Orelha

Março 4, 2008

Marcelo Moutinho escreveu a orelha do livro. Foi uma escolha natural. Marcelo é um escritor que admiro e que esteve ao meu lado na lide literária nos últimos anos. Conhecemo-nos em 2003, num aniversário no Plebeu, e desde então somos grandes amigos. No ano seguinte já enfrentávamos uma empreitada inédita para os dois: organizar uma antologia literária.

A idéia partiu de um conto que eu tinha escrito sobre o Catete. Pretendia sugerir um especial sobre bairros do Rio para o pessoal da Paralelos e comentei com o Marcelo. Ele logo falou que aquilo dava livro. Dias depois estávamos na Casa da Palavra para vender nossa “idéia”, já com alguns nomes de autores da nova geração na manga.

O resto é história. Prosas cariocas foi muito bem: de público, vendas e mídia. A maioria dos nomes que lá estão - na ocasião ninguém com mais de dois livros, grande parte inédita - já publicou. E quem ainda não o fez, fará, certamente.

Posteriormente o Marcelo me convidou para participar de outra antologia que ele organizou: Contos sobre telas (Pinakotheke Edições). Na época já estava escrevendo De cabeça baixa, ainda sem esse título, aliás. Parei para escrever um conto que gosto bastante, baseado num quadro do Di Cavalcanti chamado “Moças”.

Antes de entregar os originais de seu último livro, Somos todos iguais nessa noite (Rocco), Marcelo me mandou o livrinho e pediu para que eu apontasse erros, fizesse sugestões, marcasse dúvidas. Lembro até hoje do dia em que ele foi lá em casa, e nós dois, muitos sérios, cervejas quase intocadas, esmiuçamos o livro dele. Ele fez o mesmo com o meu livrinho, e para o convite de escrever a orelha foi um pulo.

Aqui está ela…

Albert Camus escreveu certa vez que os únicos paraísos são aqueles que perdemos. Referia-se à capacidade que a memória tem de reconstruir cenários, envernizando o passado com uma demão capaz de apagar suas naturais imperfeições. Pois a história de Felipe Laranjeiras, protagonista deste romance de estréia de Flávio Izhaki, acrescenta novos matizes à amargurada assertiva do autor francês.

No início da trama, Felipe encontra-se exilado em Curitiba após um duplo malogro: a péssima receptividade de seu livro pela crítica somara-se ao fim da relação com Luana. Decorridos cinco anos desde a partida do Rio de Janeiro, ele empurra os dias na capital paranaense regurgitando “um gosto azedo, uma bile amarelada”, até que, durante a visita a um sebo, depara-se com um exemplar do fracassado romance. As páginas do livro têm, em seu entorno, uma série de anotações e, na folha de abertura, uma dedicatória: “Para Ana Maria”.

É a realidade que berra, “palpável, gelada”, como “uma corrente de ar frio vinda da rua”, e o expulsa do exílio voluntário. Felipe decide então encontrar a tal mulher e, em sua busca, encena a dolorosa tentativa de religar todas as pontas soltas. Expiando o hiato entre o artista promissor e o homem precocemente amargurado, ele procura também esquadrinhar os motivos do esfacelamento de seu caso com Luana.

Essa viagem – paralelamente literal e introspectiva - é conduzida com mão firme por Flávio Izhaki. Sem hesitações de estreante, açodamento ou barulhentas estripulias formais, o autor põe sua narrativa elegante e serena a serviço do enredo. Ao desconstruir o idílio, Flávio acaba por nos lembrar que, na literatura assim como na vida, todos os paraísos são mesmo artificiais.

 Marcelo Moutinho

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