De cabeça baixa


Bienal Rubem Braga
maio 27, 2008, 12:51 pm
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O melhor copi da editora é um senhor que trabalha aqui há décadas, extremamente caprichoso e perspicaz. Ele conta que certa vez o Rubem Braga pediu para ele fazer a revisão de um novo livro na própria casa do autor, discutir as emendas etc. Tímido que é, chegou todo acabrunhado no famoso apartamento de Copacabana em que o cronista morou por tanto tempo. Abriram a porta para ele e o conduziram até a sala. Rubem Braga, como só um postal poderia idealizar, estava na janela, binóculo nos olhos, observando à calçada, buscando no detalhe mais uma crônica.

Feito este preâmbulo, a informação: fui convidado para participar da II Bienal Rubem Braga, que acontecerá em Cachoeiro de Itapemirim, cidade natal do grande cronista, na semana que vem, entre 5-8 de junho. Estarei numa mesa, ao lado de Julián Fuks (autor do ótimo Histórias de literatura e cegueira), que versará sobre a literatura brasileira contemporânea. A mediação, ou provocação, como o programa oficial da Bienal qualifica, será do jornalista Rogério Pereira, editor do Rascunho.

Parto para o Espirito Santo no dia 6 e a palestra será no dia 7 pela manhã. Torçam por mim. Para eventuais visitantes capixabas deste blog, vale a pena avisar que também participarão do evento Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, Ana Maria Machado, entre outros. Gente muito mais qualificada que eu, portanto. O programa completo está aqui.



Guarda-chuva e Bibliofilmes
maio 20, 2008, 1:06 pm
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A editora Guarda-chuva repaginou seu site, agora muito mais completo e com melhor navegabilidade. Estão lá o release do meu livro, download de imagem da capa e do autor, para facilitar para a imprensa, uma entrevista de divulgação do romance e também o trailer.

Falando em trailer, o que fizemos para o lançamento do livro já está no site da Bibliofilmes. E o que é a Bibliofilmes? “Um conjunto de iniciativas para a Comunidade da Língua Portuguesa usando um novo conceito de promoção do livro, da biblioteca e da leitura através das novas tecnologias e do cinema.”

No início deste ano eles fizeram um concurso para eleger o melhor vídeo que demonstrasse a paixão de um aluno com sua biblioteca escolar. Dessa vez o concurso elegerá o melhor trailer de livro (as inscrições vão até o fim do ano), uma iniciativa pioneira para premiar outras iniciativas que são, por enquanto, ainda pioneiras, mas daqui a pouco tempo será quase práxis.



Foto MaPa
maio 19, 2008, 1:14 pm
Filed under: De cabeça baixa, Eventos

A produtora do MaPa me mandou uma foto do evento. Engraçado que é justamente o momento que cito no texto abaixo. Em primeiro plano, Marcello Magdaleno tecla a Olivetti.



O escritor e o clímax
maio 15, 2008, 1:32 pm
Filed under: De cabeça baixa, Eventos

Cheguei cedo ontem na Cinematheke, a pedido da produtora do MaPa. O objetivo: gravar uma pequena entrevista que eles usarão, junto com o show, para conseguir patrocinadores para o projeto.

 

A segunda pergunta que me fizeram, apesar de despretensiosa, me fez pensar sobre um assunto que está rondando minha cabeça desde antes do lançamento: a anticlimaticidade da literatura.

 

Nas demais artes, especialmente teatro e música, a carga climática envolvida na hora da apresentação da obra é estupenda. O ator/músico se prepara, ensaia e num determinado dia, numa determinada hora, irá expor seu trabalho para o público. No teatro, então, a arte, o clímax, está apenas ali, naquele palco, com hora marcada. Na música temos também a opção do CD, e no cinema, apesar de guardar semelhanças com o teatro na parte de representação, o autor/ator/diretor etc. não está ali, existe uma mediação de projetor, sala com luzes apagadas e tela em branco.

 

Na literatura não existe clímax. Enquanto a obra é feita, quando o autor está escrevendo, burilando e revisando, ninguém vê, sequer sabe da existência e execução da obra. Depois de lançado, também não há clímax. O escritor não fica sobre os ombros do leitor acompanhando cada nuance de expressão, esgar de desaprovação, esperando os aplausos ou apupos ao final de cada capítulo. Em quase a totalidade dos casos o autor nem sabe se sua obra encontrou (produziu?) eco ou não.

 

E, por favor, não me falem de lançamento; lançamento é festa, louvação, o livro ainda não foi lido, todas as obras se igualam, não entram na equação, são apenas abraços e tapinhas nas costas.

 

A pergunta, voltando, era sobre o que eu achava do projeto, da união entre música, palavra escrita e palco. A resposta foi mais ou menos essa que aprofundei nesses últimos parágrafos.

 

O show começou com Chacal lendo poesias em dueto com o sax de Marcello Magdaleno. Em seguida o poeta saiu de cena e entrou o restante da banda (Marcelo Chaves, guitarra, Pompeo Pelosi, bateria, Roberto Medeiros, baixo, Chiquinho Vaz, piano).

 

O segundo convidado a subir ao placo foi o escritor Paulo Thiago de Mello. Antes do show ele disse estar muito nervoso. No palco não pareceu. Foi muito bem.

 

Depois de mais uma seqüência de músicas, minha vez. Primeira vez num palco, nunca fui garoto de bandas ou teatro. A luz, de fato, cega, o que é bom. Você se sabe visto, mas quase não vê. Li o início do primeiro trecho combinado à capela, para usar um termo musical. Tudo muito rápido, sem tempo para nervosismo. Num respiro entre parágrafos a banda entrou tocando, competência de quem sabe o que faz, o texto cresceu automaticamente.

 

Entre os trechos, como combinado, eu dava uma pausa mais longa, deixava a banda curtir a música, improvisar. Interessante que o que guardarei dessa noite é muito menos a leitura e mais uma cena que aconteceu enquanto esperava no palco para ler o último dos trechos. Ao lado, num banquinho parecido com o meu, uma velha Olivetti repousava suas teclas e página em branco. Marcello Magdaleno aproximou-se, a banda tocando blues, e começou a teclar. O barulho da máquina de escrever é a trilha do som da imaginação trabalhando, da produtividade. Mas, não sei se de propósito ou não, Marcello só teclava em uma letra, no máximo em duas; aquela cena uma metáfora muito bonita do desespero do meu personagem, o escritor que não consegue mais romper sua imobilidade.

 

Para encerrar a noite, depois de nova seqüência de música, entrou Otto. Pediu licença para ler, pela primeira vez publicamente, uma poesia que fez. Tremia. As mãos mal agüentando segurar o papel, a voz receosa, emperrando. Cantor e compositor, vinte anos de palco, acostumado a cantar suas próprias músicas, mas tremia.

 

Valeu. À noite, o convite da banda do projeto MaPa, a experiência de ler minha literatura num palco. Mas continuo achando que literatura é a arte mais anticlimática que existe.



Lembrete MaPa
maio 12, 2008, 1:18 pm
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Ontem à noite fui ensaiar a leitura dos trechos do livro que farei na quarta-feira no Projeto MaPa. Serão três pequenos trechos, cada um acompanhando por uma trilha sonora. Foi interessante a experiência de “ensaiar”: na verdade, menos um ensaio e mais uma leitura dos trechos para os integrantes da banda ouvirem o texto e pensarem nos temas para o acompanhamento.

Mas sou apenas um dos convidados. A noite terá também o poeta Chacal, na abertura, o escritor e antropólogo Paulo Thiago e, para fechar, o cantor Otto.

O evento será na Cinematheke (Rua Voluntários da Pátria 53), às 22h30. Rola um couvert para entrar. Vale mandar um e-mail para mapaprojeto@gmail.com para ter um descontinho na lista amiga.

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Atualizei o link Imprensa. Saíram algumas matérias nos últimos dias que ainda não tinha adicionado.



Projeto MaPa
maio 7, 2008, 4:38 pm
Filed under: De cabeça baixa, Eventos

Na quarta-feira que vem participarei, como convidado, do Projeto MaPa, na Cinematheke, em Botafogo (Rua Voluntários da Pátria 53). Para quem não conhece, o MaPa é um encontro entre músicos, prosadores e poetas. Idealizado e produzido pelo saxofonista Marcello Magdaleno, o projeto nasceu no ano passado e já juntou no palco do Cinemathéque, em Botafogo, nomes como os dos poetas Chacal e Cabelo, do escritor Marcelo Moutinho e do trompetista Guilherme Dias Gomes.

O projeto conta com uma banda que mistura, por exemplo, a melodia de Cantaloupe Island, do pianista Herbie Hancock, com a letra de Samba da Bênção, de Vinicius de Moraes. Participando das canções, um pequeno time de poetas, prosadores e músicos sobe ao palco para desfiar palavras e notas ao longo da noite, um de cada vez. Os textos são declamados e a banda acompanha com arranjos que mudam de acordo com o contexto. O clima é de improviso, mas as entradas e saídas são planejadas. Nomes conhecidos se alternam com o de novos músicos e poetas.

Os outros convidados da noite são o poeta Chacal, o músico Otto e o escritor Paulo Thiago. Portanto, veteranos de palco, ao contrário do tímido que escreve essas linhas. Vale a pena passar por lá só para ver o quão vermelho uma pessoa pode ficar.

Quem quer saber mais sobre o MaPa, as edições anteriores e os músicos que compõem a banda, vale entrar no site do projeto.



Qual o limite?
maio 6, 2008, 1:07 pm
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Ano passado, após um dos embates da Copa de Literatura Brasileira, rolou um debate acalorado na caixa de comentários sobre a presença de spoilers em uma das resenhas-jogos. Para os menos entendidos em internet vale duas explicações básicas. A Copa de Literatura Brasileira é um prêmio em que 16 romances previamente escolhidos são distribuídos em uma chave, como de um mata-mata futebolístico, e vão se enfrentando até só restar um livro de pé, que é declarado o campeão (na primeira edição foi Música perdida, de Luis Antonio Assis Brasil).

Spoiler são comentários que entregam o conteúdo de uma obra que não é de conhecimento público. Acontece muito no caso de séries americanas que passam primeiro na televisão de lá e só chegam aqui semanas, meses depois. No popular, os spoilers são os estraga-prazeres.

A práxis é avisar que vai se contar sobre o conteúdo que não é de conhecimento público, para que a pessoa que ainda não viu o programa não leia o restante da matéria. Mas como isso funciona em literatura, em resenha mais especificamente? Contar a história do livro é estragar o prazer da leitura? Qual a linha que não se pode cruzar: contar a função de um personagem que é chave, escrever sobre o desfecho, reclamar contextualizando com detalhes sobre o final que não bate com o que é narrado durante o restante do livro?

Retomando o início do post, um autor reclamou de uma resenha na Copa de Literatura Brasileira pois a análise entregava demais do livro. Foi uma das primeiras coisas que lembrei quando li uma crítica sobre o meu livro em que o final da trama é copiado para as páginas do jornal, com aspas de todo o último parágrafo.

Fiquei pensando: isso pode? Não seria um egoísmo do crítico supor que a leitura dele será a única, definitiva, que seja OK para o livro que seu fim seja colocado nas páginas da imprensa? Mas e, jogando agora do outro lado, por que não? Será que uma análise de um livro pode se dar ao luxo de não falar de certas partes do livro para não estragar a leitura de outros?

Eu não tenho uma resposta definitiva sobre o assunto, mas não posso dizer que não fiquei incomodado.