De cabeça baixa


Liviu, Levi
Novembro 25, 2008, 2:48 pm
Arquivado em: Conto, Ficção, literatura

Aproveitando o assunto, mais um texto antigo retirado do Bohemias. Para quem não se lembra, fatos reais.

Liviu, Levi

Liviu Librescu ouviu os gritos, depois os tiros. Muitos. Em seguida o silêncio, as risadas. As mesmas risadas. E o silêncio, passos vindo em direção a sua sala de aula.

Professor de engenharia da faculdade de Virginia Tech, com especialização em aeronáutica, Liviu L. tinha apenas alguns segundos. Poderiam ser centésimos; ele sabia o que deveria ser feito.

Sobrevivente do Holocausto, um dos poucos que viveram para contar o extermínio de judeus e outras minorias pelos nazi-fascistas na Segunda Guerra Mundial, Liviu L. trancou a sala onde dava aula para sua turma de aterrorizados jovens de 20 anos.

Ele, de 75, soube já aos 10 que uma pessoa pode matar a outra sem motivo. Descobriu na marra como sobreviver numa situação dessas. Minto. E aí estaria colocando em heroísmo algo que não sei se cabe em molde tão límpido.

Os gritos, os tiros, o silêncio, as risadas, os passos vem cobrar dele, somente dele, uma dívida. É a morte, 60 anos depois.

Liviu L. não precisa de muito tempo. Tranca a porta e cola seu corpo nela, fazendo toda força nas pernas e no tronco para agüentar as pancadas que virão.

“Corram, fujam pela janela.” A ordem aqui confusa deve ter sido clara para aqueles alunos aterrorizados. Fujam! E todos levantaram, em pânico, abriram as janelas e começaram a evacuar a sala. Mais gritos, mais passos. Talvez neste momento a primeira pancada, chute na porta.

Fujam, ele deve ter gritado outra vez, fazendo força contra a porta. Nova pancada, essa mais pesada. A porta quase cede. É a morte que vem me cobrar uma dívida, ele deve ter pensado nesse segundo em que Cho Seung-Hui deu dois passos para trás e disparou o primeiro tiro, que atravessou a porta e o acertou na barriga.

Os últimos alunos saltam pela janela, os olhos de Liviu L. se nublam, as forças na perna sumindo. O corpo cansado, baleado, se curva. O cheiro de pólvora que ele reconhece. O cheiro de sangue que ele reconhece. O cheiro de carne queimada.

Com um chute de C.S-H a porta voa, atinge o corpo de Liviu L., que cai no chão. O silêncio. A morte entra na sala e leva apenas ele, com dois tiros no coração.

*

É preciso, então, lembrar de outro sobrevivente do Holocausto, de Auschwitz: Primo Levi. O químico italiano passou anos em campos de concentração durante a Segunda Guerra, e depois em campos de refugiados numa Europa confusa, pobre e destruída.

Primo viu a morte levar quase todos em sua volta naqueles três ou quatro anos que viveu de pesadelo, sangue, lama, fome, frio, humilhação e doença. Sobreviveu para contar. De químico, ocupação que o ajudou a não morrer diversas vezes no campo, à escritor. Uma profissão útil, que o salvou, de repente sem sentido. E o que restou foi escrever. Livro sensacionais e definitivos como A trégua e É isso um homem?.

Mas uma hora as distantes paredes entre religião, acreditar que tudo, mesmo um massacre, tem sentido, e a total negação da vida se aproximam e esmagam uma pessoa. Para Levi deve ter sido assim, e com 68 anos, em 1987, 40 depois de sobreviver ao Holocausto, escrever livros contando tudo que viu e viveu, o italiano se suicidou, ainda se perguntado por que ele, e não outro, sobreviveu.

Liviu L. não tinha talento para escrever, contar. Passou os últimos 60 anos estudando e dando aulas de engenharia na Romênia, Israel e, nos últimos vinte anos, nos EUA. Para ele estar ali, naquele momento exato que precedeu os gritos, os tiros, as risadas, as mesmas risadas, os passos, os gritos e o cheiro de pólvora e sangue, alguém segurou uma porta para ele sobreviver, alguém escreveu livros e matérias para ele sobreviver, alguns até mataram e se mataram para ele sobreviver. E naquele segundo antes da morte vir cobrar a sua dívida, ele entendeu tudo isso.

*

Este texto nasceu de uma conversa com a minha mãe sobre o atentado; à ela, que já segurou muitas portas para mim, eu agradeço.


1 Comentário até o momento
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talvez ele tenha encontrado na morte um sentido.

Comentário por ManaLu




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