De cabeça baixa


Centro Loyola
Abril 29, 2008, 3:44 am
Arquivado em: De cabeça baixa

Vocês já sabem, mas não custa repetir. Amanhã à noite, às 19h, no Centro Loyola, o ator Cacau Berredo vai ler um trecho do meu romance. Em seguida, Henrique Rodrigues vai mediar um breve papo comigo. Ele me contou que já está preparando umas perguntas para me deixar constrangido. Espero que não conte aquela história, Henrique. Pelo menos não aquela história.

O Centro Loyola fica na Estrada da Gávea 1. Para quem conhece o bairro, é só pegar a Marques de São Vicente e subir morro acima. Se você mal sabe chegar até a Puc, é melhor consultar o mapa. Foi o meu caso.



Breve numa livraria perto de você
Abril 27, 2008, 1:34 pm
Arquivado em: De cabeça baixa, Imprensa, Trailer
Saiu na edição deste domingo, 27.4.2008, do JB uma matéria sobre divulgação de livros usando trailers. Segue o texto:

Breve numa livraria perto de você

Jovens escritores produzem trailers cinematográficos para promover lançamentos


Bolívar Torres

Quando disserem por aí que um determinado livro é “coisa de cinema”, pode estar preparado para levar a afirmação ao pé da letra. Com o objetivo de incrementar a divulgação de seu primeiro romance, De cabeça baixa (Editora Guarda-chuva), o escritor Flávio Izhaki pôs no YouTube um trailer do livro – exatamente como vemos, antes de uma sessão de cinema, trailers de filmes que vão estrear em breve.

Izhaki gravou dramatizações de seu livro, usando atores, trilha sonora e planos cinematográficos, como um preview desses que se vêem nas salas escuras. É um passo adiante numa prática que invadiu os mais diversos espaços audiovisuais – vários exemplos podem ser achados pela internet (experimente digitar “Trailer” e “livro” no YouTube). O trailer do romance A vingança dos bastardos (Língua Geral), de Ana Paula Maia, fez tanto sucesso que chegou a ser exibido, para valer, nos cinemas.

– Quis fazer uma encenação do romance – esclarece o carioca Izhaki. – É um trailer do mesmo jeito que se faz no cinema. Não apenas fotos ou arte de imagens. É um resumo do livro, como se fosse um curta-metragem.

O escritor diz que a realização de vídeos para divulgar livros ainda é um processo em formação. Ele acredita que sua investida no domínio envolveu uma certa dose de experimentação.

– É uma linguagem que está começando – avalia. – Então, por enquanto, todos ficam tateando.

Primeira autora brasileira a promover um livro com um trailer dramatizado, a carioca Ana Paula Maia adotou um procedimento diferente. Para divulgar A vingança dos bastardos, seu segundo romance, preferiu a técnica da fotomontagem. Realizado pela produtora Crepúsculo (ler mais no quadro abaixo), o vídeo curto, de pouco mais de um minuto, contenta-se em transpor para a tela o caráter violento do romance, que trata do universo da cultura pulp. A história, que abriga boxeadores endividados, atores pornôs decadentes, ladrões de órgãos e outros personagens saídos diretamente do submundo, ficou representada por uma sucessão de imagens de um homem num apartamento repleto poças de sangue e pedaços de corpos humanos.

– O vídeo saiu do jeito que podia sair – diz Ana. – Se usasse atores, talvez ficasse falso. Quanto mais simples, menor a chance de estragar.

Depois de chamar a atenção no YouTube, o vídeo acabou sendo exibido nas salas de Rio e de São Paulo. Mesmo assim, Ana Paula não acredita que a boa repercussão tenha alavancado as vendas do livro.

– Virou um caso de repercussão interessante – diz. – A relação do cinema com a literatura é muito próxima. Acredito que o trailer de livro é uma tendência que vai crescer cada vez mais.

De cabeça baixa, o livro de Flávio Izhaki, narra a história de Felipe, um jovem romancista desiludido. Contando com poucos recursos, o autor buscou a ajuda da cineasta Débora Pessanha, que dirigiu o vídeo com uma equipe composta por estudantes do Curso de Rádio e TV da UFRJ.

– Foi difícil resumir o livro em um vídeo de dois minutos – admite Izhaki. – O meu romance usa metalinguagem e trata de um assunto muito literário.

O maior risco, no entanto, foi dar ao leitor uma imagem pré-concebida de sua própria obra. No trailer promovido por Izhaki, os personagens literários se apresentam em carne e osso, como numa adaptação cinematográfica avant la lettre. Com isso, poderia decepcionar os leitores que preferem imaginar por conta própria as narrativas que lêem.

– A solução foi escolher atores com físico diferente da descrição dos personagens e mostrar ao espectador que aquilo era uma representação, não uma adaptação. Como se fosse aperitivo para o leitor.



Alberto Mussa
Abril 24, 2008, 9:37 pm
Arquivado em: De cabeça baixa, Leitores

Recebi na última semana um e-mail de Alberto Mussa, um dos escritores mais premiados da literatura brasileira contemporânea. E um dos mais boa praça também. Como diriam as más línguas: “Nem parece escritor”. Ele me escreveu para comentar a leitura do De cabeça baixa. Publico seu e-mail, com o consentimento dele:

“Flavinho ,
li seu livro ontem, sem parar.
Gostei bastante. Seu livro tem o que falta à maioria dos que têm sido lançados por agora: um argumento inteligente, a idéia de um resenhista que reescreve um romance,  faz do autor personagem e fica escravo do que escreveu. Muito legal.
Embora eu suponha que as pessoas tenderão a valorizar o aspecto do conflito existencial do Laranjeiras, pra mim vale muito esse lado cerebral do livro, o jogo lúdico em si.
Valeu. Parabéns!”

Alberto Mussa é autor de quatro livros, entre eles O enigma de Qaf, vencedor do Prêmio Casa de Las Américas e APCA, e O movimento pendular, vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional e APCA.


Leitura dramatizada + bate papo
Abril 23, 2008, 4:28 pm
Arquivado em: De cabeça baixa, Trailer

Daqui a uma semana, na quarta-feira que vem, dia 30.4.2008, às 19h, participarei de um evento no Centro Loyola de Fé e Cultura da Puc-Rio (Estrada da Gávea número 1). O ator Cacau Berredo fará uma leitura de um trecho do De cabeça baixa. Em seguida, Henrique Rodrigues mediará um bate papo comigo sobre o livro, criação literária, a questão de como a tecnologia pode aproximar leitores e outros quejandos. Conto com a presença de vocês para não me deixarem falando sozinho (com ou sem tecnologia).



Literatura livre
Abril 22, 2008, 1:02 pm
Arquivado em: Sem-categoria

O site Literatura livre publicou uma resenha do livro na última sexta-feira, 18.4.2008. Segue o texto:

É muito comum em romances o protagonista ser uma pessoa ligada à área de Letras, seja como escritor, seja como professor ou outra função (profissão) afim. No livro de estréia de Flávio Izhaki não é diferente, mas a novidade é que o leitor encontrará três livros em um só: o romance em si, o romance escrito pelo protagonista e as anotações que uma leitora qualificada faz sobre este último romance. E esses três textos vão se relacionando ao longo do livro “De cabeça baixa”.

    O romance principal (vamos chamar assim) é a estória de Felipe, um escritor estreante e professor de literatura (autor do romance Desencanto). O narrador, em terceira pessoa, conta que, depois da repercussão do seu livro de estréia, que não foi muito boa (para usar de eufemismo), Felipe deixa a cidade do Rio de Janeiro e se muda para Curitiba. Depois de cinco anos do lançamento do seu romance, por esses acasos do destino, um dia acaba entrando em um sebo (em verdade, um lugar para se abrigar da chuva curitibana) e lá encontra um exemplar de seu romance, repleto de comentários de uma leitora, que virá a saber ser Ana Maria. Essa descoberta casual tem forte impacto em sua vida, e o leva de volta ao Rio para procurar Ana Maria.

    Essa narrativa, cujo enredo é bastante interessante, desenvolve-se com diversas marcas, tais com mistura de sensações: “Virou à direita, nada nem remotamente familiar, a cidade ainda lhe negando intimidades, depois à esquerda, mais chuva” (p. 3); “Os mesmos [livros] que folheara há dez, vinte anos, quando entrara pela primeira vez em um desses santuários de sabedoria, poeira e ácaros [sebo]” (p. 4); “Novamente sem roupa, entrou no banho para, com água gelada, inodora, enxugar seus líquidos expelidos, seus desencantos verdadeiros, completos, e não aquele outro, mal formulado em uma historieta que Ana Maria desancara com letra cursiva” (p. 21); “Sem tocar nela, testava contornos, imaginava fronteiras, provava sentimentos inexatos. Mas nunca durava muito, paliativo de segundo, parágrafo” (p. 47); “chuva que molha meu livro, mancha com pingos grossos as minhas perguntas, impossibilita as respostas” (p. 79). Além disso, sensações que o próprio texto faz o leitor sentir, como, por exemplo, o caminhar rápido em dia de chuva em um centro urbano: “Alguém bateu no seu ombro, Felipe assustou-se e desequilibrou-se entre dois passos premeditados para evitar poças. Um vendedor de guarda-chuvas: ´Cinco reais, quer, piá?´ Não queria, quase xingou. Com as duas mãos, fechou com mais força o casaco. Teve medo de que o livro, seu livro, estivesse molhado. Queria chegar logo ao apartamento para ler as anotações, de quem seriam?, ligar para alguém e contar, quem?, tomar um banho e um café bem forte” (p. 10); ou, ainda, toda a completude de uma cena em um único parágrafo: “Clara ligou e disse que precisavam conversar urgentemente. Ele respondeu que não, agora não podia, sua urgência era outra, não ela, e Clara entendeu, porque ela sempre entendia, ele era o outro, mas o outro, no caso dos dois, tinha seus privilégios” (p. 25).

    Alguns trechos são narrados com riqueza de detalhes, demonstrando uma observação de cenas cotidianas apurada do autor, cenas essas que muitas vezes nos passam despercebidas: “Ficou quase um hora sentado no banco de concreto. Alternava o olhar entre a janela – sempre fechada – e o escorrega do parquinho. Crianças desciam do brinquedo, subiam, desciam, as babás preocupadas correndo atrás das menores, as babás cada vez mais velhas e gordas, quinta, sexta geração que passa pelas mãos delas. As crianças pequenas e suas cabeças desproporcionais ao corpo, correndo tortas e sem direção, como formigas assustadas depois que o seu rastro foi perturbado pela mão do homem” (p. 73). Já outras cenas, narradas em detalhes, causam-nos identificação, ao menos por já termos vivido a mesma experiência: “A grade fez um estalido e se abriu. Felipe empurrou o portão fazendo força. Primeiro fraquejou, a porta quase fechou, era pesada demais, ele não imaginava um portão com aquele peso” (p. 115); “Tentou pôr ordem naquela bagunça. Não eram muitas páginas, 45, 40 talvez, mas pareciam mais, quando juntas ou espalhadas. Bateu as folhas na mesa, repetindo o gesto inicial, tentando arrumar o calhamaço como um caderno. Cumprida essa tarefa, folheou as páginas em busca de numeração e não encontrou. Olhando rapidamente, via apenas Felipe, Marcelo e Mariana pipocando pelo texto” (p. 134).

    Outros trechos são muito bem construídos, que merecem destaque, denunciando o cuidado do autor com o seu texto: “Morar sozinho era eternizar o momento em que ele tocava nas coisas pela última vez. Um livro centímetros fora do lugar seria um livro centímetros fora do lugar até que ele, somente ele, cutucasse o objeto para o local apropriado. As louças não se lavariam sozinhas, a lixeira continuaria a encher até transbordar, a televisão ficaria falando, se esgoelando em companhia do princípio de sono, sonho” (p.37 – quem já morou sozinho sabe, exatamente, o que é isso); “Caminhar na rua das Laranjeiras era dançar, um desvio constante dos camelôs, mendigos, buracos na calçada, carros estacionados” (p. 67).

    Ainda com relação às características da redação, o livro “De cabeça baixa” desenvolve-se, muitas vezes, fazendo ligações entre os capítulos e entre o tempo passado e o presente, como ocorre com o café a ser coado (p. 16) e o café coado em outra situação (p. 18); o pagamento ao frentista, de uma situação, e a saída do posto de combustível com o tranque cheio de outra situação (primeiro e segundo parágrafos da página 55); e iniciar o dia na data do lançamento do livro do protagonista (p. 29) e encerrar esse mesmo dia, cinco anos depois, com ele deitado na sala, luz apagada, assistindo à televisão (p. 31).

    Felipe, o protagonista, é um jovem, entre seus 20 e 30 anos, e seu livro – Desencanto – reflete “uma amargura juvenil” (p. 19); o mesmo acontece com o livro de Flávio Izhaki – “De cabeça baixa”: a personagem principal é um jovem, vamos dizer, “engajado”: aprecia Chico Buarque (p. 56), assiste a filmes de Woody Allen (p. 57), nas salas de cinema Unibanco (p. 64), e se preocupa com “os pobres coitados” da classe baixa ou da classe média (p. 69 e 71). Ao mesmo tempo em que mantém uma conduta usual, porém, politicamente incorreta, como largar um saco plástico no chão da rua (p. 11) e arrancar a página da lista telefônica do hotel em que está hospedado (p. 107). E os seus conflitos juvenis, embora não sejam a questão principal do texto, refletem-se, como não poderia deixar de ser, no desenvolvimento do romance (por exemplo, p. 71).

    A questão principal do texto, por outro lado, é de receptividade mais ampla: “De cabeça baixa” apresenta uma personagem marcada pela idéia do fracasso, da inércia (daí, o título do livro, conforme deixa claro a frase inicial da página 103). O autor principal (vamos dizer assim) apresenta uma figura interessante com relação a isso: “era a inércia e ele, um casal” (p. 23); “sentia uma força que nunca tivera, que vencia com espasmos sua inércia plácida, namorada no Rio e esposa em Curitiba (p. 26-27) – contanto tenha (infelizmente), abandado essa imagem de “casal”, de maneira muito pontual (felizmente), ao comparar a inércia a uma bebida (p. 24).

    Esse fracasso teve por estopim, e tão-somente por estopim, a receptividade do livro de Felipe: “Desencanto fora premonição do fracasso que se seguiu, não literalmente, mas na sua incapacidade de agir ou reagir. Restara apenas a fuga, impositiva, punitiva, e, desde então, jamais parar de correr, mesmo assentado em Curitiba” (p. 9). Fracasso que se identificava com a inércia em que vivia, e sempre havia vivido: “A sua vida sempre fora mais de nãos do que de sins até aquele momento. Vida em aguardo, eterno compasso de espera, pausa entre uma coisa e outra” (p. 45).

    Assim como acontece no seu romance (Desencanto), Felipe, ao encontrar seu livro todo rabiscado no sebo em Curitiba, por “coincidência, acaso ou sinal” (p.45), tem a primeira “virada” em sua vida, e sente uma força que o retira daquela inércia e o leva à ação. E a ação é encontrar Ana Maria, a pessoa que comentou o seu livro, e, junto com ela, encontrar respostas (se bem que o autor comenta com todas as letras: “De algum modo, o livro já cumprira seu objetivo inicial, reconduzir Felipe à vida que estacara cinco anos antes. E essa vida era no Rio” – p. 59). Nessa sua empreitada, Felipe começa a viver cenas do seu próprio livro (não se acomodar – p. 12 e 46; procurar a ex-namorada no Rio – 94 e 98). Felipe, dessa vez, decide não “fugir como sempre” (p. 90), e vai em busca da sua “salvadora” (p. 27) – ou de seu carrasco.

    Uma idéia quase inevitável que desponta da leitura do livro de estréia de Flávio Izhaki é algo como se seria, o seu romance, “reminiscências do futuro”, no sentido de o romance de Felipe (criatura) ser uma prévia e uma profecia do que viria a se tornar o romance do próprio Flávio Izhaki (criador): “No Rio, era jovem, promissor, querido, e tudo lhe soava falso” (p. 23); “[Felipe] Interpretava seu próprio papel, um escritor jovem, promissor, querido, que lançava o primeiro livro” (p. 29); ou, ainda, nas palavras da única resenha que o livro Desencanto, do protagonista de “De cabeça baixa” (confuso ?!?!), recebeu: “Quiçá esse sabor seja o desencanto do público e da crítica por um escritor que prometeu – ou prometeram por ele? – e não cumpriu” (p. 54).

    Definitivamente, Flávio é diferente de Felipe, e a resenha do romance deste último não pode ser aplicada ao daquele. Em primeiro lugar, Flávio tem criatividade, conforme demonstra o enredo do seu romance; tem, também, uma redação agradável, envolvente, tendo alguns pontos sido destacados acima; por fim, tem discernimento para desenvolver uma estória, sabendo dosar a realidade e a ficção, bem como a fantasia: o final de “De cabeça baixa” é bastante factível (talvez mesmo terreno demais!). Se alguma coisa há para evoluir, é plenamente natural, por se tratar de romance de estréia e devido à juventude do autor.



Literalmente
Abril 18, 2008, 1:03 pm
Arquivado em: Sem-categoria

Saíram as vencedoras da promoção do Portal Literal. Meu desejo foi atendido. As duas pessoas que levaram moram em cidades em que o livro não está sendo vendido (em livraria, pelo menos): Fortaleza e São Bernardo do Campo.

Claro que sempre resta a opção de comprar pela internet: Saraiva e Travessa.



O Popular
Abril 17, 2008, 3:30 pm
Arquivado em: De cabeça baixa, Imprensa

Saiu na última terça-feira, 15.4.2008, mais uma resenha do romance. Desta vez no jornal O Popular, maior periódico de Goiás. A resenha foi escrita pelo bravo André De Leones, um dos melhores mais talentosos da nova geração. Segue a resenha:

Um recomeço possível

André de Leones

Em De cabeça baixa, Flávio Izhaki dribla as armadilhas do tema e da forma propostos e tece um maduro romance de estréia.

A geração corrente da literatura brasileira, por alguns chamada de “Geração 00”, é talvez a menos lida e a mais criticada pelos resenhistas de plantão. Estes costumam apontar um suposto esgotamento temático e estilístico nos livros dessa turma. Entre as críticas mais comuns, estão: a) os protagonistas são, quase sempre, jovens escritores em crise; b) os livros “não contam histórias”. Para o deleite dos detratores do atual momento da prosa nacional, o protagonista do romance De cabeça baixa, de Flávio Izhaki, é um jovem escritor em crise. Mas, para o desconcerto dos detratores do atual momento da prosa nacional, o romance de estréia de Flávio Izhaki traz uma história das boas, e muito bem contada.

Nela, Felipe Laranjeiras, o protagonista, escreveu apenas um livro, um romance intitulado Desencanto. Antes de lançar esse livro, ele era tido como um talento bastante promissor. Desencanto, contudo, recebeu apenas uma crítica, arrasadora, e foi um fracasso comercial. Sofrendo, também, com o fim de um relacionamento amoroso, Laranjeiras resolveu deixar o Rio de Janeiro e se “exilar” em Curitiba. Quando o encontramos, no início do romance, ele já se encontra inerte na capital paranaense há cinco anos.

Em uma tarde tipicamente cutibana (fria, cinzenta, chuvosa), Laranjeiras adentra um sebo e, acidentalmente, depara-se com um exemplar de seu Desencanto. Anotações nada simpáticas em relação ao livro infestam as páginas do mesmo. A ânsia por encontrar a pessoa que fizera aquelas anotações faz com que ele saia da imobilidade na qual se encontrava, ensaiando, dessa maneira e por vias tortuosas, um recomeço possível para a própria vida.

O talento com que Izhaki alterna a busca de Laranjeiras com trechos de Desencanto e com as anotações feitas no exemplar encontrado por acaso é que torna De cabeça baixa um livro especial. Logo, o que poderia ser apenas uma brincadeira metalingüística acaba por se revelar uma obra madura. Talvez seja problemático referir-se ao primeiro romance de um jovem autor como uma “obra madura”, mas a leitura do livro, felizmente, não permite outra impressão. À estrutura muito bem pensada e desenvolvida, soma-se a deliciosa sensação de que o livro é escrito à medida em que o lemos. De cabeça baixa, em outras palavras, é dotado de um frescor invejável e prescinde dos maneirismos e arroubos estilísticos que, em geral, contaminam romances de estréia.

Além disso, o autor evita que a sua premissa caia em algumas armadilhas, como, por exemplo, transformar o romance em uma espécie de “primo pobre” das criações do norte-americano Paul Auster. Felizmente, isso não acontece, por mais que, em alguns momentos, perceba-se em Izhaki o mesmo apreço pelas auto-referências mais ou menos sutis e sempre irônicas que também constatamos nos trabalhos do autor de A Trilogia de Nova York. Afinal de contas, e assim como Desencanto para Laranjeias, De cabeça baixa é o primeiro romance de Izhaki, o qual, aliás, foi apontado (a exemplo de seu personagem) como um autor bastante promissor bem antes dessa sua estréia solo.

Ademais, a maneira como Izhaki desenvolve a sua história pouco tem de austeriana e não sofre de uma abusiva auto-referencialidade. Não há, portanto, a intenção de transformar o livro em uma espécie de labirinto metanarrativo ou mesmo em um jogo de espelhos sem saída. Em seu cerne, aliás, está a idéia de que há, sim, uma saída possível.

Outra armadilha seria colorir a dolorosa busca de Laranjeiras com as cores de um filme hollywoodiano banal. A idéia de um personagem que procura acertar as contas com o passado e se reerguer é, todos sabemos, bastante freqüente em um certo tipo de cinema, constituindo até mesmo uma espécie de subgênero. Em De cabeça baixa, no entanto, a cada passagem fica mais e mais evidente que o que foi perdido, perdido está e nada vai mudar isso. Logo, não há sequer a sombra de um final meloso, “redentor” ou catártico à espera do leitor. O que há, em resumo e conforme já explicitado aqui, é um ser humano a juntar os casos de si, ou o que ainda consegue juntar, e a partir disso ensaiar um recomeço possível.



Mariel Reis
Abril 16, 2008, 1:38 pm
Arquivado em: De cabeça baixa, Leitores

Mariel Reis foi meu colega em duas antologias: Prosas cariocas, na qual escreveu o conto sobre a Pavuna, e Paralelos, em que publicou um pequeno conto com tintas fantásticas que surpreende no meio da maioria realista.

Mais do que isso, Mariel Reis é uma história de vida que vale a pena conhecer. Mas isso seria diminuir o escritor que ele é e pode ser. Então, um passo atrás. Esqueçamos a biografia e concentremos no escritor. Em 2005 lançou Linha de recuo (Paradoxo Editorial). Agora tem no forno, só esperando editora, seu segundo volume de contos: John Fante trabalha no esquimó. Para conhecer seu trabalho, e ler os elogios que o livrinho-embrião já ganha de pessoas como Gustavo Bernardo, vale dar um pulo no blog do Mariel (Cativeiro amoroso e doméstico).

Foi em seu blog que Mariel Reis postou a resenha sobre De cabeça baixa, que copio abaixo:

“A leitura do romance de estréia deste autor carioca pode ser definida como sui generis dentro do campo em que se desenvolve: a ficção contemporânea. Não porque se desgarre por completo das questões abordadas por seus principais autores – João Paulo Cuenca, Cecília Giannetti e Daniel Galera – que trabalham a meta ficção como eixo alternativo a narrativa tradicional – isto é, a realista. Diversificando o modo de leitura deste real através de prismas subversores deste tipo de literatura tão identificada com os elementos narrativos canônicos: intriga, personagens e ação.

Flávio Izhaki paga também o tributo a esta senda aberta por ficcionistas de portes variados – Borges é um ilustre desta galeria – colorindo a seu modo isto que já se poderá chamar de técnica do novo romance neste novo milênio, confeccionada através do jogo intelectual – nisto se avizinhará dos romances policiais; a linguagem elaborada em um registro que comporte tanto a memória artística quanto a literária – cumprindo ambas o traço afetivo do ficcionista, que o embute em ciladas cada vez mais sofisticadas para escapar daquilo que se convencionou chamar de – o mal da narrativa em primeira pessoa.

Felipe Laranjeiras, escritor e professor de literatura, fracassa ao publicar o primeiro romance Desencanto, recebe uma pesada critica que o leva ao auto – exílio em Curitiba. Lá nesta cidade, em um dia chuvoso, percorrendo suas ruas, abriga-se em um sebo onde encontra um exemplar do livro fracassado dedicado formalmente à Ana Maria. Decide-se com isso a buscá-la investigando como já fora aludido a memória que aos poucos se reconstrói – tanto a nível ficcional quanto pessoal deste escritor. Entremeado ao livro de Cabeça Baixa aparecem trechos de Desecanto, duplicando o registro da escrita.

Em De Cabeça Baixa, além das costumeiras evocações a meta ficção, a presença do duplo é tão importante ser ressaltada como método encontrado por Flávio Izhaki para afastar as tentações desta narrativa em primeira pessoa – procedimento feliz quando se especula sobre as possíveis coincidências de parentescos entre ambos que podem ser muitas e também nenhuma. Outro fator que pode ser apontado como desvelo na construção deste duplo é que Felipe Laranjeiras não aparece para anular ou competir com Flávio Izhaki, o suposto autor do romance, ele corre a margem do discurso romaneesco encetado pelo escritor, supondo, ao leitor, ao final da estória, a inconclusão de ambos os romances – tanto o romance fracassado de Laranjeiras quanto o de estréia do autor carioca. Este parece ser o mérito maior na leitura do romance.

A idéia de um romance fantasma me seduziu não para questionar a validade do curto enredo desenvolvido ao longo das páginas, mas, como afirmação dessa matéria translúcida que permite passagem destes outras matérias através da trama do romance. Quanto à confecção do livro não há dúvida quanto ao domínio narrativo e a serenidade na condução dos eventos distribuídos ao longo do livro.

Flávio Izhaki merece especial atenção por ser um trabalhador dedicado tanto dentro quanto fora da literatura, sendo uma de suas marcas a discrição, o quase anonimato com que procura desenvolver suas tarefas, prestigiando a literatura com sua contribuição que a esta altura não pode ser apenas chamada de modesta, contudo, requer ser classificada como seminal.”



Correio Braziliense
Abril 14, 2008, 5:37 pm
Arquivado em: De cabeça baixa, Imprensa

O crítico literário Sérgio de Sá resenhou De cabeça baixa para o Correio Braziliense. Saiu no último sábado, 12.4, dentro do suplemento Pensar. Lembrando que em Brasília o livro pode ser encontrado na Livraria Cultura.

Mundo desencantado

 

De cabeça baixa (Guarda-chuva), estréia do carioca Flávio Izhaki (foto) no romance, tem um quê existencialista. Tudo seria normal não fosse o protagonista um jovem escritor em desespero, sempre à deriva, sem vontades. É cada vez mais comum encontrarmos personagens-escritores na prosa brasileira contemporânea. Há quem diga que os leitores da literatura nacional não passam de 3 mil abnegados, aí incluídos os professores e estudantes de Letras, que, diga-se, lêem pouco e menos ainda a produção atual.

 

Sendo assim, desprezados pelo grande público, os aventureiros da escrita ficcional partem em busca do reconhecimento no pequeno clube das palavras. Não sendo obrigados a dar satisfação ao tal do mercado (afinal, inexistente), têm se aproveitado para questionar o lugar do escritor na sociedade, o que ele representa e o significado disso tudo na própria vida.

Izhaki, 29 anos, repete a estratégia de modo metanarrativo. Um livro está dentro do livro. O romance Desencanto foi um fracasso: palavra importante para pensar o ponto de vista da narrativa, situação literariamente estimulante. Sem atenção da crítica e longe de qualquer repercussão, o “jovem promissor” Felipe Laranjeiras deixa o Rio para se instalar em Curitiba. As referências aos “simulacros” e ao bairro de Sérgio Sant´Anna são diretas. Abre-se a possibilidade de uma linhagem aí.

Especialmente em suas duas primeiras partes, De cabeça baixa tem um clima de ajuste de contas geracional muito parecido com o de Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera. A cidade dura e fria lá fora, eu e minhas circunstâncias aqui dentro – amores soltos, perdidos no tempo, o trabalho que não satisfaz intelectualmente (apenas permite a sobrevivência), a família, se família existe, numa perspectiva afetiva pouco calorosa.

 

A arte termina por se apresentar como uma saída cheia de armadilhas, e o final do livro soa como metáfora disso. O romance de Izhaki sobe de produção em sua parte final, justificando a leitura. Nas arapucas intraliterárias, que falam da impossibilidade de não discutir literatura ao fazer literatura, o leitor encontra o sabor amargo do abandono, da desistência, da tristeza em meio a um mundo que nos obriga à felicidade. De cabeça baixa é uma pena que anota, às margens das páginas comuns do cotidiano, a difícil experiência da escritura hoje.



Fernando Molica
Abril 14, 2008, 12:47 pm
Arquivado em: De cabeça baixa, Leitores

O botafoguense Fernando Molica lança nesta quarta-feira, na Livraria Da Conde, às 19h, seu terceiro romance, O ponto da partida. O autor aproveitará a data para lançar seu site pessoal, que já está no ar. De lá, pesquei esse textinho que o Molica escreveu sobre o meu De cabeça baixa. No site você também pode ler a resenha de O ponto da partida que saiu no JB no último sábado.

“O recém-lançado romance “De cabeça baixa”, de Flávio Izhaki, traz uma ousada e bem-construída teia que fornece muita linha para a pipa dos que gostam de discutir relações entre autor, obra e personagem. Ou melhor, tudo isso aí no plural: autores, obras, personagens. A trama pode até parecer complicada, mas não é: Izhaki conduz a história com segurança, sem perder o fio da meada. O livro trata de outro livro (“Desencanto”) e de seu autor, Felipe Laranjeiras. A partir de um pequeno incidente – a descoberta, numa livraria de Curitiba, de um exemplar do seu livro recheado de comentários nas páginas -, Laranjeiras dá início a um jogo que não deixará de surpreendê-lo. O autor – Laranjeiras, não Izhaki – acaba virando personagem de uma outra história, a ponto de não saber mais qual o seu papel naquela trama. De autor – fracassado, mas onisciente -, passa a personagem, pólo passivo de uma outra história, que não deixa de ser a sua. Laranjeiras (coitado) se sai melhor como personagem – imprevisível, surpreendente – do que como autor. No fim de tudo resta uma incerteza e uma certa angústia que têm muito a ver com a boa literatura – e, claro, com a vida.”