De cabeça baixa


Prosa & Verso
Maio 4, 2008, 3:42 pm
Arquivado em: De cabeça baixa, Imprensa

Saiu no Prosa & Verso deste sábado, 3.5.2008, a resenha sobre De cabeça baixa, escrita pelo jornalista Elias Fajardo. Ainda seguindo aquela linha de pensamento de post anteriores, é interessante que cada resenhista (ou leitor) escolha analisar o livro por um prisma. No caso de Fajardo, o espírito do personagem foi o foco. Acho que a resenha está bem interessante e bem escrita. Segue a matéria:

Beleza da fossa

 

Em prosa enxuta, Flávio Izhaki faz da tristeza a matéria de seu primeiro romance

 

Elias Fajardo

 

O personagem principal é um sujeito tão vidrado na tristeza, tão chafurdado na fossa, que chega a irritar quem se aproxima do livro. Mas De cabeça baixa, primeiro romance de Flávio Izhaki, mostra tal amadurecimento de linguagem que é facilmente entendível que o autor esteja sendo considerado uma promessa entre os jovens autores brasileiros.

O autor, que tem 28 anos, organizou e participou como contistas e várias antologias e tem trabalhos publicados em revistas eletrônicas e impressas, mostra um estilo enxuto e elegante, aqui a serviço do que poderia ser considerado um romance de formação às avessas. O romance de formação é um gênero literário que se estrutura em torno da trajetória de um protagonista (muitas vezes na passagem da adolescência para a idade adulta) através da qual se esboça uma visão da época em que se passa a ação e que também pretende, de alguma maneira, levar o leitor ao seu próprio aprendizado.

Como protagonista, um escritor destruído pela crítica

Ao colocar em cena um fracassado escritor carioca, autor de um livro que recebeu uma resenha muito negativa e que se refugiou por cinco anos em Curitiba, Izhaki está a nos falar não apenas de um ser humano, mas principalmente de literatura. Seu anti-herói vivencia, entre outras coisas, um receio que acompanha muitos escritores: o de ser rejeitado pela crítica. O protagonista do romance não é nada edificante. Pelo contrário, é alguém que faz questão de desperdiçar todas as oportunidades que lhe são oferecidas, mas é intenso e verossímil. Seus vacilos são os de um homem comum que não sabe reter a mulher que ama, não consegue descobrir o que quer da vida e se angustia com o tempo que escoa como areia fina entre seus dedos, mudando a face do mundo e da cidade em que ele nasceu e se criou.

O relacionamento a dois está no centro do romance, mas é sempre marcado pela impossibilidade de se chegar verdadeiramente ao outro, de romper as barreiras do eu em direção a uma fusão e a uma realização amorosas.

Chama a atenção também o contraponto muitas vezes bem realizado entre o mundo interno dos personagens e a paisagem. As janelas fechadas, o apartamento de paredes brancas e os lençóis amarfanhados se contrapõem às recordações e a angústia que acompanham o personagem.

Já que se trata de uma obra que gira em torno da literatura (e a casa da literatura tem muitas moradas), o autor menciona ao longo do livro as suas preferências e admirações, que vão de Fernando Sabino a Stendhal, de Sartre a Borges e Cortázar.

A maneira de narra é um exercício meticuloso de metalinguagem. O protagonista reencontra seu livro de estréia num sebo, todo rabiscado, com anotações críticas feitas por uma misteriosa mulher a qual ele tenta, a todo custo, encontrar. Temos, então, um romance dentro do romance, um personagem que vira personagem de alguém que também se revela um outro personagem e assim sucessivamente, com as camadas de uma cebola que se sucedem sem chegar nunca ao miolo. Misturar e fundir Felipe, Marcelo, Luana, Mariana, Clara, Sílvia surge então como um recurso para falar de uma geração para quem as aparências adquirem mais importâncias que as essências, para quem todos os gatos são pardos, até que se revelem o contrário.

Uma geração que não conheceu a miséria nem a dificuldade material, mas que nem por isso teve mais acesso à felicidade. Quem sabe se, numa próxima obra, Flávio Izhaki abandone o universo da fossa e venha nos brindar com reflexões sobre a alegria?

 

 

Trecho

 

“Ao toque do dedo ou da palavra, descrição, o metal foge, se separa, se junta, e, por fim, algumas migalhas somem nos vãos das tábuas corridas. E nunca mais a personagem pode ser vista, lida, entendida por inteiro, perdida no mistério do que não se vê ou entende, incompleta. Quando Paloma perguntou se era só isso, bastava que ele dissesse que todos somos, quando examinados de perto, despidos desse mistério, sem essa migalha de mercúrio que se perdeu, aquilo que não se explica ou se descreve. Mas ele não falou nada.”


3 Comentários até o momento
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“Quem sabe se, numa próxima obra, Flávio Izhaki abandone o universo da fossa e venha nos brindar com reflexões sobre a alegria?”

Se Elias Fajardo quer ler “reflexões sobre a alegria” que va ler um livro de auto-ajuda.
Porque as pessoas tem tanto medo da tristeza?

Comentário por Christian

Christian, obrigado pela visita.

Eu não sei te responder isso (e nem sei se a frase do Elias Fajardo implicava uma necessidade de ler sobre personagens alegres), mas o livro que estou escrevendo vai pelo mesmo caminho.

Eu tento tirar da tristeza (e a palavra nem cabe em sua exatidão) o material bruto da ficção que quero escrever.

Ab

Comentário por decabecabaixa

Muito bem, Christian!

Comentário por Marcelo




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