De cabeça baixa


No tribunal de meu pai
janeiro 13, 2009, 2:25 pm
Filed under: Imprensa, Indicação de livros, literatura, Resenhas

Saiu no último sábado, no Globo, uma resenha que escrevi sobre No tribunal de meu pai (Companhia das Letras), livro do genial Isaac Bashevis Singer. Quem sabe a resenha deixe mais pessoas com vontade de ler o livro.

 

“Numa rua mítica de um bairro pobre de Varsóvia, início de um tumultuado século XX que subverteu e aniquilou tradições, sempre que dois judeus tinham uma contenda a ser resolvida batiam na porta do apartamento da rua Krochmalna 10. Lá acontecia o Din Torá, julgamento rabínico, da região. Discussões sobre casamentos a serem feitos ou desfeitos, pequenas transações financeiras, aflições do bolso e da alma. Tudo era com o rabi Pinhos-Mendel. No canto do aposento, rosto escondido pelas roupas negras hassídicas e os cachos laterais ruivos, o filho do rabino, o menino Isaac Bashevis Singer.

Em “No tribunal de meu pai” (Companhia das Letras), o escritor polonês, Prêmio Nobel de 1978, relembra as histórias que ouviu naqueles anos em que era apenas um filho de um rabino hassídico num bairro pobre judeu. As 49 crônicas reunidas neste livro foram publicadas espaçadamente no jornal “The Jewish Daily Forward”, sob pseudônimo. O livro, que assim como toda a obra de Singer foi escrito em iídiche, língua que, por sinal, era a utilizada nas conversas escutadas na Krochmalna, foi traduzido para o inglês e publicado originalmente em 1966, já com a assinatura do autor. Esta é a primeira edição do livro no Brasil.

Para quem é fã de do escritor, este livro é um passo além. Escritas como crônicas autobiográficas, as historietas descortinam um Singer em estado bruto, que volta a infância e ao apartamento desprovido de móveis sempre que precisa recuperar a ingenuidade perdida com os anos posteriores. O trabalho de narração em “No tribunal de meu pai” é admirável; conciso, sem marcas de deslumbramentos, sem juízo de valor. O escritor consegue a proeza de voltar a enxergar com os olhos de criança, espantando-se com novidades, levantando questionamentos metafísicos próprios da idade, se surpreendendo com cada novidade fora do pequeno circulo da escola, seder, e de casa, um minúsculo apartamento onde o gabinete do pai era o único luxo. levantando questionamentos metafltar a enxergar com os olhos de criança, espantando-se com novidades Krochmalna 10.

Lançado posteriormente, o livro de memórias “Amor e exílio” apenas esboça questões que são tratadas com muito mais caudalosidade em “No tribunal de meu pai” e que moldaram a cabeça do autor. Histórias que ganham uma linha na autobiografia são contadas neste livro com riquezas de detalhes; a relação conflituosa da irmã mais velha com a mãe, os passeios proibidos pelos bairros não-judaicos de Varsóvia, a visita de parentes que ele até então só conheciam de narrativas quase míticas, a fome com a Primeira Guerra Mundial, a expectativa pelas notícias que vinham do Oriente com a derrubada do czar e a Revolução Russa.

Numa casa em que, segundo o próprio Singer, a “religião, o judaísmo, era virtualmente o ar que se respirava”, o autor cresceu espremido entre a religiosidade crédula e simbólica do pai, que passava o dia lendo e anotando seus comentários, alheio a realidade daquele início de século, e o racionalismo religioso da mãe, prática dona de casa esposa de rabino. Um caso peculiar, que ilustra com perfeição essa fissura entre o comportamento dos pais, é narrado na deliciosa história de uma senhora adentra o gabinete do rabino com dois gansos degolados, mas que mesmo assim grasnam sempre que friccionados.

“A mulher pegou um ganso e o atirou contra o outro. Imediatamente ouvimos um grasnido. Não é fácil descrever esse som. Era como o grasnido de um ganso, mas proferido em tom tão alto, tão lúgrube, tão plangente, tão sofrido, que minhas pernas ficaram enregeladas. Eu chegava a sentir os cabelos de meus cachos laterais me pinicando. Queria fugir dali. Mas para onde? O medo constringia minha garganta. Então eu também gritei e agarrei-me à saia de minha mãe, como um menininho de três anos.”

Espantada, a senhora quer saber se os gansos continuam kosher ou não – perder dois gansos naquela época seria uma tragédia. O rabino, assustado, assustadíssimo, cita o Criador, histórias de pessoas possuídas por espíritos ruins, e está prestes a recomendar que os gansos sejam enterrados, quando a esposa sai do mutismo com duas perguntas para a senhora ao mesmo tempo em que enfia o dedo na goela do ganso decepado e arranca a traquéia. Repete o procedimento no outro, e desafia a senhora a fazê-los grasnar novamente.

O Bashevis Singer que emerge daquela casa é um jovem que questiona tudo que está à volta, quer saber cada vez mais e mais, mas não perde os olhos da beleza das pequenas coisas, e de uma religiosidade quase sagrada, mas sem ser levada ao pé da letra.

A disposição cronológica das histórias possibilita ao leitor acompanhar o crescimento de Singer. Do menininho crédulo e obediente do início do livro até o pré-adolescente já interessado em artes, literatura e mulheres e com a certeza de que o mundo era muito maior do que aquele apartamento. Colabora muito para isso o irmão mais velho, Israel Joshua, também escritor, que já entrara em atrito com o pai e vivia fora do círculo fechado daquele apartamento.

“Familiarizei-me com os hábitos da intelligentsia. Não rezavam, não estudavam livros sacros nem diziam a bênção. Consumiam carne com leite e infringiam outras leis. (…) Embora falassem iídiche, aqueles jovens comportavam-se com a mesma liberdade que os gentios. Era uma mudança e tanta em relação ao ambiente que imperava no gabinete de meu pai, porém tenho a impressão de que esse é um padrão que se tornou inerente em mim.”

Singer se muda com a mãe para Bilgoray, pequena aldeia judaica, aos 13 anos. O livro acompanha o adolescente neste início de nova vida. O que acontece depois: o retorno para Varsóvia, a viagem para a América pouco antes da Segunda Guerra, é história. E essa Singer também já contou, mas em outros livros. A vida que restou presa naqueles anos do início do século foi engolida pelas guerras da primeira metade do século XX, mas a habilidade narrativa do autor faz com que elas renasçam, pelo menos nas 360 páginas deste livro.”

Anúncios


Indicação de livro V – The lost – a search for six of six million e ???
novembro 24, 2008, 1:02 pm
Filed under: Indicação de livros, literatura

No sábado eu estava num aniversário de família e o primo da minha mulher, de 18 anos, contou que um remanescente do Holocausto foi em sua escola contar como sobreviveu. A história parece com muitas daquelas que ouvi, li e vi, em filmes, nos últimos anos. É uma história parecida com a da minha família e com a de muitos outros.

Judeu-polonês, 13 anos, preso com os pais e mandado para o gueto, depois campo de concentração. Lá, vivendo com mínimas calorias, 300, pelo que chegou aos meus ouvidos, emagrecendo, vendo pessoas morrer ao seu redor por não andar em fila, por ter cabelo preto, por pedir casca de batata, ou por nada mesmo; seu trabalho era cavar as covas em que os próprios judeus eram enterrados depois.

Num determinado dia da semana todos sabiam que os nazistas faziam a contagem e matavam a esmo. Ele se escondia num buraco debaixo do alojamento. Uma moça que acabara de ter filho sabia que o dia estava chegando e estava desesperada: não era permitido ter filho no campo. Ele deixou que ela e o bebê se escondessem no buraco, e ficaram os três quietos, esperando a loucura passar; mas o bebê tinha fome, e chorou; o peito não adiantou; o bebê seguiu chorando e a mãe, desesperada com os passos nazistas na sua cabeça – seriam todos mortos se descobertos – tampou o choro do bebê com um pano; e esperou. Tempo. Os nazistas foram embora, eles saíram do buraco, mas o bebê estava morto, e a mãe começou a gritar desesperada e acabou assassinada ali mesmo.

A história continuava, e incrível como este primo parecia lembrar de cada coisa, cada detalhe que agora esqueço, seu primeiro contato com a miséria humana, com a barbárie, com o instinto de sobrevivência, sobreviver para contar, e o menino de 13 anos, mais novo que ele, que agora escuta, e conta, o menino de 13 anos nunca mais vê a mãe, eles mudam o campo de lugar, todos em trânsito, mulheres para um lado, homens do outro, o pai morre de disenteria em seus braços, e ele quer enterrar o pai mas os nazistas não deixam, apontam a arma para sua cabeça, por sorte não atiraram, e outros prisioneiros o puxam e o corpo do pai é apenas mais um numa pilha de corpos que depois os filhos, sobrinhos, primos e amigos terão de empurrar para uma vala qualquer.

E a história continua, e ainda nem chegamos perto do fim, como ele não morreu, o que ficou fazendo depois da Guerra, mendigo na França, como chegou ao Brasil. Mas prefiro não contar mais pois ele contou, existe um livro escrito por esse sobrevivente, mas isso o primo da minha esposa não lembra: o nome do livro, o nome do senhor que contou a história. Mas esse livro existe, a história realmente aconteceu, e com isso lembrei de outro livro que li recentemente, esse eu posso indicar: The lost – a search for six of six million, de Daniel Mendelsohn (está no prelo, vai sair aqui no Brasil pela Casa da Palavra).

Não é uma história como essa que contei. É justamente a busca pelo destino de uma família, os seis do título, que não sobreviveu. Um americano vai em busca dos tios e primos, hoje em dia, 60 anos depois, que foram mortos na Guerra. E para isso volta à Ucrânia, depois outros países, ouvir sobreviventes da mesma cidade, na Austrália, Dinamarca, Israel. E tentar reconstituir um pouco da vida daquela família, quem eram, como viviam, por que não fugiram, como e quando morerram. Um livraço. Como deve ser o daquele senhor que foi numa escola do Rio contar sua história para adolescentes.

E este parágrafo do livro que li diz muita coisa que não pode ser esquecida, na imensidão que foi o Holocausto:

“The Holocaust is so big, the scale of it is so gigantic, so enormous, that it becomes easy to think of it as something mechanical. Anonymous. But everything that happened, happened because someone made a decision. To pull a trigger, to flip a switch, to close a cattle car door, to hide, to betray.”



Indicação de livro IV – Dentes ao sol
novembro 9, 2008, 1:30 am
Filed under: Indicação de livros, literatura

Com 20 anos eu entrei numa oficina literária. De contos, pelo que me lembro, mas nem cheguei a escrever ou mostrar nada. Na primeira aula o professor saiu arrotando um autoritarismo e não voltei mais. Com aquela idade eu não deveria estar ali, ele praticamente falou. Com aquela idade eu não sabia nada de literatura e não estava à altura da aula dele, seu olhar dizia. Pediu para cada aluno se apresentar e todos se disseram escritores. Eu me espantei e retraí: disse que queria aprender. Perguntou para mim o que eu gostava de ler e falei Kafka, estava lendo muito Kafka naquela época, e continuei com um outro autor, brasileiro. Mas para o professor eu deveria ter ficado calado. No que eu disse o nome desse escritor brasileiro que eu estava lendo – livro na mochila, inclusive, que não mostrei – o professor fez um muxoxo e disse que aquele não era um escritor de verdade.

Por um tempo eu não entendi a raiva contida naquele muxoxo, o azedume do comentário, o esgar que, em peso dramático, foi quase um cuspe no chão ao ouvir o nome. Agora entendo: inveja; picuinhas; grupos literários. Aquele professor já passando dos 50 com uma raiva infantil de molecote mimado que não ganhou um parabéns da tia na redação.

Lembrei dessa história na semana passada, quando Inácio de Loyola Brandão venceu o Jabuti de melhor livro de ficção do ano. Era ele o escritor maldito. E o livro na mochila era justamente Dentes ao sol, que hoje, no Prosa & Verso, Loyola diz que é seu livro predileto, pelo qual gostaria de ser lembrado.

Quem passou nesse blog nos últimos meses sabe que considero o livro do Tezza o melhor de 2007, mas ao ler que Loyola tinha vencido o Jabuti lembrei daquele professor, daquela oficina, e sorri.



Indicação de livro III – O pássaro pintado
novembro 2, 2008, 7:31 pm
Filed under: Indicação de livros, literatura

Poucos livros me impressionaram tanto quanto O pássaro pintado, de Jerzy Kosinski. O romance conta a história de um menino de menos de 10 anos, judeu, que, quando a Segunda Guerra começa, é deixado com uma senhora numa aldeia do interior da Polônia para que os pais possam fugir. Mas logo a senhora morre e o menino se vê vagando de aldeia em aldeia, presenciando e sofrendo as maiores crueldades. De pele morena, parecendo um ciganinho, o menino é sempre tratado com rejeição.

Abaixo, uma passagem estarrecedora do livro, que justifica o título numa metáfora belíssima:

“Às vezes passavam-se dias sem que Ludmila a Idiota aparecesse na floresta. Uma raiva silenciosa apossava-se de Lekh, que, murmurando de si para si, fixava longamente os pássaros nas gaiolas. Afinal, após demorados estudos, escolhia o passáro mais forte, amarrava-o ao pulso, e, misturando os mais variados ingredientes, preparava tintas fétidas de diferentes cores. Quando estas os satisfaziam, virava o pássaro e pintava-lhe as asas, a cabeça e o peito um tons brilhantes, até torná-lo mais colorido do que um buquê de flores silvestres.

Íamos então para a parte mais densa da floresta, Lekh me entregava o pássaro pintado, mandando que eu o apertasse de leve nas mãos. Cedo seus gritos atraíam companheiros da mesma espécie, que se punham a revoar sobre nossas cabeças. Vendo-os, o prisioneiro debatia-se gritando ainda mais, e o coraçãozinho, trancado no peito recém-pintado, batia violentamente.

Quando o número de pássaros era suficiente, Lekh fazia-me um sinal para soltar o prisioneiro. Livre e feliz, lançava-se para o alto, pequeno arco-íris contra o seu cinzento, mergulhando na revoada escura de seus irmãos. Por um instante a surpresa tolia os pássaros. A mancha colorida voava em meio ao bando, tentando convencê-los de que lhe pertencia. Mas, confundidos pela plumagem brilhante, os outros os rodeavam incrédulos e quanto mais o pássaro pintado tentava incorporar-se ao bando, mais o rejeitavam. Logo, um depois do outro, começavam a atacá-lo, arrancando-lhes as penas multicolores, até fazer-lhe perder as forças, precipitando-o ao chão.

Estes incidentes aconteciam com freqüênciam, e, geralmente, quando recolhíamos o passáro pintado já o encontrávamos morto. Lekh examinava atentamente as feridas. Por entre as asas coloridas o sangue gotejava diluindo a pintura e manchando-lhe as mãos.”

A edição que eu tenho é da Nova Fronteira, com tradução de Marina Colasanti e Christiano Oiticica. Pelo que pesquisei não existe nenhuma edição mais recente. Mas na Estante Virtual o livro está à venda por preços que variam de 2 a 36 reais.



Indicação de livro II – Cartas a um amigo alemão e A imortalidade
outubro 20, 2008, 1:50 pm
Filed under: Indicação de livros, literatura, Mercado editorial

Prometi (prometi?) que de 15 em 15 dias indicaria a leitura de um livro. Quase três semanas depois, cumpro e pago os juros. Indicarei dois livros; por coincidência, estou lendo os dois livros, alternadamente.

O primeiro eu nem sabia da existência. Minha mãe comprou num sebo de Copacabana (Baratos da Ribeiro) e me deu: Cartas a um amigo alemão, de Albert Camus. A edição é portuguesa, sem data. Originalmente o livro foi publicado na França no pós-Guerra. São cartas do autor para um amigo alemão durante o ano de 1943, quando a Guerra já tinha começado a virar. Além das missivas, artigos do Prêmio Nobel.

Atenção editoras brasileiras: não creio que o livro tenha sido lançado aqui no Brasil. Vale checar. Tanto a Record, que tem a parcela mais significativa da obra do franco-argelino, como outras editoras.

Não é um livro literário. Está lá o viés filosófico que culminará com O homem revoltado, lançado em 1951. Eis o início da primeira carta:

“Dizia-me você: ‘A grandeza do meu país [Alemanha] não tem preço. Tudo o que a sirva é bom. E num mundo em que nada mais tem sentido, aqueles que como nós, jovens alemães, tiveram a sorte de encontrar um sentido no destino de sua nação, devem sacrificar-lhe tudo.’ Ainda o estimava nessa altura, mas já era aí que eu começava a separar-me de si. ‘Não’, dizia-lhe eu, ‘não posso acreditar que seja necessário subjugar tudos aos fins que se têm em vista. Há meios que são indesculpáveis. E eu gostaria de poder amar o meu país, amando ao mesmo tempo a justiça. Para ele não desejo uma grandeza qualquer, tal como a do sangue ou a da mentira. É fazendo reinar a justiça que eu quero fazê-lo viver.’ Você respondeu-me: ‘Ora, confesse, você não ama o seu país.'”

“Há meios que são indesculpáveis.” Quem já leu O homem revoltado sabe que essa frase resume boa parte do pensamento camusiano sobre o assunto.

*

O outro livro que indico é A imortalidade, de Milan Kundera, autor que dispensa apresentações ou comentários. Ao invés da polêmica barata dos últimos dias sobre delação ou não delação, que tal voltar aos livros do mestre tcheco. 

Um trecho:

“De repente, assustada com esse ódio, pensou: o mundo atingiu uma fronteira, quando ele a ultrapassar, tudo pode virar loucura: as pessoas andarão pelas ruas segurando um miosótis, ou então atirarão um nos outros na frente de todos. E bastará muito pouca coisa, uma gota d’água fará o copo transbordar: por exemplo, um carro, um homem, um decibel a mais na rua. Existe uma fronteira quantitativa a não ser ultrapassada; mas essa fronteira não é vigiada por ninguém, e talvez até mesmo ninguém saiba de sua existência.”



Indicação de livro I – O faz-tudo
outubro 2, 2008, 3:44 pm
Filed under: Indicação de livros, literatura

Algumas pessoas me perguntam indicações de livro, o que sempre acho complicado. Saber indicar um livro é uma arte. É preciso conhecer a pessoa, o que ela leu, o que tem tempo de ler. Trocando em miúdos: não tenho talento para tanto. Então o que farei com certa periodicidade daqui para frente, quinzenalmente?, é indicar um livraço. Não espero que meus gostos encontrem eco em todos, mas nisso também está a beleza de se indicar um livro. O primeiro da série é O faz-tudo, de Bernardo Malamud. Com este livro, o autor venceu o Pulitzer e o National Book de 1967. O texto foi publicado originalmente no meu blog anterior, Bohemias. Atenção: tenho o livro aqui em casa; quem for do Rio e quiser emprestado, mande um e-mail, por favor.

O faz-tudo

As teorias sobre o que separa um grande, ótimo livro de um clássico são vastas e baseadas em argumentos além do achismo em que geralmente me apóio. O vermelho e o negro, de Stendhal, definitivamente, é um clássico da Literatura, com o chamado L maiúsculo, embora sua estrutura seja folhetinesca. Mas é no personagem, Julien Sorel, que está o além do romance, a formação e a queda de uma pessoa em um calhamaço de páginas.

Outros livros são grandes, ótimos, e cito mais uma vez A história do amor, de Nicole Krauss, que li este ano [em 2006], após a Flip, na qual a jovem autora americana compareceu. Mas talvez por fragmentar demais o foco não consiga transcender, embora comova, ensine, entretenha, e tudo mais que um bom livro deve alcançar.

Pegue um faz-tudo judeu na Russia czarista de 1911, tire da rede de proteção furada de um shtetl – prestes a ser mais uma vez transposta por uma dezena de pogroms – e jogue numa Kiev anti-semita em ebulição. Esse faz-tudo, sem nenhum dinheiro no bolso, salva a vida de um senhor rico logo em uma de suas primeiras noites na cidade. Como agradecimento, recebe um emprego de um supervisor na olaria deste velho – que anda com um broche dos Centúrias Negras, organização anti-semita da época.

Iákov Bok tem medo, fome e não informa que é judeu, pelo contrário, inventa um sobrenome russo, um passado de camponês, e acaba aceitando o emprego, mesmo que esse seja em um bairro que em judeus não tem permissão para morar ou trabalhar.

Tudo vai relativamente bem até que um menino russo cristão é encontrado morto numa caverna, exangue, com o corpo todo furado. A inexorável acusação cai sobre Bok. Logo descobrem que ele é judeu e o sentenciam ao confinamento sem chance de absolvição. A acusação é estapafúrdia: ele teria matado o menino para drenar seu sangue num suposto ritual judaico para fabricação de matzos para o Pessach. As provas não existem, são invenções e crendices, as testemunhas forjadas entre pessoas assustadas de um país pobre a beira do caos, politicamente instável um punhado de anos antes da Revolução.

Imaginem o esfacelamento físico e moral de K. no Processo kafkiano e adicione, multiplique. Bernard Malamud foi adiante: tortura física – agressões, envenenamento, revistas humilhantes seis vezes ao dia, cela gelada, úmida, na Ucrânia congelada – mental – o acusam de magia negra, desrespeito aos rituais cristãos, o trancam numa solitária sem contato com o exterior por anos, dizem que ele vai apodrecer ali sem sequer ser julgado.

Malamud explora a semi-ignorância do faz-tudo para esmiuçar as religiões. Este não é um livro sobre o judaísmo. Bok sempre se mostra descrente com a religião, qualquer delas, declara-se um livre-pensador, jamais se adaptou a própria aldeia natal. Em sua solidão ele repetidamente mostra os vácuos do judaísmo e as interpretações nefandas do cristianismo a partir de leituras equivocadas do Novo testamento. O autor nos dá uma aula de história, de moral (e da falta dela), e por meio daquele restolho de gente que vira Bok consegue roçar os grandes temas como Mann fez em A montanha mágica, mas Malamud também vai além, a destruição e o engrandecimento – a contragosto! – de Iákov Bok é ainda maior que o de Hans Castorp.

Bernard Malamud não escreveu para não esquecer, como Primo Levi. É judeu americano filho de pais russos que emigraram para os EUA no início do século XX. A história é baseada em fatos reais – Iákov Bok existiu como Mendel Beilis. Malamud escreve para lembrar, lembrarmos, com um faz-tudo sem educação é capaz de mostrar a ignorância de uma época, ainda a nossa época, seja Bok, Beilis, um judeu, cristão, negro, homossexual ou qualquer minoria perseguida.

__________
O faz-tudo, de Bernard Malamud, foi reeditado em 2006 pela Record dentro do projeto Grandes Traduções (a deste livro por Maria Alice Máximo), com posfácio de Moacyr Scliar.