”Houve vezes que poderia ter feito um pouco mais, sido um pouco mais para Luana. Levá-la até a porta do elevador e congelar o sorriso na janelinha até a caixa descer. Não conseguia. Ela sempre via a sensação de perfeição desabar com força maior do que a gravidade. O último olhar nunca levava um sorriso de recordação, e nem o primeiro, quando ela abria os olhos se espreguiçando com o corpo inteiro e o sentia ao lado na cama.
O primeiro sorriso do dia não tinha espelho.
Felipe não conseguia devolver a felicidade sem explicação dos primeiros segundos da manhã.
Houve vezes em que Luana chorou sem motivo, e ele não soube dar um abraço calado, um carinho também sem sentido ou perguntas. Mesmo quando ela disse que ia embora e chorou, ele não disse nada, e isso sintetizou tudo.
As conversas dos dois tinham vozes dissonantes. Começavam em trivialidades, terminavam em discussão sem sentido. No final era tudo sempre o desfecho próximo, a sensação trava-língua do que não dava mais certo, a desesperança de olhar para trás e ver um início promissor, as recordações felizes pululando em retratos e presentinhos, mas que dera errado em algum, vários pontos.”
De cabeça baixa, pp. 87 e 88
Trechos publicados originalmente em resenha do jornal Valor Econômico (28.3.2008):
“Mas o que ‘Desencanto’, seu livro, sua teoria, estava fazendo no sebo, e quem o sublinhara? Folheou as páginas iniciais e percebeu que estavam todas anotadas pela mesma letra. Tinha outro livro rabiscado, analisado, nas margens deste. Que jamais vendera sequer a edição de seiscentos exemplares que ele pagara. Que fora desenganado pelos escritores, seus amigos na época, e o condenara à segunda divisão de uma já esquecida geração literária carioca do final dos anos 1990. (…) ‘Desencanto’ fora a premonição do fracasso que se seguiu, não literalmente, mas na sua incapacidade de agir ou reagir. Restara apenas a fuga, impositiva, punitiva, e, desde então, jamais parara de correr, mesmo assentado em Curitiba.”
“Novamente Curitiba na cabeça. Sentiu-se um fantasma na própria cidade; ainda seria a sua cidade?, pensou, ele agora um estranho, parado, sozinho, estático como uma pessoa terrivelmente amedontrada, uma formiga que sabe que será esmagada. Era preciso voltar ao hotel, ler a carta de Ana Maria, decidir sobre seu futuro imediato: ficar ou exilar-se em Curitiba. Mas será que agora não seria o contrário, o exílio na própria cidade natal? Ou em ambas.”
2 Comentários até o momento
Deixe um comentário
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>
Que trecho hein? Fico pensando como será o texto na íntegra… Tenho sentimentos, lembranças que sempre acho serem só meus, mas ao ler o trecho do seu livro lembrei que sentir move o mundo e todo mundo… Parabéns.
Comentário por Denise Abril 9, 2008 @ 4:00 pmAdorei seu comentário, Denise.
Comentário por decabecabaixa Abril 9, 2008 @ 5:32 pmObrigado.
Espero que consiga achar o livro. Dá uma olhada na listagem de livrarias na página “Onde comprar”.