29); ou, ainda, nas palavras da única resenha que o livro Desencanto, do protagonista de “De cabeça baixa” (confuso ?!?!), recebeu: “Quiçá esse sabor seja o desencanto do público e da crítica por um escritor que prometeu – ou prometeram por ele? – e não cumpriu” (p. 54).

    Definitivamente, Flávio é diferente de Felipe, e a resenha do romance deste último não pode ser aplicada ao daquele. Em primeiro lugar, Flávio tem criatividade, conforme demonstra o enredo do seu romance; tem, também, uma redação agradável, envolvente, tendo alguns pontos sido destacados acima; por fim, tem discernimento para desenvolver uma estória, sabendo dosar a realidade e a ficção, bem como a fantasia: o final de “De cabeça baixa” é bastante factível (talvez mesmo terreno demais!). Se alguma coisa há para evoluir, é plenamente natural, por se tratar de romance de estréia e devido à juventude do autor.

O Popular – 15.4.2008

Um recomeço possível

André de Leones

Em De cabeça baixa, Flávio Izhaki dribla as armadilhas do tema e da forma propostos e tece um maduro romance de estréia.

A geração corrente da literatura brasileira, por alguns chamada de “Geração 00”, é talvez a menos lida e a mais criticada pelos resenhistas de plantão. Estes costumam apontar um suposto esgotamento temático e estilístico nos livros dessa turma. Entre as críticas mais comuns, estão: a) os protagonistas são, quase sempre, jovens escritores em crise; b) os livros “não contam histórias”. Para o deleite dos detratores do atual momento da prosa nacional, o protagonista do romance De cabeça baixa, de Flávio Izhaki, é um jovem escritor em crise. Mas, para o desconcerto dos detratores do atual momento da prosa nacional, o romance de estréia de Flávio Izhaki traz uma história das boas, e muito bem contada.

Nela, Felipe Laranjeiras, o protagonista, escreveu apenas um livro, um romance intitulado Desencanto. Antes de lançar esse livro, ele era tido como um talento bastante promissor. Desencanto, contudo, recebeu apenas uma crítica, arrasadora, e foi um fracasso comercial. Sofrendo, também, com o fim de um relacionamento amoroso, Laranjeiras resolveu deixar o Rio de Janeiro e se “exilar” em Curitiba. Quando o encontramos, no início do romance, ele já se encontra inerte na capital paranaense há cinco anos.

Em uma tarde tipicamente cutibana (fria, cinzenta, chuvosa), Laranjeiras adentra um sebo e, acidentalmente, depara-se com um exemplar de seu Desencanto. Anotações nada simpáticas em relação ao livro infestam as páginas do mesmo. A ânsia por encontrar a pessoa que fizera aquelas anotações faz com que ele saia da imobilidade na qual se encontrava, ensaiando, dessa maneira e por vias tortuosas, um recomeço possível para a própria vida.

O talento com que Izhaki alterna a busca de Laranjeiras com trechos de Desencanto e com as anotações feitas no exemplar encontrado por acaso é que torna De cabeça baixa um livro especial. Logo, o que poderia ser apenas uma brincadeira metalingüística acaba por se revelar uma obra madura. Talvez seja problemático referir-se ao primeiro romance de um jovem autor como uma “obra madura”, mas a leitura do livro, felizmente, não permite outra impressão. À estrutura muito bem pensada e desenvolvida, soma-se a deliciosa sensação de que o livro é escrito à medida em que o lemos. De cabeça baixa, em outras palavras, é dotado de um frescor invejável e prescinde dos maneirismos e arroubos estilísticos que, em geral, contaminam romances de estréia.

Além disso, o autor evita que a sua premissa caia em algumas armadilhas, como, por exemplo, transformar o romance em uma espécie de “primo pobre” das criações do norte-americano Paul Auster. Felizmente, isso não acontece, por mais que, em alguns momentos, perceba-se em Izhaki o mesmo apreço pelas auto-referências mais ou menos sutis e sempre irônicas que também constatamos nos trabalhos do autor de A Trilogia de Nova York. Afinal de contas, e assim como Desencanto para Laranjeias, De cabeça baixa é o primeiro romance de Izhaki, o qual, aliás, foi apontado (a exemplo de seu personagem) como um autor bastante promissor bem antes dessa sua estréia solo.

Ademais, a maneira como Izhaki desenvolve a sua história pouco tem de austeriana e não sofre de uma abusiva auto-referencialidade. Não há, portanto, a intenção de transformar o livro em uma espécie de labirinto metanarrativo ou mesmo em um jogo de espelhos sem saída. Em seu cerne, aliás, está a idéia de que há, sim, uma saída possível.

Outra armadilha seria colorir a dolorosa busca de Laranjeiras com as cores de um filme hollywoodiano banal. A idéia de um personagem que procura acertar as contas com o passado e se reerguer é, todos sabemos, bastante freqüente em um certo tipo de cinema, constituindo até mesmo uma espécie de subgênero. Em De cabeça baixa, no entanto, a cada passagem fica mais e mais evidente que o que foi perdido, perdido está e nada vai mudar isso. Logo, não há sequer a sombra de um final meloso, “redentor” ou catártico à espera do leitor. O que há, em resumo e conforme já explicitado aqui, é um ser humano a juntar os casos de si, ou o que ainda consegue juntar, e a partir disso ensaiar um recomeço possível.

 

 
 
 
 
 

 

Correio Braziliense – Caderno Pensar – Coluna Livros & Leituras – 12.4.2008

Mundo desencantado

Sérgio de Sá

 

De cabeça baixa (Guarda-chuva), estréia do carioca Flávio Izhaki (foto) no romance, tem um quê existencialista. Tudo seria normal não fosse o protagonista um jovem escritor em desespero, sempre à deriva, sem vontades. É cada vez mais comum encontrarmos personagens-escritores na prosa brasileira contemporânea. Há quem diga que os leitores da literatura nacional não passam de 3 mil abnegados, aí incluídos os professores e estudantes de Letras, que, diga-se, lêem pouco e menos ainda a produção atual.

 

Sendo assim, desprezados pelo grande público, os aventureiros da escrita ficcional partem em busca do reconhecimento no pequeno clube das palavras. Não sendo obrigados a dar satisfação ao tal do mercado (afinal, inexistente), têm se aproveitado para questionar o lugar do escritor na sociedade, o que ele representa e o significado disso tudo na própria vida.

 

Izhaki, 29 anos, repete a estratégia de modo metanarrativo. Um livro está dentro do livro. O romance Desencanto foi um fracasso: palavra importante para pensar o ponto de vista da narrativa, situação literariamente estimulante. Sem atenção da crítica e longe de qualquer repercussão, o “jovem promissor” Felipe Laranjeiras deixa o Rio para se instalar em Curitiba. As referências aos “simulacros” e ao bairro de Sérgio Sant´Anna são diretas. Abre-se a possibilidade de uma linhagem aí.

 

Especialmente em suas duas primeiras partes, De cabeça baixa tem um clima de ajuste de contas geracional muito parecido com o de Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera. A cidade dura e fria lá fora, eu e minhas circunstâncias aqui dentro – amores soltos, perdidos no tempo, o trabalho que não satisfaz intelectualmente (apenas permite a sobrevivência), a família, se família existe, numa perspectiva afetiva pouco calorosa.

 

A arte termina por se apresentar como uma saída cheia de armadilhas, e o final do livro soa como metáfora disso. O romance de Izhaki sobe de produção em sua parte final, justificando a leitura. Nas arapucas intraliterárias, que falam da impossibilidade de não discutir literatura ao fazer literatura, o leitor encontra o sabor amargo do abandono, da desistência, da tristeza em meio a um mundo que nos obriga à felicidade. De cabeça baixa é uma pena que anota, às margens das páginas comuns do cotidiano, a difícil experiência da escritura hoje.

 

Rolling Stone – Edição 19 (abril) – 11.4.2008

Muito além do livro

Bruno Maia

 

Internet cria alternativas de divulgação e aquece mercado literário

 

“Além de clipes musicais, trechos e teasers de filmes e seriados, o You Tube começa a apresentar uma nova categoria de vídeo de divulgação: o trailer de livro. Mais do que um paradoxo, essa é uma das novidades que indicam uma revolução silenciosa na dinâmica do mercado editorial, imposta pelos hábitos que a Internet trouxe à cultura atual.

 

O escritor carioca Flávio Izhaki optou por criar um trailer para conduzir a campanha de marketing de seu primeiro romance, De cabeça baixa (Editora Guarda-chuva). ‘Usamos linguagem de cinema, com atores, trilha, mas aplicada à idéia de anunciar o livro’, diz, sobre o vídeo de três minutos. ‘Era precisa encontrar o equilíbrio entre fazer propaganda de um livro e não revelar muito sobre ele’, completa Débora Pessanha, a diretora do trailer…”

 

 

 

 

 

 

 

O Estado de Minas  – Caderno Pensar – 5.4.2008

Estréia consciente
Esperar o momento certo para publicar. Esse foi o maior desafio ao qual se propôs o jovem Flávio Izhaki, que acaba de lançar o seu primeiro romance, De cabeça baixa, pela Editora Guarda-chuva. Nele conta a história de um escritor que encontra seu livro em um sebo, alguns anosapós tê-lo publicá-lo, sem sucesso. Nascido no Rio de Janeiro, aos 28 anos, Flávio Izhaki, antes de se tornar romancista, participou de três antologias de contos, além de ter veiculado textos em várias revistas eletrônicas. ‘Embora tenha ouyro romance em andamento, meu projeto atual é divulgar De cabeça baixa, para queele possa ser lido pelo maior número possível de pessoas’, disse escritor em entrevista ao repórter Carlos Herculano Lopes.
Qual é o maior desafio em se publicar o primeiro romance aos 28 anos?
A questão da idade é secundária. Publicar foi só um dos passos numa caminhada longa, que começa muito antes, passa por muita leitura, mais leitura; e segue com escrever, errar, reescrever, e adiante, com o funil da dificuldade de ser lido. Mas publicar ainda é o passo em que a perna precisa estar mais esticada, o pé de apoio fincado, corpo equilibrado, aterrissagem segura. Pois publicar por publicar não é solução. Muita gente lança seu primeiro livro apressadamente e sai do nada para o lugar nenhum. O livro que lancei em março de 2008 recebeu o ponto final em março de 2006. Encontrar quem tope publicar o livro de um autor estreante com atenção e dedicação não é tarefa fácil. Muitos optam pela co-edição, caminho mais rápido, mas que pode ser traiçoeiro. Preferi publicar quando achasse que a oportunidade era boa, que meu livro estava bom para ganhar outros leitores. Mesmo já tendo participado de três antologias de contos, tive dificuldade para achar a oportunidade certa.
Qual é a história que você conta em De cabeça baixa?

Conto a história de um escritor em auto-exílio que encontra seu livro num sebo, cinco anos após a publicação, com as margens do texto todas anotadas com comentários cáusticos. Felipe Laranjeiras faz da tentativa de achar essa pessoa que escreveu no exemplar encontrado o ponto de partida para que ele consiga retomar sua vida, que ficou estagnada desde que o livro foi lançado com resenha negativa no jornal. Antes da publicação do livro, Felipe Laranjeiras era um escritor promissor, namorava, e depois do lançamento acaba preso no próprio fracasso, exilando-se voluntariamente em Curitiba, fugindo de todos e de si próprio. Com a descoberta de Desencanto no sebo, o livro que o tirou da cidade acaba o trazendo de volta ao Rio, onde tenta retomar sua vida do ponto que ela parou.

 

Seu livro é pura ficção, ou você partiu de algum fato real?

 

A idéia de escrever um romance que se inicia com uma pessoa que acha um livro todo rabiscado e tenta descobrir quem foi que escreveu aquelas anotações veio num dia nublado, andando com o pensamento longe. Mas o interessante do trabalho do escritor é pensar toda uma estrutura do antes, durante e depois que seja um arcabouço para aquela história que quer contar. No meu caso, queria passar esse sentimento de frustração, fracasso, da incapacidade de uma pessoa reagir quando os paraísos desabam. Foi preciso tomar muitas decisões, escolher caminhos, errar e acertar até o romance ganhar corpo, decidi que o personagem seria escritor de apenas um livro. É uma história totalmente ficcional mas que poderia ter acontecido com qualquer um, inclusive comigo, autor estreante. O fato do Felipe Laranjeiras, personagem desencadeador do romance, ser apontado como um escritor promissor que lançou seu primeiro livro, pode suscitar uma breve interjeição de suspeita de autobiografismo. Mas não é o caso, felizmente. E que ler o livro vai entender esse ‘felizmente’.

 

Você vem sendo apontado como uma das revelações da nova safra de autores nacionais. É muita responsabilidade?

 

Esse rótulo interessa a imprensa, que consegue adjetivar meu nome sem esforço, a editora, que ganha em status e possibilidade de venda, e, sem demagogia, o próprio autor, pela atenção e interesse que essa aura de revelação traz de reboque. Mas desglamurizando a situação é mais simples. Já participei de três antologias, expus um pouco do meu trabalho, então não sou um estreante inédito. Só espero que essa de sombra ela não vire peso com as cobranças. Sei que o nível de exigência será mais alto, mas deixo que o livro se defenda por si só, e espero que ele responda bem.

 

 

Em quem dessa nova geração você está apostando suas fichas? Por que?

 

Esse conceito de geração é um pouco elástico, na minha opinião, pois não vejo unidade, ainda bem, entre os autores contemporâneos. Qualquer corte – seja por idade, região, data de publicação do primeiro livro – vai mostrar grupos heterogêneos em forma, conteúdo e projeto literário.

Mas aceitando a provocação, e limitando em idade, 40 anos, e em autores de prosa, indicaria a leitura de alguns bons nomes como Marcelo Moutinho, Michel Laub, Adriana Lisboa, André de Leones, Tatiana Salem Levy, João Paulo Cuenca, Daniel Galera, entre muitos outros. Fora alguns outros que ainda não conseguiram publicar, mas em breve estarão nas livrarias. De gente nova de Minas conheço o trabalho da Christiane Tassis. O primeiro livro dela é muito bom.

Diário da Região (Rio Preto-SP) – Vida & Arte – Livros da semana – 2.4;2008

De cabeça baixa ninguém chega a lugar algum!

 

O livro De cabeça baixa, recém-lançado pela editora Guarda-Chuva, de autoria de Flávio Izhaki, chega às livrarias e já é um candidato a best seller. Com direito a vídeo no You Tube, o livro traz a história singela de um autor frustrado. Evidente que não se trata do próprio autor, este um carioca de apenas 28 anos, que consegue cativar o leitor do início ao fim das páginas, contando a trajetória de Felipe Laranjeiras.

 

A história relata o processo criativo de um escritor, seus altos e baixos, e o quanto uma pessoa que lida com a escrita pode ser influenciada por uma crítica negativa. Após perambular arrasado por muitos lugares, sem rumo, o escritor, cuja estréia literária foi um retumbante fracasso, é assolado por uma dúvida quando encontra, num sebo, em Curitiba, um exemplar de seu único livro, Desencanto, todo rabiscado. Quem teria lido?

 

Com as margens das páginas cheias de anotações, ele decide ir atrás de quem fez aquilo. E acha que ela teve a intenção de lhe dizer algo, quando desconstrói toda sua narrativa. O escritor segue as pistas deixada pela leitora de sua obra e daí para frente rola de tudo um pouco, inclusive romance.

 

De fato, a rejeição pela crítica é o maior receio de muitos escritores, e por isto o autor, que já não é inexperiente, fez um trabalho primoroso, graças ao que chama de inspiração. Ele conta que para compor o perfil de seus personagens acompanhou pequenos gestos, como uma conversa entreouvida no cinema ou de um casal sentado numa mesa de bar e não teve receio de demorar para soltar um trabalho muito bem feito.

Izhaki já participou das coletâneas Prosas Cariocas, Paralelos e Contos sobre tela.

 

 

 

 

 

 

 

 
 

 

 
 
 
 
 

 

 
 
 
Valor Econômico – Eu & Fim de Semana – 28.3.2008
Um bravo representante da nova geração

O carioca Flávio Izhaki estréia com romance bem escrito sobre as agruras de um autor fracassado

Um pouco como o escritor catalão Enrique Vila-Matas, o jovem brasileiro Flávio Izhaki faz da própria atividade literária seu tema neste primeiro romance, que traz também entre os ingredientes amor, um toque de mistério e, principalmente, a realidade da solidão nas grandes cidades, no caso o Rio, cidade natal do autor e do protagonista do livro, Felipe, e Curitiba, “exílio” deste.

A história, muito bem escrita e amarrada, é a de um jovem professor de literatura e romancista estreante, cujo livro, “Desencanto”, não obtém sucesso, apenas uma resenha negativa. A depressão vem e, com ela, a vontade de sumir, o que Felipe faz mudando-se do Rio para Curitiba. Lá, ao visitar um sebo, depara com um exemplar do seu livro cheio de anotações críticas nas margens, o que o leva a uma busca pela pessoa que o vendeu ao sebo e o faz repensar a própria trajetória de escritor.

O mais intrigante: trata-se de alguém que foi ao lançamento, cinco anos antes, já que o exemplar contém seu autógrafo e a dedicatória de uma tala Ana Maria. O uso da metalinguagem é constante. O enredo de “Desencanto” se intercala com o da própria trama e, ainda, com um terceiro, que aparece depois, usando o protagonista do primeiro como personagem.

Mas cumpre apresentar o escritor. Flávio Izhaki nasceu em 1979 no Rio e já participou de várias antologias, como “Paralelos – 17 contos da nova literatura brasileira” (Agir, 2004), e revistas. Não por acaso – e este romance o comprova -, umjúri convocado recentemente pelo jornal “O Globo” o apontou como aposta literária da nova geração.

 Trechos

Perplexidade

“Mas o que ‘Desencanto’, seu livro, sua teoria, estava fazendo no sebo, e quem o sublinhara? Folheou as páginas iniciais e percebeu que estavam todas anotadas pela mesma letra. Tinha outro livro rabiscado, analisado, nas margens deste. Que jamais vendera sequer a edição de seiscentos exemplares que ele pagara. Que fora desenganado pelos escritores, seus amigos na época, e o condenara à segunda divisão de uma já esquecida geração literária carioca do final dos anos 1990. (…) ‘Desencanto’ fora a premonição do fracasso que se seguiu, não literalmente, mas na sua incapacidade de agir ou reagir. Restara apenas a fuga, impositiva, punitiva, e, desde então, jamais parara de correr, mesmo assentado em Curitiba.”

Sem destino

“Novamente Curitiba na cabeça. Sentiu-se um fantasma na própria cidade; ainda seria a sua cidade?, pensou, ele agora um estranho, parado, sozinho, estático como uma pessoa terrivelmente amedontrada, uma formiga que sabe que será esmagada. Era preciso voltar ao hotel, ler a carta de Ana Maria, decidir sobre seu futuro imediato: ficar ou exilar-se em Curitiba. Mas será que agora não seria o contrário, o exílio na própria cidade natal? Ou em ambas.”

Jornal do Brasil – Coluna Anna Ramalho – 27.3.2008

Prestígio

Foto com legenda

Flávio Izhaki todo prosa com a presença do mestre Antonio Torres nos autografos do seu “De cabeça baixa”, na Argumento do Leblon.

O Globo – Segundo Caderno – Coluna Gente Boa – 25.3

O livro na multidão

Não há nada mais difícil no mercado editorial do que chamar a atenção para o lançamento de um autor novo – e Flávio Izhaki está fazendo o possível para divulgar “De cabeça baixa”, que autografa hoje na Argumento. Ele pôs um curta-metragem de dois minutos, como se fosse um trailer, com atores (foto acima) no You Tube.

Portal Literal – 25.3

Lançamentos

 É hoje, terça, 25 de março, o lançamento do primeiro romance de Flávio Izhaki. Carioca, nascido em 1979, Izhaki co-organizou e participou como contista do livro Prosas cariocas – uma nova cartografia do Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2004) e das antologias Paralelos – 17 autores da nova literatura brasileira (Agir, 2004) e Contos sobre tela (Pinakotheke Edições, 2005). O romance, De cabeça baixa, sai pela Editora Guarda-chuva, e olançamento é na Livraria Argumento (Rua Dias Ferreira 417, Leblon), a partir das 20h. Confira o blog dedicado ao livro, onde é possivel assistir a um trailer do romance. 

Publish News – 25.3

A trajetória de um anti-herói contemporâneo 

Desiludido pelo fracasso de sua estréia literária, Felipe vive sem perspectivas, até encontrar num sebo, em Curitiba, um exemplar de seu livro. Nas margens das páginas, anotações de uma desconhecida desconstroem sua narrativa, ao mesmo que parecem oferecer pistas para que Felipe reconstrua sua própria história. Esse é o enredo desenvolvido por Flavio Izhaki em De cabeça baixa (Guarda-Chuva, 196 pp., R$ 23,90). O lançamento vai acontecer no dia 25 na Argumento (Rua Dias Ferreira, 417 – Leblon – RJ).

Rádio CBN – Tempo das Letras – 18.3

Matéria/entrevista no programa Tempo das Letras, feita pela jornalista Simone Magno.

Diário da Tarde (jornal da UniverCidade) – Letras & Expressões – 18.3

Estréia carioca nas prateleiras

Não é de hoje que Flávio Izhaki vem sido apontado como a promessa da literatura contemporânea. Porém, quando questionado sobre essa responsabilidade, ele diz que não é bem assim. ”Tem gente excelente nas vitrines, estantes e até no estoque”.Ex-aluno da PUC e da UFRJ, o autor conta que nem sempre teve a certeza do rumo que sua trajetória iria tomar. Não antes de cursar 3 períodos de economia e passar pelo jornalismo esportivo.”Nessa época já usava muito do meu tempo livre para ler. Escrever foi o passo natural”, relembra. É cercado de muita expectativa, que o carioca de apenas 28 anos faz sua estréia pela editora Guarda-chuva. Intitulado ”De cabeça baixa”, o romance expõe o maior receio de muitos escritores – a rejeição pela crítica. A inspiração para compor o perfil de seus personagens, segundo o escritor, vem de pequenos gestos, como uma conversa entreouvida no cinema ou de um casal sentado numa mesa de bar.Assim como Felipe Laranjeiras, personagem central da trama, Flávio confessa que também teme fracassar, mas suas expectativas para o lançamento do livro no próximo dia 25 (o livro será lançado na Livraria Argumento – no Leblon) são as melhores possíveis.”Meu romance vai ganhar outros mundos, meus personagens não serão mais meus. Isso assusta, mas é a melhor coisa que posso esperar do lançamento”, afirma. Seguindo uma tendência, o livro conta ainda com um trailer que pode ser conferido aqui http://www.youtube.com/watch?v=J-0GM3qHnVI, além de um blog criado pelo próprio autor. E para aqueles que pretendem seguir seus passos, Flávio dá uma dica : ”Ler os clássicos é bom, essencial, mas é interessante saber o que está sendo escrito agora”. Vale a pena esperar o lançamento e torcer para que essa promessa se realize. Blog do livro : http://www.decabecabaixa.wordpress.com/ Livraria Argumento Leblon
Rua Dias Ferreira,471

Telefone: 2239-5294 

Caros Amigos Online – Para ler – 12.3.2008

De cabeça baixa

Do escritor carioca Flávio Izhaki, o livro conta, com ironia dramática, a trajetória do anti-herói contemporâneo, Felipe, que desiludido com o fracasso de sua estréia literária, representa o vazio de uma geração formada na sociedade do simulacro e treinada para as aparências. Da Editora Guarda-chuva, tem 196 páginas e custa R$ 23,90.

O Fluminense – O texto é notícia – 12.3.2008

Grande promessa de sua geração, Flávio Izhaki narra a trajetória de um anti-herói contemporâneo em De cabeça baixa, livro que leva o sinete da Editora Guarda-Chuva. 
 
 
 
 
 
 
O Globo – Megazine – Coluna Liquidificador – 11.3.2008
O escritor-promessa faz a sua estréia

Em 2006, a Megazine publicou uma reportagem sobre as promessas na TV, na música, na literatura e no futebol. Ao lado de um Robinho e de uma Maria Flor, um nome, ainda pouco conhecido, se destacava. Era o de Flávio Izhaki, o carioca escolhido por suas participações nas antologias de contos “Prosas cariocas” e “Paralelos”.

Agora, aos 28 anos, chegou a vez de Flávio encarar o que os escritores dizem ser o mais difícil: o primeiro romance. Chega às livrarias neste sábado, pela Editora Guarda-chuva, o livro “De cabeça baixa”, a estréia de Flávio.

– A matéria da Megazine é de janeiro de 2006. Eu terminei o livro em março daquele ano. Acho que daí você já tira como é difícil o processo editorial – conta ele. – Desde o começo, eu tinha claro que não queria publicar por publicar. Sempre achei que precisava trabalhar muito neste primeiro livro, pois ele é decisivo para qualquer coisa, boa ou ruim, que venha a acontecer.

A curiosidade é que a história de “De cabeça baixa” é justamente aquela pela qual Flávio não quer passar. O livro fala da estréia de um escritor que é arrasado pela crítica. Ele se isola e, anos depois, descobre a obra, rabiscada, num sebo.

– Por causa da busca pela pessoa que escreveu sobre seu livro, ele retorna ao Rio e tenta retomar sua vida de onde parou – diz ele.

Para quem quiser saber mais sobre o romance e assistir ao seu trailer – sim, livros também têm trailers -, Flávio criou um blog: decabecabaixa.wordpress.com

JB – Idéias – Coluna Informe Idéias – 8.3.2008

Blog de romance

No dia 25, Flávio Izhaki faz o lançamento, pela Guarda chuva, de seu romance de estréia, De cabeça baixa. Que já tem um blog: decabecabaixa.wordpress.com

 

 

 

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