De cabeça baixa


Leitores

João Gilberto Noll

“Flávio:

Obrigado pelo seu livro. Li sua novela ontem à noite. Gostei mesmo. Em primeiríssimo lugar porque tem a pegada de um escritor. Ou seja, sabe manter a tensão. Fundamental em qualquer narrativa. Você expressa um mundo cheio de atmosferas triviais, com pouquíssimas peripécias. Podia assim conduzir o leitor a certas evasões. No entanto, fica-se preso ao tatear do protagonista indeciso embora pertinaz em sua busca turva. Claro, é livro de inspiração existencialista. Independente do seu desejo ou não quanto a isso. Aquela vaga idéia moral regendo o herói problematico. A nostalgia por uma certa autenticiadade. Mas também isso pouco valeria se você não tivesse o domínio da frase, em que pese seu estilo ser sóbrio, quase imperceptível. Marca masculina, escrita sem adereços. Parabéns mesmo.

É isso aí rapaz, é bom verificar um verdadeiro talento num jovem escritor,

João Gilberto Noll”

“Estava pensando aqui:De cabeça baixa é um estudo ficcional especialíssimo sobre a melancollia de hoje. Ab. Noll”

João Gilberto Noll é autor de 13 livros e múltiplo vencedor do Prêmio Jabuti (1981, 1994, 1997, 2004 e 2005).

Alberto Mussa

“Flavinho ,
li seu livro ontem, sem parar.
Gostei bastante. Seu livro tem o que falta à maioria dos que têm sido lançados por agora: um argumento inteligente, a idéia de um resenhista que reescreve um romance,  faz do autor personagem e fica escravo do que escreveu. Muito legal.
Embora eu suponha que as pessoas tenderão a valorizar o aspecto do conflito existencial do Laranjeiras, pra mim vale muito esse lado cerebral do livro, o jogo lúdico em si.
Valeu. Parabéns!”

Alberto Mussa é autor de quatro livros, entre eles O enigma de Qaf, vencedor do Prêmio Casa de Las Américas e APCA, e O movimento pendular, vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional e APCA.

Flavio Carneiro

“Caro Xará,
 
tudo bem?
Te peço mil desculpas pela demora na leitura do seu livro. Comecei duas vezes e tive que interromper por questões de trabalho e começar de novo. Ontem finalmente tive uma oportunidade e concluí a leitura.
Gostei. Achei muito boa essa idéia de montar toda a história com variações sobre o título: de cabeça baixa, que ora se aplica a Felipe, ora a Marcelo, mas também aqui e ali a outros personagens, não apenas os mais citados como também outros que aparecem quase como figurantes, como o porteiro, mais pro final do livro (p. 146). E isso fica ainda mais interessante se considerarmos não apenas a idéia de cabeça baixa ligada a introspecção, em certas passagens, ou a baixa autoestima, em outras, mas também ao fato de o mercado editorial ser o espaço onde se enfrentam os de cabeça alta e os de cabeça baixa. Seu romance lida muito bem com isso, com esse mundo do livro – de quem escreve, quem vende, quem edita, quem lê – e seus duelos cotidianos. E não cai no estereótipo de apresentar esse mundo apenas como um duelo entre vencedores e perdedores – o que ele não é mesmo, claro – mas como algo mais complexo do que aquilo que as pessoas lêem nos jornais (ou pelo menos nos suplementos).
Você criou um personagem bom, de uma fragilidade ficcionalmente rentável, e centrou a história nele. A história tem um ritmo bom também, que vai se mantendo do início ao final, no tempo cruzado das histórias do personagem (seu) e do outro (criado pelo seu), protaganista de Desencanto.
O fio meio romance policial da investigação que Felipe empreende pela cidade (ou pelas cidades, começando por Curitiba) atrás da misteriosa leitora/anotadora de livros Ana Maria ajuda a sustentar o ritmo da história e é bem conduzido. Em especial, gostei da troca de identidades na cena final, Ana Maria/Ana Paula, do bilhete a ser lido quando fosse concluída a leitura dos originais (?) etc.. Muito bem tramada essa parte. E o final também é bom, sugerindo uma história futura, centrada num Felipe quem sabe mais leve, livre do fardo que, simbolicamente, deixa no vaso de plantas do vizinho.
É isso. Parabéns pelo livro.”
 
Flavio Carneiro é escritor premiado e professor de literatura na UERJ.

Fernando Molica

“O recém-lançado romance “De cabeça baixa”, de Flávio Izhaki, traz uma ousada e bem-construída teia que fornece muita linha para a pipa dos que gostam de discutir relações entre autor, obra e personagem. Ou melhor, tudo isso aí no plural: autores, obras, personagens. A trama pode até parecer complicada, mas não é: Izhaki conduz a história com segurança, sem perder o fio da meada. O livro trata de outro livro (”Desencanto”) e de seu autor, Felipe Laranjeiras. A partir de um pequeno incidente – a descoberta, numa livraria de Curitiba, de um exemplar do seu livro recheado de comentários nas páginas -, Laranjeiras dá início a um jogo que não deixará de surpreendê-lo. O autor – Laranjeiras, não Izhaki – acaba virando personagem de uma outra história, a ponto de não saber mais qual o seu papel naquela trama. De autor – fracassado, mas onisciente -, passa a personagem, pólo passivo de uma outra história, que não deixa de ser a sua. Laranjeiras (coitado) se sai melhor como personagem – imprevisível, surpreendente – do que como autor. No fim de tudo resta uma incerteza e uma certa angústia que têm muito a ver com a boa literatura – e, claro, com a vida.”

Fernando Molica é escritor e jornalista. Acaba de lançar seu terceiro romance, O ponto da partida (Record).

Mariel Reis

“A leitura do romance de estréia deste autor carioca pode ser definida como sui generis dentro do campo em que se desenvolve: a ficção contemporânea. Não porque se desgarre por completo das questões abordadas por seus principais autores – João Paulo Cuenca, Cecília Giannetti e Daniel Galera – que trabalham a meta ficção como eixo alternativo a narrativa tradicional – isto é, a realista. Diversificando o modo de leitura deste real através de prismas subversores deste tipo de literatura tão identificada com os elementos narrativos canônicos: intriga, personagens e ação.

Flávio Izhaki paga também o tributo a esta senda aberta por ficcionistas de portes variados – Borges é um ilustre desta galeria – colorindo a seu modo isto que já se poderá chamar de técnica do novo romance neste novo milênio, confeccionada através do jogo intelectual – nisto se avizinhará dos romances policiais; a linguagem elaborada em um registro que comporte tanto a memória artística quanto a literária – cumprindo ambas o traço afetivo do ficcionista, que o embute em ciladas cada vez mais sofisticadas para escapar daquilo que se convencionou chamar de – o mal da narrativa em primeira pessoa.

Felipe Laranjeiras, escritor e professor de literatura, fracassa ao publicar o primeiro romance Desencanto, recebe uma pesada critica que o leva ao auto – exílio em Curitiba. Lá nesta cidade, em um dia chuvoso, percorrendo suas ruas, abriga-se em um sebo onde encontra um exemplar do livro fracassado dedicado formalmente à Ana Maria. Decide-se com isso a buscá-la investigando como já fora aludido a memória que aos poucos se reconstrói – tanto a nível ficcional quanto pessoal deste escritor. Entremeado ao livro de Cabeça Baixa aparecem trechos de Desecanto, duplicando o registro da escrita.

Em De Cabeça Baixa, além das costumeiras evocações a meta ficção, a presença do duplo é tão importante ser ressaltada como método encontrado por Flávio Izhaki para afastar as tentações desta narrativa em primeira pessoa – procedimento feliz quando se especula sobre as possíveis coincidências de parentescos entre ambos que podem ser muitas e também nenhuma. Outro fator que pode ser apontado como desvelo na construção deste duplo é que Felipe Laranjeiras não aparece para anular ou competir com Flávio Izhaki, o suposto autor do romance, ele corre a margem do discurso romaneesco encetado pelo escritor, supondo, ao leitor, ao final da estória, a inconclusão de ambos os romances – tanto o romance fracassado de Laranjeiras quanto o de estréia do autor carioca. Este parece ser o mérito maior na leitura do romance.

A idéia de um romance fantasma me seduziu não para questionar a validade do curto enredo desenvolvido ao longo das páginas, mas, como afirmação dessa matéria translúcida que permite passagem destes outras matérias através da trama do romance. Quanto à confecção do livro não há dúvida quanto ao domínio narrativo e a serenidade na condução dos eventos distribuídos ao longo do livro.

Flávio Izhaki merece especial atenção por ser um trabalhador dedicado tanto dentro quanto fora da literatura, sendo uma de suas marcas a discrição, o quase anonimato com que procura desenvolver suas tarefas, prestigiando a literatura com sua contribuição que a esta altura não pode ser apenas chamada de modesta, contudo, requer ser classificada como seminal.”

Mariel Reis é autor de Linha de recuo (Paradoxo Editorial) e John Fante trabalha no esquimó (inédito)

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2 Comentários so far
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Ola Flavio

você pessoalmente não me conhece, mas sou, provavelmente, o seu mais novo fã. Na sexta passada, comprei seu livro num sebo (12 reais preço original, mas consegui por 10, pois o cara não tinha troco para 20) e o li para fazer uma resenha para o blog cultural da minha faculdade – desculpe, esqueci de comentar que faço jornalismo, droga, sempre sou pessimo para contar historias. Cheguei a faculdade ao meio dia, terminei de ler seu livro as 3 da tarde com rapidas paradas para ir ao banheiro e beber agua no bebedouro perto da sala onde me instalei. Adorei. Simples assim. Acabei o livro com a cabeça cheia e me perguntando se esse desejo meu de me tornar escritor não passa de um sonho bobo e infantil de alguem que realmente não sabe o que quer da vida. tambem senti um gosto amargo e não parei de matutar… passei o fim de semana relendo trechos e passagens que me marcaram do livro. Não ha muito o que dizer, alem de que é um doce amargo que pode ser consumido em algumas (boas, porem intensas) horas de leitura. So queria mandar um oi e agardecer por engrandecer a literatura brasileira. E antes de ir, so mais uma coisa. Fiz a tal resenha algum tempo depois. Meu professor adorou e tirei dez nessa materia.

Comentário por Ricardo Machado do Nascimento

Ricardo, que bom jeito de começar uma semana. Adorei ler seu comentário. Aqui em casa passamos o domingo à noite comentando sobre a importância da arte – para um trabalho que minha mulher tem de entregar – e eu, péssimo em fechar conceitos acadêmicos, pouco ajudei. Mas ao ler que meu livro te fez pensar acho que aí já está um ponto importante.
Depois, se quiser, me mande a resenha por e-mail (você acha no link “sobre o autor”).
Abraço,

Flávio

Comentário por decabecabaixa




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