Saiu hoje no “Caderno Pensar”, de O Estado de Minas, essa entrevista que dei para o Carlos Herculano Lopes:
Estréia consciente
Esperar o momento certo para publicar. Esse foi o maior desafio ao qual se propôs o jovem Flávio Izhaki, que acaba de lançar o seu primeiro romance, De cabeça baixa, pela Editora Guarda-chuva. Nele conta a história de um escritor que encontra seu livro em um sebo, alguns anosapós tê-lo publicá-lo, sem sucesso. Nascido no Rio de Janeiro, aos 28 anos, Flávio Izhaki, antes de se tornar romancista, participou de três antologias de contos, além de ter veiculado textos em várias revistas eletrônicas. ‘Embora tenha ouyro romance em andamento, meu projeto atual é divulgar De cabeça baixa, para queele possa ser lido pelo maior número possível de pessoas’, disse escritor em entrevista ao repórter Carlos Herculano Lopes.
Qual é o maior desafio em se publicar o primeiro romance aos 28 anos?
A questão da idade é secundária. Publicar foi só um dos passos numa caminhada longa, que começa muito antes, passa por muita leitura, mais leitura; e segue com escrever, errar, reescrever, e adiante, com o funil da dificuldade de ser lido. Mas publicar ainda é o passo em que a perna precisa estar mais esticada, o pé de apoio fincado, corpo equilibrado, aterrissagem segura. Pois publicar por publicar não é solução. Muita gente lança seu primeiro livro apressadamente e sai do nada para o lugar nenhum. O livro que lancei em março de 2008 recebeu o ponto final em março de 2006. Encontrar quem tope publicar o livro de um autor estreante com atenção e dedicação não é tarefa fácil. Muitos optam pela co-edição, caminho mais rápido, mas que pode ser traiçoeiro. Preferi publicar quando achasse que a oportunidade era boa, que meu livro estava bom para ganhar outros leitores. Mesmo já tendo participado de três antologias de contos, tive dificuldade para achar a oportunidade certa.
Qual é a história que você conta em De cabeça baixa?
Conto a história de um escritor em auto-exílio que encontra seu livro num sebo, cinco anos após a publicação, com as margens do texto todas anotadas com comentários cáusticos. Felipe Laranjeiras faz da tentativa de achar essa pessoa que escreveu no exemplar encontrado o ponto de partida para que ele consiga retomar sua vida, que ficou estagnada desde que o livro foi lançado com resenha negativa no jornal. Antes da publicação do livro, Felipe Laranjeiras era um escritor promissor, namorava, e depois do lançamento acaba preso no próprio fracasso, exilando-se voluntariamente em Curitiba, fugindo de todos e de si próprio. Com a descoberta de Desencanto no sebo, o livro que o tirou da cidade acaba o trazendo de volta ao Rio, onde tenta retomar sua vida do ponto que ela parou.
Seu livro é pura ficção, ou você partiu de algum fato real?
A idéia de escrever um romance que se inicia com uma pessoa que acha um livro todo rabiscado e tenta descobrir quem foi que escreveu aquelas anotações veio num dia nublado, andando com o pensamento longe. Mas o interessante do trabalho do escritor é pensar toda uma estrutura do antes, durante e depois que seja um arcabouço para aquela história que quer contar. No meu caso, queria passar esse sentimento de frustração, fracasso, da incapacidade de uma pessoa reagir quando os paraísos desabam. Foi preciso tomar muitas decisões, escolher caminhos, errar e acertar até o romance ganhar corpo, decidi que o personagem seria escritor de apenas um livro. É uma história totalmente ficcional mas que poderia ter acontecido com qualquer um, inclusive comigo, autor estreante. O fato do Felipe Laranjeiras, personagem desencadeador do romance, ser apontado como um escritor promissor que lançou seu primeiro livro, pode suscitar uma breve interjeição de suspeita de autobiografismo. Mas não é o caso, felizmente. E que ler o livro vai entender esse ‘felizmente’.
Você vem sendo apontado como uma das revelações da nova safra de autores nacionais. É muita responsabilidade?
Esse rótulo interessa a imprensa, que consegue adjetivar meu nome sem esforço, a editora, que ganha em status e possibilidade de venda, e, sem demagogia, o próprio autor, pela atenção e interesse que essa aura de revelação traz de reboque. Mas desglamurizando a situação é mais simples. Já participei de três antologias, expus um pouco do meu trabalho, então não sou um estreante inédito. Só espero que essa de sombra ela não vire peso com as cobranças. Sei que o nível de exigência será mais alto, mas deixo que o livro se defenda por si só, e espero que ele responda bem.
Em quem dessa nova geração você está apostando suas fichas? Por que?
Esse conceito de geração é um pouco elástico, na minha opinião, pois não vejo unidade, ainda bem, entre os autores contemporâneos. Qualquer corte – seja por idade, região, data de publicação do primeiro livro – vai mostrar grupos heterogêneos em forma, conteúdo e projeto literário.
Mas aceitando a provocação, e limitando em idade, 40 anos, e em autores de prosa, indicaria a leitura de alguns bons nomes como Marcelo Moutinho, Michel Laub, Adriana Lisboa, André de Leones, Tatiana Salem Levy, João Paulo Cuenca, Daniel Galera, entre muitos outros. Fora alguns outros que ainda não conseguiram publicar, mas em breve estarão nas livrarias. De gente nova de Minas conheço o trabalho da Christiane Tassis. O primeiro livro dela é muito bom.
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