O melhor copi da editora é um senhor que trabalha aqui há décadas, extremamente caprichoso e perspicaz. Ele conta que certa vez o Rubem Braga pediu para ele fazer a revisão de um novo livro na própria casa do autor, discutir as emendas etc. Tímido que é, chegou todo acabrunhado no famoso apartamento de Copacabana em que o cronista morou por tanto tempo. Abriram a porta para ele e o conduziram até a sala. Rubem Braga, como só um postal poderia idealizar, estava na janela, binóculo nos olhos, observando à calçada, buscando no detalhe mais uma crônica.
Feito este preâmbulo, a informação: fui convidado para participar da II Bienal Rubem Braga, que acontecerá em Cachoeiro de Itapemirim, cidade natal do grande cronista, na semana que vem, entre 5-8 de junho. Estarei numa mesa, ao lado de Julián Fuks (autor do ótimo Histórias de literatura e cegueira), que versará sobre a literatura brasileira contemporânea. A mediação, ou provocação, como o programa oficial da Bienal qualifica, será do jornalista Rogério Pereira, editor do Rascunho.
Parto para o Espirito Santo no dia 6 e a palestra será no dia 7 pela manhã. Torçam por mim. Para eventuais visitantes capixabas deste blog, vale a pena avisar que também participarão do evento Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, Ana Maria Machado, entre outros. Gente muito mais qualificada que eu, portanto. O programa completo está aqui.
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A editora Guarda-chuva repaginou seu site, agora muito mais completo e com melhor navegabilidade. Estão lá o release do meu livro, download de imagem da capa e do autor, para facilitar para a imprensa, uma entrevista de divulgação do romance e também o trailer.
Falando em trailer, o que fizemos para o lançamento do livro já está no site da Bibliofilmes. E o que é a Bibliofilmes? “Um conjunto de iniciativas para a Comunidade da Língua Portuguesa usando um novo conceito de promoção do livro, da biblioteca e da leitura através das novas tecnologias e do cinema.”
No início deste ano eles fizeram um concurso para eleger o melhor vídeo que demonstrasse a paixão de um aluno com sua biblioteca escolar. Dessa vez o concurso elegerá o melhor trailer de livro (as inscrições vão até o fim do ano), uma iniciativa pioneira para premiar outras iniciativas que são, por enquanto, ainda pioneiras, mas daqui a pouco tempo será quase práxis.
A produtora do MaPa me mandou uma foto do evento. Engraçado que é justamente o momento que cito no texto abaixo. Em primeiro plano, Marcello Magdaleno tecla a Olivetti.
Cheguei cedo ontem na Cinematheke, a pedido da produtora do MaPa. O objetivo: gravar uma pequena entrevista que eles usarão, junto com o show, para conseguir patrocinadores para o projeto.
A segunda pergunta que me fizeram, apesar de despretensiosa, me fez pensar sobre um assunto que está rondando minha cabeça desde antes do lançamento: a anticlimaticidade da literatura.
Nas demais artes, especialmente teatro e música, a carga climática envolvida na hora da apresentação da obra é estupenda. O ator/músico se prepara, ensaia e num determinado dia, numa determinada hora, irá expor seu trabalho para o público. No teatro, então, a arte, o clímax, está apenas ali, naquele palco, com hora marcada. Na música temos também a opção do CD, e no cinema, apesar de guardar semelhanças com o teatro na parte de representação, o autor/ator/diretor etc. não está ali, existe uma mediação de projetor, sala com luzes apagadas e tela em branco.
Na literatura não existe clímax. Enquanto a obra é feita, quando o autor está escrevendo, burilando e revisando, ninguém vê, sequer sabe da existência e execução da obra. Depois de lançado, também não há clímax. O escritor não fica sobre os ombros do leitor acompanhando cada nuance de expressão, esgar de desaprovação, esperando os aplausos ou apupos ao final de cada capítulo. Em quase a totalidade dos casos o autor nem sabe se sua obra encontrou (produziu?) eco ou não.
E, por favor, não me falem de lançamento; lançamento é festa, louvação, o livro ainda não foi lido, todas as obras se igualam, não entram na equação, são apenas abraços e tapinhas nas costas.
A pergunta, voltando, era sobre o que eu achava do projeto, da união entre música, palavra escrita e palco. A resposta foi mais ou menos essa que aprofundei nesses últimos parágrafos.
O show começou com Chacal lendo poesias em dueto com o sax de Marcello Magdaleno. Em seguida o poeta saiu de cena e entrou o restante da banda (Marcelo Chaves, guitarra, Pompeo Pelosi, bateria, Roberto Medeiros, baixo, Chiquinho Vaz, piano).
O segundo convidado a subir ao placo foi o escritor Paulo Thiago de Mello. Antes do show ele disse estar muito nervoso. No palco não pareceu. Foi muito bem.
Depois de mais uma seqüência de músicas, minha vez. Primeira vez num palco, nunca fui garoto de bandas ou teatro. A luz, de fato, cega, o que é bom. Você se sabe visto, mas quase não vê. Li o início do primeiro trecho combinado à capela, para usar um termo musical. Tudo muito rápido, sem tempo para nervosismo. Num respiro entre parágrafos a banda entrou tocando, competência de quem sabe o que faz, o texto cresceu automaticamente.
Entre os trechos, como combinado, eu dava uma pausa mais longa, deixava a banda curtir a música, improvisar. Interessante que o que guardarei dessa noite é muito menos a leitura e mais uma cena que aconteceu enquanto esperava no palco para ler o último dos trechos. Ao lado, num banquinho parecido com o meu, uma velha Olivetti repousava suas teclas e página em branco. Marcello Magdaleno aproximou-se, a banda tocando blues, e começou a teclar. O barulho da máquina de escrever é a trilha do som da imaginação trabalhando, da produtividade. Mas, não sei se de propósito ou não, Marcello só teclava em uma letra, no máximo em duas; aquela cena uma metáfora muito bonita do desespero do meu personagem, o escritor que não consegue mais romper sua imobilidade.
Para encerrar a noite, depois de nova seqüência de música, entrou Otto. Pediu licença para ler, pela primeira vez publicamente, uma poesia que fez. Tremia. As mãos mal agüentando segurar o papel, a voz receosa, emperrando. Cantor e compositor, vinte anos de palco, acostumado a cantar suas próprias músicas, mas tremia.
Valeu. À noite, o convite da banda do projeto MaPa, a experiência de ler minha literatura num palco. Mas continuo achando que literatura é a arte mais anticlimática que existe.
Ontem à noite fui ensaiar a leitura dos trechos do livro que farei na quarta-feira no Projeto MaPa. Serão três pequenos trechos, cada um acompanhando por uma trilha sonora. Foi interessante a experiência de “ensaiar”: na verdade, menos um ensaio e mais uma leitura dos trechos para os integrantes da banda ouvirem o texto e pensarem nos temas para o acompanhamento.
Mas sou apenas um dos convidados. A noite terá também o poeta Chacal, na abertura, o escritor e antropólogo Paulo Thiago e, para fechar, o cantor Otto.
O evento será na Cinematheke (Rua Voluntários da Pátria 53), às 22h30. Rola um couvert para entrar. Vale mandar um e-mail para mapaprojeto@gmail.com para ter um descontinho na lista amiga.
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Atualizei o link Imprensa. Saíram algumas matérias nos últimos dias que ainda não tinha adicionado.
Na quarta-feira que vem participarei, como convidado, do Projeto MaPa, na Cinematheke, em Botafogo (Rua Voluntários da Pátria 53). Para quem não conhece, o MaPa é um encontro entre músicos, prosadores e poetas. Idealizado e produzido pelo saxofonista Marcello Magdaleno, o projeto nasceu no ano passado e já juntou no palco do Cinemathéque, em Botafogo, nomes como os dos poetas Chacal e Cabelo, do escritor Marcelo Moutinho e do trompetista Guilherme Dias Gomes.
O projeto conta com uma banda que mistura, por exemplo, a melodia de Cantaloupe Island, do pianista Herbie Hancock, com a letra de Samba da Bênção, de Vinicius de Moraes. Participando das canções, um pequeno time de poetas, prosadores e músicos sobe ao palco para desfiar palavras e notas ao longo da noite, um de cada vez. Os textos são declamados e a banda acompanha com arranjos que mudam de acordo com o contexto. O clima é de improviso, mas as entradas e saídas são planejadas. Nomes conhecidos se alternam com o de novos músicos e poetas.
Os outros convidados da noite são o poeta Chacal, o músico Otto e o escritor Paulo Thiago. Portanto, veteranos de palco, ao contrário do tímido que escreve essas linhas. Vale a pena passar por lá só para ver o quão vermelho uma pessoa pode ficar.
Quem quer saber mais sobre o MaPa, as edições anteriores e os músicos que compõem a banda, vale entrar no site do projeto.
Ano passado, após um dos embates da Copa de Literatura Brasileira, rolou um debate acalorado na caixa de comentários sobre a presença de spoilers em uma das resenhas-jogos. Para os menos entendidos em internet vale duas explicações básicas. A Copa de Literatura Brasileira é um prêmio em que 16 romances previamente escolhidos são distribuídos em uma chave, como de um mata-mata futebolístico, e vão se enfrentando até só restar um livro de pé, que é declarado o campeão (na primeira edição foi Música perdida, de Luis Antonio Assis Brasil).
Spoiler são comentários que entregam o conteúdo de uma obra que não é de conhecimento público. Acontece muito no caso de séries americanas que passam primeiro na televisão de lá e só chegam aqui semanas, meses depois. No popular, os spoilers são os estraga-prazeres.
A práxis é avisar que vai se contar sobre o conteúdo que não é de conhecimento público, para que a pessoa que ainda não viu o programa não leia o restante da matéria. Mas como isso funciona em literatura, em resenha mais especificamente? Contar a história do livro é estragar o prazer da leitura? Qual a linha que não se pode cruzar: contar a função de um personagem que é chave, escrever sobre o desfecho, reclamar contextualizando com detalhes sobre o final que não bate com o que é narrado durante o restante do livro?
Retomando o início do post, um autor reclamou de uma resenha na Copa de Literatura Brasileira pois a análise entregava demais do livro. Foi uma das primeiras coisas que lembrei quando li uma crítica sobre o meu livro em que o final da trama é copiado para as páginas do jornal, com aspas de todo o último parágrafo.
Fiquei pensando: isso pode? Não seria um egoísmo do crítico supor que a leitura dele será a única, definitiva, que seja OK para o livro que seu fim seja colocado nas páginas da imprensa? Mas e, jogando agora do outro lado, por que não? Será que uma análise de um livro pode se dar ao luxo de não falar de certas partes do livro para não estragar a leitura de outros?
Eu não tenho uma resposta definitiva sobre o assunto, mas não posso dizer que não fiquei incomodado.
Saiu no Prosa & Verso deste sábado, 3.5.2008, a resenha sobre De cabeça baixa, escrita pelo jornalista Elias Fajardo. Ainda seguindo aquela linha de pensamento de post anteriores, é interessante que cada resenhista (ou leitor) escolha analisar o livro por um prisma. No caso de Fajardo, o espírito do personagem foi o foco. Acho que a resenha está bem interessante e bem escrita. Segue a matéria:
Beleza da fossa
Em prosa enxuta, Flávio Izhaki faz da tristeza a matéria de seu primeiro romance
Elias Fajardo
O personagem principal é um sujeito tão vidrado na tristeza, tão chafurdado na fossa, que chega a irritar quem se aproxima do livro. Mas De cabeça baixa, primeiro romance de Flávio Izhaki, mostra tal amadurecimento de linguagem que é facilmente entendível que o autor esteja sendo considerado uma promessa entre os jovens autores brasileiros.
O autor, que tem 28 anos, organizou e participou como contistas e várias antologias e tem trabalhos publicados em revistas eletrônicas e impressas, mostra um estilo enxuto e elegante, aqui a serviço do que poderia ser considerado um romance de formação às avessas. O romance de formação é um gênero literário que se estrutura em torno da trajetória de um protagonista (muitas vezes na passagem da adolescência para a idade adulta) através da qual se esboça uma visão da época em que se passa a ação e que também pretende, de alguma maneira, levar o leitor ao seu próprio aprendizado.
Como protagonista, um escritor destruído pela crítica
Ao colocar em cena um fracassado escritor carioca, autor de um livro que recebeu uma resenha muito negativa e que se refugiou por cinco anos em Curitiba, Izhaki está a nos falar não apenas de um ser humano, mas principalmente de literatura. Seu anti-herói vivencia, entre outras coisas, um receio que acompanha muitos escritores: o de ser rejeitado pela crítica. O protagonista do romance não é nada edificante. Pelo contrário, é alguém que faz questão de desperdiçar todas as oportunidades que lhe são oferecidas, mas é intenso e verossímil. Seus vacilos são os de um homem comum que não sabe reter a mulher que ama, não consegue descobrir o que quer da vida e se angustia com o tempo que escoa como areia fina entre seus dedos, mudando a face do mundo e da cidade em que ele nasceu e se criou.
O relacionamento a dois está no centro do romance, mas é sempre marcado pela impossibilidade de se chegar verdadeiramente ao outro, de romper as barreiras do eu em direção a uma fusão e a uma realização amorosas.
Chama a atenção também o contraponto muitas vezes bem realizado entre o mundo interno dos personagens e a paisagem. As janelas fechadas, o apartamento de paredes brancas e os lençóis amarfanhados se contrapõem às recordações e a angústia que acompanham o personagem.
Já que se trata de uma obra que gira em torno da literatura (e a casa da literatura tem muitas moradas), o autor menciona ao longo do livro as suas preferências e admirações, que vão de Fernando Sabino a Stendhal, de Sartre a Borges e Cortázar.
A maneira de narra é um exercício meticuloso de metalinguagem. O protagonista reencontra seu livro de estréia num sebo, todo rabiscado, com anotações críticas feitas por uma misteriosa mulher a qual ele tenta, a todo custo, encontrar. Temos, então, um romance dentro do romance, um personagem que vira personagem de alguém que também se revela um outro personagem e assim sucessivamente, com as camadas de uma cebola que se sucedem sem chegar nunca ao miolo. Misturar e fundir Felipe, Marcelo, Luana, Mariana, Clara, Sílvia surge então como um recurso para falar de uma geração para quem as aparências adquirem mais importâncias que as essências, para quem todos os gatos são pardos, até que se revelem o contrário.
Uma geração que não conheceu a miséria nem a dificuldade material, mas que nem por isso teve mais acesso à felicidade. Quem sabe se, numa próxima obra, Flávio Izhaki abandone o universo da fossa e venha nos brindar com reflexões sobre a alegria?
Trecho
“Ao toque do dedo ou da palavra, descrição, o metal foge, se separa, se junta, e, por fim, algumas migalhas somem nos vãos das tábuas corridas. E nunca mais a personagem pode ser vista, lida, entendida por inteiro, perdida no mistério do que não se vê ou entende, incompleta. Quando Paloma perguntou se era só isso, bastava que ele dissesse que todos somos, quando examinados de perto, despidos desse mistério, sem essa migalha de mercúrio que se perdeu, aquilo que não se explica ou se descreve. Mas ele não falou nada.”
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Foi bacana o bate papo e a leitura no Centro Loyola. O espaço é bem interessante e espero que aconteçam outros eventos literários por lá. Mas o que realmente curti foi perceber que cada vez que penso sobre o livro, falo sobre o livro, eu mesmo produzo perguntas, respostas e questionamentos diferentes daqueles que tive quando, e enquanto, estava escrevendo.
Falar sobre o seu trabalho faz você pensar de um jeito até certo ponto assustador sobre os sentidos que verbalizou com sua história. Já falei aqui do que chamei de fracasso do escritor. Aquilo que está no papel não é exatamente o que queria dizer quando primeiro tive a idéia do livro. Na verdade é um caminho alternativo, que quase passa longe do que primeiro pretendia.
Mas foi o caminho errado?, o certo?, ou, a opção que chamaria de a mais pedante e ,anacronicamente, religiosa, a opção possível? Não sei.
Cada vez que escuto uma pessoa falar do meu livro, o que entendeu, o que gostou, o que destaca, e, mais ainda agora, cada vez que uma pessoa ler meu livro em voz alta com uma entonação diferente da que eu imaginava não só ao escrever, mas ao reescrever, ao revisar, cada vez que uma entonação inimaginável romper o que eu pensava definitivo, sólido, eu ainda vou me surpreender, e possivelmente ficar satisfeito.
Mesmo que seja uma leitura equivocada, desajeitada, uma leitura arraigada em a priori, em achismo, em raiva, inveja. Mesmo assim terá valido a pena, valerá a pena. Mas valer a pena não tem nada a ver com fazer uma pessoa melhor ou pior, espiritualizada ou culta. Valer a pena é simplesmente a experiência de sentir que o caminho não acaba quando o ponto final é colocado, a última prova liberada, o calhamaço vira livro, escondido ou não nas livrarias, e as resenhas no jornal. Tem mais ainda, tem muito mais depois.
