O crítico literário Sérgio de Sá resenhou De cabeça baixa para o Correio Braziliense. Saiu no último sábado, 12.4, dentro do suplemento Pensar. Lembrando que em Brasília o livro pode ser encontrado na Livraria Cultura.
Mundo desencantado
De cabeça baixa (Guarda-chuva), estréia do carioca Flávio Izhaki (foto) no romance, tem um quê existencialista. Tudo seria normal não fosse o protagonista um jovem escritor em desespero, sempre à deriva, sem vontades. É cada vez mais comum encontrarmos personagens-escritores na prosa brasileira contemporânea. Há quem diga que os leitores da literatura nacional não passam de 3 mil abnegados, aí incluídos os professores e estudantes de Letras, que, diga-se, lêem pouco e menos ainda a produção atual.
Sendo assim, desprezados pelo grande público, os aventureiros da escrita ficcional partem em busca do reconhecimento no pequeno clube das palavras. Não sendo obrigados a dar satisfação ao tal do mercado (afinal, inexistente), têm se aproveitado para questionar o lugar do escritor na sociedade, o que ele representa e o significado disso tudo na própria vida.
Izhaki, 29 anos, repete a estratégia de modo metanarrativo. Um livro está dentro do livro. O romance Desencanto foi um fracasso: palavra importante para pensar o ponto de vista da narrativa, situação literariamente estimulante. Sem atenção da crítica e longe de qualquer repercussão, o “jovem promissor” Felipe Laranjeiras deixa o Rio para se instalar em Curitiba. As referências aos “simulacros” e ao bairro de Sérgio Sant´Anna são diretas. Abre-se a possibilidade de uma linhagem aí.
Especialmente em suas duas primeiras partes, De cabeça baixa tem um clima de ajuste de contas geracional muito parecido com o de Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera. A cidade dura e fria lá fora, eu e minhas circunstâncias aqui dentro – amores soltos, perdidos no tempo, o trabalho que não satisfaz intelectualmente (apenas permite a sobrevivência), a família, se família existe, numa perspectiva afetiva pouco calorosa.
A arte termina por se apresentar como uma saída cheia de armadilhas, e o final do livro soa como metáfora disso. O romance de Izhaki sobe de produção em sua parte final, justificando a leitura. Nas arapucas intraliterárias, que falam da impossibilidade de não discutir literatura ao fazer literatura, o leitor encontra o sabor amargo do abandono, da desistência, da tristeza em meio a um mundo que nos obriga à felicidade. De cabeça baixa é uma pena que anota, às margens das páginas comuns do cotidiano, a difícil experiência da escritura hoje.
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